A minha mudança / Inês Castelo


Aos 24 anos a minha mudou. Eu, Inês, achava que tinha uma vida organizada, um trabalho, um namorado, uma família. No entanto, de um dia para o outro tudo mudou.
Fiquei sem trabalho, a minha relação terminou e o meu pai foi diagnosticado com cancro do pulmão em fase terminal.

Por outras palavras, o mundo como eu o conhecia, simplesmente terminou. Deixei de viver, limitava-me a acordar infeliz, a estar só por estar. Ansiava não sair da cama e voltar outra vez para ela. A solidão, a tristeza e a depressão tinham tomado conta de mim.
O sentimento de infelicidade era constante, não existia alegria como a Inês de outrora tinha, e isso estava a preocupar-me, sabia que tinha de agir. Sabia também, que a partir do momento que fosse ao médico, seria automaticamente encaminhada para psicólogos ou psiquiatras e o mais provável seria um longo período de anti depressivos e ansiolíticos. E não queria, de todo, isso para mim. Decidi o caminho mais longo.

O percurso mais difícil. A vida não é fácil e a solução para os meus problemas emocionais também não, pensei: “Vou correr!” e fui! Muito a esforço entendi que tinha de me movimentar durante uma hora e passo a passo percorri 7.5km em 60 minutos. Feliz!

Eu estava feliz!Pela primeira vez em meses estava satisfeita com o que tinha acabado de acontecer. Inês a sedentária, tinha “corrido” 7.5km sem parar. “Será que consigo fazer o mesmo amanhã?” O amanhã e o dia depois de amanhã chegou, e eu continuei passo a passo a movimentar-me por uma hora.

Naquela hora sabia que não ia ter a dor do coração partido, não iria sentir a falta do meu pai e não iria lamentar o facto de estar desempregada, ia simplesmente correr. Concentrar-me na respiração, não pensar na dor das minhas pernas e ignorar a “dor de burro”. Eram apenas estas três preocupações.

E não havia nada melhor! Era só isto, simples, despreocupado. Insisti, e as mudanças no meu corpo apareceram, sentia mais força, estava bem mais elegante, visivelmente mais magra e emocionalmente mais saudável. Eu tinha gordura no meu corpo, e muitas tentativas de dietas falhadas, ver mudanças deu-me firmeza para continuar.Mudei a minha vida.

Troquei o sedentarismo por corridas diárias. Mudei a alimentação e passei a ser maioritariamente vegan (eliminei a carne por completo e continuei a consumir ovos) e apercebi -me de que estava a vivenciar uma nova fase.

A energia estava a voltar, a vitalidade a renascer, o ânimo a crescer e decidi; vou à minha primeira prova.Desnecessário dizer que como em tudo na vida, não há nada como a primeira vez, e naquela prova, naqueles 8 quilómetros eu sabia que queria correr a vida toda.
Com o passar dos meses, fui lendo livros e pesquisando. Lia sobre corrida, sobre alimentação, sobre as necessidades do meu corpo, o que comer antes e depois dos treinos, como correr melhor, quais os melhores tênis, o que eram os treinos de séries… um mundo novo. Mas mais do que um mundo novo, era para mim o refúgio certo.
A fuga perfeita para a realidade. Eu tornei a corrida na minha nova realidade.Aprendi a resolver problemas de sapatilhas calçadas. Compreender o mundo à minha volta e instruir-me.Descobrir o que eu queria alterar em mim, melhorar. Deixar marca nos outros positivamente, escutar a vida que passa por nós tão rapidamente e rodear-me de boas energias.Sem dúvida que sinto isso, em todos os treinos e provas. Não há maldade no corredor.
Corredor corre por ele, porque ele gosta. Porque há prazer na dor, e porque a competição com ele mesmo é maior do que a competição com o outro. Bater record pessoal traz satisfação.  Queimar a sola de sapato no asfalto traz jovialidade.  O entusiasmo e euforia após cada prova, só me dá vontade de correr mais e mais.Hoje passados 2 anos, corri a minha primeira maratona. 42,195 quilómetros.  E vou dizer com o maior orgulho, foram as 26,2 milhas mais fascinantes da minha vida.Horas de treino, dedicação, sacrifício, entrega, muita devoção, mas muito, muito prazer.
Terminei-a feliz. Em êxtase, com vontade de pôr o mundo a correr para sentirem o mesmo que eu. Não há nada melhor na vida do que quebrar as nossas barreiras, porque mesmo numa pista de obstáculos, o segredo é saltar bem alto, por cima deles.
Este gosto por desporto e por um estilo de vida saudável, criou em mim uma necessidade maior de partilha.

Eu queria e quero, que todas as pessoas se sintam bem com elas, que sejam felizes. Mas felizes por dentro e por fora. Eu não sou um caso raro no mundo, existem muitas mulheres e muitos homens que sofrem e não têm rumo na sua vida. Muitas vezes o que nos falta é motivação. Encontrar uma saída naqueles dias infelizes e cinzentos e eu pensei que podia ajudar.

Deveria haver algo que eu pudesse fazer. Sou energética, adoro conviver eu posso ajudar pelo menos algumas mulheres a sentirem-se bem com elas próprias.

Foi aqui que comecei a pensar no meu projecto, “Time for Me – by: Inês Castelo” (TFM). O TMF surgiu para auxiliar mulheres adultas ou mais jovens a encontrar felicidade no desporto.

A minha intenção seria introduzir o gosto pelo exercício físico e partilhar as minhas receitas preferidas. Começou por algo simples. Duas horas por semana, eu combino o ponto de encontro e depois quem quiser aparecer só têm de se juntar a mim. Às 19:15h de todas as segundas e quintas feiras desde Junho que nos encontramos religiosamente para treinar.

No início éramos poucas, no entanto, hoje somos um grupo de 15 ou mais mulheres. E a maior novidade é que a partir de Dezembro, os dias de treino vão aumentar porque irei começar a dar treinos de corrida, para preparar todas para uma prova de 10km. Eu adoro o que consegui criar.

Faço com todo o carinho e empenho-me a sério para fazer os treinos didáticos e intensos. A planificação de cada treino deixa-me segura e faz-me acreditar que estou a fazer o que mais gosto.

Incentivar cada mulher que está à minha frente é um privilégio e é sem dúvida o maior projecto da minha vida.

Inês Castelo

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