O joelho do fundista

As causas, sintomas e tratamentos das lesões no joelho pelo Dr. J. LEANDRO MASSADA
Todos os «stress» de tracção e pressão que se exercem sobre as diversas estruturas músculo-esqueléticas, tanto no treino como na competição, atuam como estímulos formativos, tornando-as mais resistentes, Essa adaptação é mais intensa nos jovens, embora se possa verificar também nos adultos. Se, por um lado, a falta de actividade física conduz à diminuição da quantidade de tecido ósseo e da mobilidade articular, o excesso de cargas pode desencadear fenómenos inflamatórios nas estruturas ligamentares e tendinosas, fenómenos degenerativos das articulações e mesmo fracturas de sobrecarga ou fadiga.

 Paradoxalmente, são estas lesões relacionadas com cargas intensas e repetidas, condicionadas pela repetição incessante de um mesmo gesto desportivo e que no fundista é traduzido pela corrida, que, ao solicitar ciclicamente sempre as mesmas estruturas anatómicas, desencadeiam-lhes fenómenos inflamatórios, que facilmente seriam resolvidos nos indivíduos sedentários mas que nos atletas de alta competição são ingratas de tratar, em virtude da necessidade contínua do treino. Se, por um lado, a causa fundamental do aparecimento de lesões nos fundistas se deve prioritariamente às grandes cargas de trabalho, existem outros factores que, isoladamente ou em conjunto, as podem favorecer:

– Treino Desportivo

– Anomalias Estáticas do Atleta

 

16-02-2012 20-37-11

 Treino Desportivo

A maioria das lesões ocorrem no treino, 76.9% para os nossos velocistas (Leandro M. e col, 1985), sendo 60% dos problemas dos fundistas associados a erros do treino (JAMES e col, 1978). O  treino  regular, metódico e bem planeado é fulcral para o desenrolar de qualquer actividade atlética, melhorando não só as performances, como também adapta progressivamente as estruturas esquelétlcas a cargas cada vez mais elevadas. No plano físico e nos fundistas em particular, é fundamental manter um esquema diário de flexibilização dos grupos musculares das regiões posteriores da coxa e perna. Quanto mais flexível for o fundista, menor será o número de lesões, principalmente dos membros inferiores.

ANOMALIAS ESTATICAS DO ATLETA

O exame programado, principalmente dos membros inferiores do fundista, é de uma importância relevante para a prevenção das temidas lesões de sobrecarga. Grande parte das lesões de sobrecarga nos fundistas, sindromes rotulianos, canelítes, tendinites aquilianas, etc., poderão ser agravadas ou mesmo provocadas por pequenas alterações estruturais dos membros inferiores, devendo o exame deste segmento anatómico ter em atenção não só a detecção como, se possível, a correção das seguintes situações:

• Anca

– ànteversão exagerada do colo femural;

– deficiente flexibilidade do tensor da fascia lata.

• Coxa

– deficiente musculação dos quadricípiteso

– defíciente flexibilidade dos músculos posteriores da coxa (isquio-tibiais).

• Joelho

– joelho varo ou valgo;

– instabilidades rotulianas;

• Tornozelo e Pé 

– falta de flexibilidade do tendão de Aquiles;

– pés planos (chatos), cavos;

– Hiperpronação exagerada do pé não só em carga como durante a corrida (hiperpronação

– pé «cambado» para dentro).

• Assimetrias do comprimento os membros inferiores.

