180 PASSADAS POR MINUTO E… CONSEGUIRÁ CORRER MAIS RÁPIDO!


Ao observarmos os grandes corredores, os campeões, é fácil avaliar o grau de preparação que é necessário ter para se atingir aquela perfeição técnica. No que se refere ao caso particular do desenrolar da passada, é igualmente fácil concluir que o grau de eficiência patenteado apresenta, para além da natural predisposição para esse tipo de movimento, também todo um conjunto de muitas horas de apurado treino técnico. Naturalmente que muitos dos nossos leitores, ao verem essas estrelas do Atletismo em pleno esforço, são levados a pensar que tudo se desenrola de uma forma natural, qual magia “caída do céu”. Contudo, existe muito do chamado treino invisível para se conseguir um grau de eficiência de passada tão perfeita. Para além do trabalho no terreno e do treinador, são também necessários muitos conselhos técnicos vinculados pelos cientistas e, por exemplo, no que diz respeito à eficiência do desenrolar da passada, chegou-se à conclusão que os chamados bons corredores apresentam um tipo de passada de estilo naturalmente fácil, económico, e com uma particularidade muito interessante: num minuto executam 180 passadas!

 Pois é verdade, a análise sistemática dos  melhores corredores de fundo, tanto em laboratório como nos treinos, e mesmo em plena competição, levou os cientistas a concluírem que 180 passadas por minuto é, efectivamente, o numero ideal para se conseguir todo um melhor. rendimento atlético na corrida.” O etíope Kenesse Bekele, grande estrela’ em competições de Corta-Mato, Estrada e Pista, apresenta uma média de 178 passadas por minuto … Samuel Wanjiru, por sua vez, tem 184, Paul Tergat, 180 … Enfim, não vale a pena citar mais nomes, pois, como já referimos, a média ideal ronda as 180!

TRABALHO LABORATORIAL. ..

O mais curioso nisto tudo, é que, em estudos laboratoriais, verificou-se que quando se pedia aos atletas para fazerem mais passadas num minuto e, consequentemente, com menor dimensão, eles patenteavam mais esforço, os gastos energéticos eram maiores e, muitas vezes, o rendimento competitivo era nitidamente inferior à já tradicional média das 180. Porém, atente-se ainda a outro detalhe: no caso de se solicitarem maiores amplitudes de passadas e, portanto, um menor número de passadas em cada minuto, o resultado estatístico concluía que, tal como quando acontecia no caso inverso, também os dispêndios energéticos eram bem maiores a, par de uma menor eficiência na execução de tudo. Estas evidências puderam ainda ser confirmadas mediante a análise dos vídeos das passadas dos melhores’ corredores de fundo da actualidade, situação directamente relacionada com os parâmetros da eficiência do rendimento da passada quanto ao seu desenrolar mecânico. Conclusão, o ideal é que a maioria dos corredores, quando executam um esforço em traçados de piso plano, devem tentar aplicar a regra geral das 180 passadas em cada período de sessenta segundos. Para os atletas de pelotão, importa ainda enaltecer outro detalhe de natureza técnica. Referimo-nos ao facto de se conseguir correr ligeiramente mais rápido sempre que é aplicado o princípio das 180 passadas.

SISTEMA 180 PASSOS POR MINUTO

” Como aplicar um esquema prático para se tentar mecanizar o princípio das 180 passadas por minuto?

Para já, importa que o atleta se aperceba mentalmente da forma como o seu pé entra em contacto com o solo e das particularidades do desenrolar no solo até à fase da impulsão. Esta percepção vai fazer com que haja um maior cuidado no seu futuro estilo de corrida e, consequentemente, retirar maior prazer nos seus momentos de corrida. Naturalmente, podem existir vários processos práticos. Como exemplo de aplicação directa, sugerimos o seguinte:

1- começar com 10 minutos de corrida lenta, fácil e no passo habitual;

2 – Depois de uma ligeira pausa, correr durante um minuto no ritmo habitual, com a preocupação de contar o número de vezes que o pé direito entra em contacto com o solo. Nas primeiras tentativas, talvez não seja muito fácil esta mecanização da contagem, mas, volvidas as primeiras experiências, é fácil avaliar o número de “pisadas”. Para mais fácil aplicação deste esquema, é conveniente que o atleta disponha de um relógio com alarme e o programe de maneira a que, em cada minuto, surja um aviso sonoro;

3 – a fase seguinte, e sempre com uma passada descontraída, voltar a correr durante um minuto, contando uma vez mais as vezes que o pé direito contacta o solo. No entanto, há uma particularidade: em cada conjunto de 5 passos, acelerar ligeiramente o ritmo de andamento;

