Conversa com Carlos Sá


Hoje falar de Carlos Sá, o ultramaratonista é falar-se de alguém que se está sempre a desafiar no desporto e que inspira os outros. O ser humano é capaz de feitos que desconhece. Faz parte de um núcleo de atletas que se propõe fazer o que ao desportista ocasional pareceria quase impossível. Confia no treino, no trabalho. Provavelmente o facto de ter nascido em Barcelos, a natureza interpelou-o desde sempre. Na juventude começa a correr aos 12 anos. Aos 13 começa a trabalhar no sector têxtil. Em 2004, faz um curso de iniciação ao montanhismo, proporcionado pelo também invulgar João Garcia, participando em diversas expedições. Talvez por estes motivos e nestes ambientes, o Trail surge como algo natural. Em 2008, começa a participar nas Ultra Maratonas. Rapidamente os resultados surgem, como é o exemplo com a vitória no Ultra Trail da Geira e o 2º lugar no Ultra Trail da Freita. Em 2010 entre outras provas, ganha os 101 Peregrinos em Ponferrada Espanha e Grand Raid dês Pirênêes, em França com distâncias de mais de 100 km. Em 2011, participa na mítica Marathon des Sables, no Sahara onde em seis etapas os atletas têm de cumprir 250 km. É no mesmo ano que participa no Ultra Trail du Mont Blanc. O limite definido era de 48 horas. Carlos Sá termina a prova em 22h48m, classificando-se em 5º lugar. Em 2012 vence 5 provas, de 7 que participou. Em 2013, vence a Ultramaratona do Death Valley, 217 km, com um tempo de 24h:38m. No ano passado regressa e mesmo condicionado, alcança o 3º lugar. Os desafios não vão parar. Enquanto Carlos Sá correr vai com certeza desafiar-se mais uma vez. Tentará uma vez mais, erguer bem alto as cores da bandeira portuguesa.

Sabemos que começaste a correr na juventude. Depois tiveste um período sem actividade física regular. Com que idade retomaste a corrida e como começou o percurso nos trails mais concretamente nos ultra trails? 

Recomecei a minha actividade de corrida e a praticar actividades de outdoor pouco antes dos 30 anos. Comecei por fazer montanhismo e escalada e, posteriormente, alpinismo. O alpinismo é uma actividade muito exigente. Iniciei-me no Trail, primeiro em Portugal e depois no estrangeiro, numa altura em que começou a ser bastante praticado na Europa. Os bons resultados que obtive nas provas levaram a que me dedicasse a esse tipo de corrida. Tal como aconteceu com muitos corredores, a minha práctica de Trail Running foi acidental.

Como explicar a quem está a começar nesta modalidade, onde se acumulam tantos quilómetros, o que irão precisar em termos psicológicos e físicos para conseguirem terminar uma prova com sucesso?

Mais do que terminar provas, acho que é importante manter a actividade e a dedicação. Primeiro que tudo devemos escolher desafios que sejam audazes, que nos permitam sonhar e nos auto-motivem a treinar todos os dias. Numa época de muito stress, temos cada vez menos tempo e dinheiro, o que nos leva a ter que trabalhar muito mais para conseguir pagar as contas. A corrida e os objectivos que traçamos podem ser um ponto de fuga e libertação do stress que vamos acumulando ao longo do tempo. Dedicar, por dia, uma hora ou duas à corrida e ter sempre presente o estilo de vida saudável ajuda a encontrar equilíbrio e a desanuviar de toda a tensão. A conquista de objectivos é o culminar de todo esse trabalho. Se tivermos feito o trabalho de casa, se tivermos conseguido treinar, se estivermos de facto motivados, os resultados das provas aparecem naturalmente. O problema não está nas provas, mas sim no dia-a-dia dos treinos.

Se tivesses de fazer uma ultra-maratona amanhã qual o equipamento que levarias sempre contigo e aquele que é opcional?

Depende sempre do tipo de prova que se vai fazer, se é uma Ultra, que oferece alimentação e outras condições, ou se vamos para uma prova de auto-suficiência. Correr é das modalidades mais baratas que existem, bastando para tal uma mochila e uns ténis. Com a vontade de evoluir e de se conseguir ter melhores resultados e conforto, surge a necessidade de obter equipamento de valor mais elevado. No entanto nenhum atleta terá entraves no que diz respeito ao equipamento, pois há marcas para todos os gostos e preços.