PISOS E CALÇADO DESPORTIVO

Parecendo à primeira vista mais um excesso dos «teóricos», a escolha criteriosa não só do calçado desportivo, como também dos pisos onde se desenrola o  treino  , são factores fundamentais ligados à prevenção das patologias traumáticas que parasitam os fundistas. O atleta deverá procurar pisos regulares, com bom poder de absorção das forças traumáticas desencadeadas durante a passada, tal como a relva ou a terra batida, evitando as mudanças bruscas de  treino  em pisos de diferente dureza. Deverão ser também reduzidos ao mínimo o treino em estradas abauladas, os empedrados, os percursos com curvas frequentes e apertadas, evitando-se ao mesmo tempo o aumento brusco da quilometragem. O calçado desportivo, de primordial’ importância para a prática de qualquer actividade desportiva, deverá no fundista ser criteriosamente escolhido em função do tipo de prova, tipo de terreno e tipo de pé. Durante o  treino  em terrenos duros e irregulares, é aconselhável o uso de sapatos com sola com um desenho que permita uma boa aderência, devendo ser espessa, maleável e leve. O calcanhar deverá ficar bem bloqueado pela região posterior do sapato, devendo este, na sua região anterior, permitir uma boa adaptação das cabeças dos metatarsianos. Quanto mais fina for a sola e mais leves forem os sapatos, maiores serão as cargas a suportar pelas estruturas anatómicas dos membros inferiores. Este calçado desportivo deverá reservar-se para as competições, pois se o atleta preferir trocar a velocidade a que se desloca pelo bem estar dos seus pés «mais tarde vai pagá-Ias».

JOELHO DO FUNDISTA

GONALGIAS ANTERIORES

As dores referidas à região anterior do joelho no fundista devem-se na grande maioria dos casos a conflitos patelo-femurais e à patologia desencadeada pela hipersolicitarão do aparelho extensor do joelho durante a corrida: síndrome de Osgood-Schlatler e tendinites rotuliana e quadricipital. Sindrome patelo-femural Define-se sindrome patelo-femural como uma patoloqia resultante do conflito entre a região posterior da rótula e a tróclea femural, seu local de encaixe e deslizamento, clinicamente traduzida por dores na região anterior do joelho, evoluindo por vezes para a  condromalácea, isto é para alterações degenerativas da cartilagem articular da rótula. A sua incidência aumentou extraordinariamente desde o súbito aumento do número de praticantes interessados pela corrida de fundo.

A patologia rotuliana, é muito mais frequente entre as mulheres, embora se desconheça as suas verdadeiras causas. Apontam-se vários factores predisponentes, sendo os principais entre os fundistas os seguintes:

– assimetria do comprimento dos membros;

– joelhos valgos (<<metidos para dentro»):

– torção tibial externa exagerada;

– rótula alta, baixa ou excêntrica;

– alterações anatómicas da rótula ou da tróclea femural;

– técnica deficiente de corrida, com excesso de pronação do pé.

Inicialmente, os atletas queixam-se de dores difusas mal localizadas na região anterior do joelho, que predominam no final da prática desportiva agravando-se durante as subidas e descidas dos percursos, e impedindo os de manterem os joelhos muito tempo flectidos.

O exame físico poderá detectar:

– hipotonia ou atrofia do quadricípites, principalmente ao nível do músculo vasto interno;

– excesso de mobilidade da rótula quer com o joelho em extensão, quer com este flectido a 30 graus;

– joelho valgo;

– pé plano ou hiperpronado;

– assimetria do comprimento dos membros;

– falta de elasticidade dos músculos posteriores da coxa;

– dor à palpação das facetas rotulianas e à ascensão contrariada da rótula; .

-RX exame radiográfico convencional na maioria das vezes negativo.

Tratamento:

Durante a fase aguda, deverá o atleta respeitar repouso absoluto. Posteriormente, em fase subaguda, permito o treinamento de endurance sempre que este não agrave a sintomatologia, tendo em atenção a flexibilização dos isquio-tibiais, a musculação dos quadricípites, a correcção das assimetrias do comprimento dos membros e da hiperpronação com cunhas. Será de boa norma verificar o estado do calçado desportivo, podendo usar-se «joelheiras» com «janela» para não permitir a compressão da rótula.

Na grande maioria dos casos, os síndromes patelo-femurais respondem ao tratamento conservador, sendo pouco frequentes recorrer-se ao tratamento cirúrgico, reservado para os casos mais renitentes.

