Cãibras musculares…

Caibra

É quase um choque de 220 volts. E nem se sabe de onde vem. A única coisa que se sente é aquela contracção violenta atingir o músculo que está a ser exigido e, claro, acabar com qualquer pretensão de continuar o exercício. As cãibras são contracções musculares involuntárias,intensas e momentâneas de um músculo isolado ou de um grupo muscular. Normalmente acontecem durante ou após exercícios físicos extenuantes, mas com causas nem sempre tão simples de identificar quanto à sua ocorrência.

Há diversas causas para as cãibras e um ou mais factores podem ser responsáveis pelo espasmo. Basicamente, elas são o resultado de uma alteração da operação do potencial da membrana da célula muscular, por um ou outro motivo”, explica o DR. Turíbio Leite, fisiologista de desporto da Universidade Federal de São Paulo.

Isso é o mesmo que dizer que as células que compõem o músculo, ficam confusas e acabam fazendo com que o músculo se contraia mesmo que não se queira. “É preciso haver sincronismo entre os estímulos electroquímicos e as pequenas fibras responsáveis pela contracção do músculo. Quando essa harmonia é quebrada, ocorrem as cãibras”, completa o DR. Clemar Correia, neurologista do Hospital das Clínicas, especializado em medicina desportiva.

Mas porquê?

ódio e/ou potássio, assim como cálcio e magnésio. Antigamente acreditava-se que a falta de potássio era o principal responsável pelas cãibras. E todos caprichavam na ingestão de bananas, fruta rica nesse mineral, antes das provas. Mas hoje sabe-se que o papel do sódio é muito mais importante neste processo e que o consumo de isotónicos, que repõem os electrólitos perdidos, é indispensável. “Se uma pessoa em actividade física ingerir muita água, há um desequilíbrio hidro-electrolítico, ou seja, há diluição desses electrólitos podendo levar à hiponatremia, que é a baixa quantidade de sódio no organismo”, explica o DR. JoicemarTarouco, médico ortopedista do Instituto Cohen de medicina desportiva. “Isso explica o facto de que mesmo os músculos que não estão sendo utilizados durante a corrida, como os músculos do braço, por exemplo,poderem ser alvo de cãibras”,completa Clemar.

Outro factor frequentemente observado é de origem térmica. O frio pode facilitar as contracções involuntárias em atletas que correm numa noite de inverno ou que nadam em água gelada. Também muito estudada é a teoria metabólica, que se sustenta na ideia de que as cãibras ocorrem quando o músculo se torna “intoxicado” por metabolitos produzidos pela contracção muscular inerente ao exercício. Uma dessas substâncias é a amónia. Produzida durante a oxidação ou “queima” das proteínas, normalmente a amónia é conduzida ao fígado sob a forma de glutamina (o mais abundante aminoácido de forma livre encontrado no sistema muscular) ou alanina (aminoácido não essencial utilizado pelo organismo para sintetizar proteínas). Lá, é transformada em ureia e levada pela corrente sanguínea até aos rins, onde é filtrada e excretada. Entretanto, durante a actividade física o fígado tem a sua actividade reduzida e consequentemente, a transformação de amónia (solução aquosa do amoníaco) em ureia fica comprometida se comparada com as condições do repouso.

“Assim a amónia acumula-se perto das fibras musculares e, devido à sua toxidade, pode levar a cãibras, resume o DR. Turíbio. “Outra substância tóxica para o músculo é o ácido láctico, produto da desintegração incompleta dos carboidratos através de um processo conhecido como glicose anaeróbia”, explica Turíbio. Este processo ocorre no interior das células musculares e aumenta a acidez dentro da célula. “Isso pode afectar o funcionamento das fibras musculares e causar cãibras”, completa. Por fim, outro possível vilão poderá ser as alterações na transmissão dos impulsos nervosos do sistema nervoso central e periférico. “Essa é a causa mais difícil de ser diagnosticada, mas a menos frequente, felizmente”, diz Turíbio.

Nota 1
Contractura X Cãibra

Num primeiro momento, a contratura muscular pode parecer uma cãibra que demora a passar, já que o músculo se contrai e se recusa a relaxar. Mas as duas diferem entre si: na contratura causada pelo stress ou fadiga muscular há uma leve distensão e lesão muscular, com dor prolongada no local. Já a cãibra é uma contracção muscular momentânea e intensa, mas sem lesão nos tecidos do músculo.

Nota 2
Sem Dor

Caso passe pela experiência de sofrer uma cãibra, existem alguns cuidados para diminuir a dor e preservar o músculo atingido. “A pessoa deve alongar o músculo suavemente e massajar o local. É importante ressaltar que não se deve fazer esse trabalho de uma maneira brusca e repentina, ou poderá ocorrer uma lesão muscular, como estiramento e até ruptura das fibras envolvidas”, alerta Clemar. “Geralmente, deve-se alongar e aquecer a região”, concorda Turíbio. Algumas pessoas têm maior facilidade para apresentar cãibras e sofrem dessas contracções com mais frequência. A ciência ainda não sabe explicar essa predisposição. “Ainda não se sabe se há uma pré-disposição genética ou se é uma característica do hábito do treino”, diz Clemar.

Texto:Eduardo Petrossi