Numa das edições da Badwater nos E.U.A. conseguiste ganhar, onde um grupo restrito de atletas participa, alguns já há vários anos. Fizeste amigos lá. Qual a motivação e as barreiras que encontraste nessa prova que tanto te projectou a nível internacional?

A Badwater é uma prova difícil na qual pouca gente consegue participar devido às suas características e à logística que essa mesma prova exige. No entanto, como o tempo limite dá para fazer quase todo a caminhar, a participação numa Badwater está ao alcance de qualquer individuo que seja psicologicamente forte. Fazê-la da forma que a fiz, em cerca de 24 horas e com uma temperatura de 54º C, é que é mais complicado. A temperatura varia muito de ano para ano pelo que é preciso ter sorte no dia em que se vai correr. Por exemplo, já realizei as provas num clima menos desfavorável, com 20º C e 30º C. A Badwater não é para super-homens, é acessível a qualquer pessoa. O mais difícil mesmo é encontrar financiamento para realizá-la, encontrar uma equipa de apoio para nos apoiar e conseguir entrada na prova, porque só 100 atletas é que podem participar todos os anos.

Como é a tua preparação alimentar e ambiental visto que participas em provas com tanta diversidade em termos de amplitudes térmicas, altitude, humidade, como foi o Ultra Trail do Mont Blanc, a Marathon des Sables, o Death Valley ou o Arrowhead 135?

Curiosamente não faço muita preparação específica para cada uma destas provas, porque elas por vezes diferem de um mês e meio, dois meses, de prova para prova. Não tenho esse tempo para treinar especificamente para esses desafios. Tento estar o mais preparado possível fisicamente. Por vezes estou muito bem, outras vezes menos bem. No dia em que nós manifestamos vontade de participar nunca vamos saber se 6/7 meses depois vamos estar bem no dia da prova ou se vamos ter lesões ou outros problemas. A alimentação é normal, não há grandes cuidados, o que difere de desafio para desafio é a composição da mochila. Em alguns é necessário ter, previamente, aconselhamento nutricional.

Fazes treinos e provas em altitude, o que sentes quando vais a seguir fazer uma prova a baixa altitude? Como explicas o desempenho desta mudança no organismo?

Sim, essa alteração percebe-se no organismo e é muito importante. De facto, quando vou correr em altitude, tento sempre correr uma semana antes no local da prova para que o corpo comece a adaptar-se. O fuso horário e as diferenças de altitude afectam o nosso corpo. O meu tem correspondido bem a essas mudanças e, regra geral, todos correspondem.

Consideras a equipa que te apoia nas provas, como o teu médico, as pessoas da logística, do apoio nos abastecimentos, como componente fulcral para o sucesso do Carlos Sá?

Sem dúvida. Sem o apoio deles não seria possível obter os resultados que obtenho. Mais importante do que o trabalho físico é a atitude psicológica que nos transmitem, sendo quem nos dá força para continuar. No ano passado na Badwater, por exemplo, na qual terminei em 3º lugar, eu teria desistido se não fosse esse grupo de apoio. Fui para a prova lesionado, com uma ruptura, e no entanto a equipa não me deixou desistir. Fizeram muitos esforços para lá estar comigo e motivaram-me bastante. Coloquei em risco a minha carreira pois podia ter ali graves problemas físicos, mas não desisti, e fiz esse esforço para lhes oferecer essa possibilidade…

Como reage a tua família aos períodos de ausência?

Já se habituaram. Eles sofriam bastante, principalmente quando fazia alpinismo, modalidade na qual o risco é maior. Aqui há uma prova ou outra de facto arriscada, mas eu já dei mostras de que sou prudente. No dia em que estiver a pisar o risco como foi o caso da Jungle não penso duas vezes e retiro-me.

Na Jungle Marathon, na Amazónia, depois das dificuldades que enfrentaste juntamente com outros participantes e que explicaste num post na tua página do Facebook (bastante objectivo diria), voltarás a fazer a prova numa próxima edição se a organização tiver a humildade de reconhecer e alterar o que correu mal, nomeadamente a segurança dos atletas?