4 – Depois de nova pausa, voltar a aplicar o estipulado no ponto três, mas com a particularidade de, sempre que o pé direito tocar no solo, aplicar uma força maior sobre o mesmo. Atenção, se a frequência da passada for elevada, reduzir ligeiramente o ritmo. O importante é que tudo seja feito com movimentos descontraídos;

5 – Se for difícil ao atleta executar o ponto anterior, há que escolher traçado com bom piso, mas que apresente uma ligeira descida de maneira a facilitar o desenrolar da passada

Conclusão: o que se pretende é arranjar processos que levem o atleta a correr numa base das 180 passadas por minuto, ou, então, que ps valores apurados rondem essa base numérica.

o QUE FAZER NO TREINO?

É quase certo que muitos dos nossos leitores-corredores poderão levantar uma questão pertinente: e a altura do corredor? Esse aspecto não vai alterar a regra das 180 passadas como. a mais favorável para o desenrolar de uma boa corrida de fundo? A resposta é não! Paul Tergat é um atleta de estatura elevada (1,82) enquanto que Kenesse Bekele é mais baixo (1,72) e, no entanto, as suas frequências de passada, em cada minuto de esforço, são, respectivamente, de 178 e 180! E em termos de treino … O que fazer? Para já, com o auxilio de um cronómetro munido de alarme, avaliar, sem qualquer preocupação, o número de passadas em cada minuto de corrida. Ao ter esta preocupação, o atleta deve fazê-lo, por exemplo, durante uma sessão normal de corrida contínua. Sugerimos que o faça na fase inicial, na intermédia e no final da sessão. Estas primeiras avaliações numéricas têm como objectivo uma melhor percepção sensorial quanto à forma como o pé entra em contacto com o solo. Importa ainda esclarecer que, tanto quanto possível, esta avaliação deve ser feita em pisos planos e sem curvas, de maneira a permitir avaliação mais rigorosa. A fase seguinte deve ter em atenção os ritmos de andamento. Evidentemente que não é fácil, neste nosso texto para conhecimento de uma maioria de leitores-corredores, estabelecer uma tabela de ritmos. O que sugerimos é que os interessados utilizem o seguinte desenrolar de aplicações práticas:

1 – Num ritmo elevado, e aqui caberá ao próprio atleta estabelecer os seus limites cronométricos, executar 5 repetições sobre uma distância plana de 400 metros, com intervalos de recuperação de 2 minutos em caminhada e sempre com a preocupação de contar o número de passos no primeiro minuto de esforço. Esta avaliação pode ser feita pelo próprio atleta, com o recurso a um colega ou, para os mais “sortudos”, do seu próprio treinador pessoal. O importante é saber o ritmo de passadas num minuto de esforço controlado mas rápido.

2 – Igual processo ao mencionado no ponto anterior, com a particularidade do atleta tentar aplicar um ritmo intermédio de esforço, digamos aquele que aplica em competições mais curtas. De salientar que os valores mencionados em todos os pontos devem ser regis1adts num folha, o que permitirá ao corredor ficar com uma noção clara do’ total de passadas habitualmente efectuado em cada minuto e aplicando diferentes andamentos.

3 – O mesmo sistema mencionado no ponto dois, mas, agora, com um andamento de prova longa.

No final destes treinos, que deverão ser aplicados não num só dia, mas sim ao longo de três sessões, ou melhor, no final da habitual programação de tais sessões, o atleta e o seu treinador poderão apurar os valores médios de passadas por minuto e partir para as fases seguintes, que poderão ser de simples manutenção ou de tentativas para que o corredor consiga aplicar com sucesso ao seu caso pessoal a regra das 180 passadas. Ao terminarmos, apenas um alerta. Esta base das 180 é uma indicação preciosa em termos de mecânica média das passadas ideais de um corredor de fundo. No entanto, os homens não são todos iguais e há que ter em atenção essas diferenças para que cada praticante de corrida consiga imprimir um tipo de passada que não seja demasiado artificial, mesmo que se atinja as 180 passadas em 60 segundos. O atleta deve ter como preocupação primordial a economia dos esforços, a aplicação de um estilo tanto quanto possível económico e, só depois, caso seja viável, pensar em tirar o melhor partido da regra das 180 passadas, mas sempre com ligeiras alterações e nunca com profundas modificações no seu estilo habitual. Importa ainda deixar claro que só mediante uma repetição sistemática do novo estilo de passada poderão surgir bons resultados .•

 

Por Reg Harries