Doença de Osgood-Schlatler A doença de Osgood-Schlatler parece ser o resultado de microfracturas da tuberosidade anterior da tíbia, local de inserção do potente tendão rotuliano. Frequente entre os fundistas jovens, em fase de crescimento rápido, parece ser favorecido pelos microtraumatismos repetidos sofridos por esta zona anatómica durante as extensões em carga do joelho, pelo  treino  intenso em pisos duros e pela falta de flexibilidade do aparelho extensor do joelho que não responde ao alongamento intenso das estruturas ósseas, durante a fase de crescimento rápido nas crianças. O atleta que inicialmente se queixa de dores ao nível da região ântero-inferior do joelho que o impedem de correr e de saltar, recupera rapidamente na maioria dos casos, com um breve período de repouso desportivo (4 semanas), não deixando esta patologia, após a cura, qualquer tipo de incapacidade.

Tendinite rotuliana Típica dos saltadores (joelho do saltador), a tendinite rotuliana e, com menor frequência, a tendinite do tendão quadricipital, resultam primordialmente dos microtraumatismos sofridos por estas estruturas tendinosas durante as contracções activas do aparelho extenso r do joelho verificadas no salto, remate e corrida, principalmente em pisos de grande dureza. A lesão poderá situar-se no corpo do tendão ou nos locais de inserção ao nível do polo inferior da rótula ou tuberosidade anterior da tíbia. Esta afecção tendinosa, na maioria dos casos benigna, em fase avançada é altamente incapacitante para o atleta de alta competição, obrigando-o a períodos prolongados de paragem desportiva. Caracteriza-se inicialmente pelo aparecimento de uma dor na região anterior do joelho ao nível do tendão rotuliano, geralmente após a prática desportiva, que inicialmente poderá desaparecer até com o aquecimento muscular, mas que posteriormente tenderá a agravar impedindo o atleta de saltar e correr. A correcção dos factores predisponentes, a diminuição da quantidade de trabalho, a aplicação local de gelo após os treinos e os anti-inflamatórios conseguem controlar grande parte destas lesões, sendo pouco usual o recurso à infiltração pretendidos do tendão com corticóides ou mesmo a cirurgia. .

GONALGIAS INTERNAS

Frequentes entre os fundistas, as dores ao nível da região interna do joelho, poderão ser o resultado das seguintes entidades clínicas:

– estiramentos capsulares;

– ligamentite do ligamento lateral interno do joelho;

– ligamentite da aleta rotuliana interna;

– tendinite da pata de ganso.

Usuais entre os fundistas com os joelhos valgos, e com excesso de pronação do pé durante a corrida, agravam-se durante os percursos em pisos duros e abaulados.

GONALGIAS EXTERNAS

Também extremamente frequentes entre os fundistas, as dores na região externa dos joelhos, que caracteristicamente parasitam os atletas ao fim de uma determinada quilometragem quase constante, poderão ser devidas às seguintes entidades:

– Iiqarnentite da aleta rotuliana externa;

– conflitos patelo-femurais;

– lig.amentite do ligamento lateral externo do joelho;

– tendinite de inserção do bicipites crural ao nível da cabeça do peróneo;

– aponevrosite da bandícula íleo-tibial.

Enquanto a maioria das patologias acima focadas se traduzem por dores bem localizadas, a inflamação da bandícula íleo-tibial, que continua o tensor da fascia lata a partir da união do terço médio com o terço súpero externo da coxa, traduz-se por dores na região externa do joelho, mal localizadas, parecendo resultar não só da sobrecarga do tensor da fascia lata em situações biomecânicas desfavoráveis (fadiga, pronação exagerada do pé, deficiente flexibilidade), como também de fenómenos de atrito desta estrutura de encontro ao côndilo femural, durante os movimentos de flexão extensão do joelho.