O Amazonas foi das zonas mais bonitas que eu já visitei e é das mais extremas para se fazer uma corrida de aventura. O clima, a humidade e a possibilidade de estar no meio daquela floresta era um desafio fantástico e foi por isso que eu incluí essa prova no meu plano de actividades. No entanto, não contava com uma organização que não faz jus a esse nome. A prova foi uma completa desorganização e colocou de facto em risco a saúde e a vida dos atletas. Quando assim é, nós que também organizamos provas e que somos referências para outras pessoas, temos mais do que obrigação de, primeiro não por a  nossa vida em risco e depois, ser exemplo para os outros, quer para as coisas boas, quer para as coisas que não estão bem.

És defensor daquela máxima que a um “treino duro, corresponde uma prova fácil”?

Se conseguirmos de facto treinar no dia-a-dia, e prepararmo-nos para o exame final, vamos estar muito fortes psicologicamente e vamos estar muito bem fisicamente.

Costumas participar em diversos eventos de carácter solidário. Muitos portugueses reconhecem o Carlos Sá como alguém que com humildade e perseverança, consegue vencer as adversidades, neste caso no desporto. Vês-te como um símbolo do desporto português que inspiras outras pessoas?

Eu vejo-me como muitas pessoas, como muitos portugueses. Felizmente tenho a sorte de ter a comunicação social e outros grupos como o vosso que dão relevo àquilo que vou fazendo, mas certamente há muitos atletas e pessoas a fazer tanto ou mais do que eu. Portugal é realmente um país muito solidário e se não fosse estávamos bastante pior do que estamos. Não acho que estejamos a viver um drama, uma vez que somos um povo solidário e que conseguimos atenuar um pouco as dificuldades. Eu noto isso quando vou para outros países. Ainda a semana passada estive com um grupo de americanos e eles notam isso em nós. Tentamos resolver todos os problemas, tentamos dar toda a atenção. Noutros países cada individuo vive a sua vida, é cada um por si. Portugal é um país com um povo distinto que, apesar de muitos defeitos, tem também a virtude da solidariedade.

Fundaste uma empresa a Carlos Sá Nature Events que organiza eventos, mantendo a forte componente do contacto com a natureza, sobretudo no Minho. Ao longo dos anos, a aposta é para reforçar, criando parcerias novas com patrocinadores, autarquias e associações?

É para reforçar. Além das provas e eventos que organizo, alguns de carácter social e outros de carácter competitivo, quero tornar a Carlos Sá Nature Events numa referência, não só em Portugal como também a nível europeu e, quem sabe, a nível mundial, na organização de grandes eventos. Portugal tem cenários excelentes para a prática desta modalidade e por isso quero dar a oportunidade aos atletas de irem acompanhados pelos seus amigos para determinadas zonas, num evento desportivo que possam explorar com segurança. Para isso criei os centros de Trail Running Carlos Sá. No máximo 10 centros em Portugal Continental que vamos inaugurar no próximo mês em Penacova. É uma oportunidade para qualquer pessoa, em qualquer altura, explorar o nosso país com amigos, através de alguns percursos, como já existe no BTT.

No próximo evento em que participarás (Ultra Trail Du Mont Blanc), quais são as ambições?

Recuperar bem das últimas provas que tive que me provocaram um grande desgaste e treinar nestas dez semanas que me faltam. Na linha da partida estão sempre 50 atletas de todo o mundo e qualquer um deles pode entrar no pódio. Provavelmente 70% desses atletas irão “cair” e eu espero não ser um deles. Para se conseguir entrar no top 5 tem de correr-se no limite dos limites e a qualquer momento podemos quebrar. Já consegui por duas vezes entrar no top 5. Vamos ver se consigo mais uma vez. Tudo farei, se o meu corpo permitir, para consegui-lo. Portugal estará muito bem representado, por mim, pelo Armando Teixeira, pelo Nuno Silva, entre outros.

Penso que poderá ser uma oportunidade depois do menos conseguido campeonato do mundo. No Mont Blanc existe muita qualidade e era fantástico conseguir colocar o Trail português entre as melhores equipas/selecções mundiais.

Por Luis Pinto