Os asmáticos devem praticar exercício?


Em muitos asmáticos o exercício é identificado como um dos diversos fatores que provocam crises asmáticas. Noutras pessoas, a asma aparece exclusivamente associada à atividade física.

Durante o esforço físico surge a asma denominada “asma de esforço”. As razões apontadas são de vários tipos. Em primeiro lugar a importância da temperatura e da humidade do ar. A respiração do ar frio e seco pela boca está mais associada à asma de esforço, devido ao efeito de aquecimento e humidade do ar exercido pelas fossas nasais. 

Por outro lado, atividades mais estáticas ou de menor exigência respiratória de esforço, não causam crises asmáticas com tanta frequência.

A situação inversa acontece mediante o ar quente e húmido, que funciona como condição ambiental de redução dos ataques de asma durante a prática de exercício físico. Um dos exemplos é a natação em piscinas aquecidas, sem dúvida uma das razões porque tantos asmáticos escolhem a natação como atividade física preferencial.

Ainda assim, muitas pessoas portadoras da doença preferem nunca iniciar exercício físico, pois os ataques costumam suceder 15 minutos após o início. Existem, todavia, maratonistas e atletas de alta competição (incluindo recordistas olímpicos e outros nomes sonantes como as maratonistas Rosa Mota e Paula Radcliffe e o tenista Nuno Marques) que, sofrendo de asma, conseguem vencê-la, ainda que temporariamente.

Uma prescrição médica adequada e a inalação de broncodilatadores 15 minutos antes da prática de exercício, podem proteger o afetado durante 2 a 3 horas. E esta solução apresenta-se igualmente válida para a esmagadora maioria da população comum que sofre da doença.

Saiba, contudo, que existem alguns cuidados que não deverão ser descurados. Assim, desportos de longa duração, como o atletismo ou ciclismo estão desaconselhados, pois vão expor os brônquios a um esforço maior de respiração e a crise asmática surgirá com maior facilidade. Desportos mais ligeiros e parcelados, como o ténis ou o pingue-pongue, são mais aconselhados, pois permitem a existência de períodos de descanso – ainda que curtos – entre os períodos de exposição ao esforço. A natação, por seu lado, é uma ótima escolha pois o ambiente húmido e quente da piscina e a posição horizontal do corpo favorecem o treino dos músculos respiratórios e a expulsão mais facilitada do muco – preste atenção a doses excessivas de cloro que poderão desencadear crises.

Entrevista a Prof. Dr. Luis Delgado

Vantagens ou desvantagens do exercício?

Durante muito tempo reinou a ideia de que as pessoas com asma deveriam abster-se de praticarem exercício, o que é errado.

A questão é que vários estudos científicos mostram que o nível de condição física dos asmáticos é, em média, menor que o da população sem asma e da mesma idade. Isto leva a que quanto pior for a condição física, menos vontade tem o indivíduo para fazer exercício e quanto menos exercício faz, pior fica sua condição física.

Daí resulta um cansaço para as tarefas da vida diária, que é mais devido à sua má condição física do que à asma. O asmático, como qualquer outro cidadão, deve ter a oportunidade de obter benefícios para a saúde e para a condição física que resultem de uma atividade física adequada.

O que é a asma de exercício ou esforço?

Pode verificar-se um ataque agudo de asma em alguns doentes, quando estes praticam exercícios ou esforços físicos superiores à sua capacidade por mais de cinco minutos.

A asma provocada pelo exercício é evitável, cumprindo a medicação prescrita pelo médico antes de iniciar uma atividade fatigante.

Os exercícios respiratórios são úteis?

A apreciação dos efeitos a longo prazo dos exercícios respiratórios não revelou qualquer alteração notável da função respiratória. Contudo, os benefícios de um programa geral de exercícios incluindo os respiratórios – podem melhorar a saúde física e o bem-estar psicológico.

Uma criança asmática pode praticar atividades físicas?

A criança asmática deve ser encorajada a participar num programa controlado, de exercícios. A natação, a ginástica rítmica e outros desportos, não só melhoram as condições físicas, como também ajudam o doente a recuperar a autoconfiança e aptidão para superar a sua incapacidade. Um programa deste tipo deve processar-se, obviamente, sob orientação médica.

Um adulto asmático pode praticar atividades físicas, como desportos?

Tal como a criança deve ser encorajada a seguir um programa controlado, de exercícios sob orientação médica, assim deve acontecer em relação ao adulto. Contudo os doentes devem evitar a fadiga, que lhes seja provocada por esforços físicos, preocupações ou falta de sono.

Há asmáticos que chegam a praticar desporto de alta competição. Considera que é uma situação viável? Nesta circunstância, que conselho daria?

O exercício físico regular tem globalmente um efeito positivo na saúde humana, quer do ponto de vista psicológico quer fisiológico, melhorando a função cardiovascular, respiratória e músculo-esquelética. No entanto, em atletas envolvidos em programas de treino intenso e competição a existência de asma e/ou rinite vão impor limitações importantes à resposta respiratória ao exercício, com implicações no rendimento desportivo. Apesar das manifestações clínicas serem características (tosse, falta de ar, “pieira” que surgem geralmente após parar o exercício), a AIE pode apresentarem-se no atleta de alto rendimento apenas como uma intolerância ao exercício, traduzida por dificuldade de atingir o rendimento desportivo anterior. Este facto pode levar a um reconhecimento tardio da doença e, apesar de raro, estão descritos casos de morte por asma durante a prática desportiva.

O principal conselho é o de reconhecer precocemente e não desvalorizar os sintomas respiratórios com o exercício! Uma vez estabelecido o diagnóstico correto, dispomos hoje em dia de uma grande diversidade de tratamentos farmacológicos que nos permitem otimizar o controlo da asma e da doença alérgica, permitindo uma prática desportiva normal ao nosso doente, quer seja recreativa quer de competição.

Que comportamento se deve adotar quando a asma é induzida pelo desporto, provocando uma crise?

O principal objetivo para tratamento da asma induzida pelo exercício é a sua prevenção. Para tal, é fundamental conseguir o melhor controlo terapêutico da doença asmática e, particularmente, da inflamação brônquica que lhe é subjacente. Necessariamente, os programas de treino físico e as medidas de condicionamento das variáveis físicas associadas ao exercício, têm também um papel fundamental na atenuação da resposta broncoconstritora ao exercício.

Em relação a medidas de prevenção sabemos que, em muitos doentes, medidas de carácter geral poderão controlar a AIE e consistem, essencialmente, em saber-se lidar com as variáveis físicas associadas à prática desportiva. Por exemplo, a escolha de um ambiente quente e húmido será menos asmogénico que treinar em ambiente frio e seco, bem como será melhor exercitar-se num dia de menor índice de alergénios (pólenes) ou de poluição. Poderão ser úteis períodos de aquecimento constituídos por sprints múltiplos (duração de 30 segundos), com dois minutos de intervalo, realizados 30 minutos antes de um exercício prolongado. A mesma proteção poderá ser alcançada com a prática de um período de aquecimento contínuo de cerca de 15 minutos, mas em intensidade sub máxima. Por outro lado, a função nasal providencia contributo significativo para o condicionamento do ar inspirado. Tratando-se as causas de obstrução nasal, evita-se que se respire exclusivamente pela boca melhorando ou prevenindo a AIE.

2 ou o cromo glicato de sódio, inalados preventivamente antes da prática desportiva. Os corticosteroides inalados deverão assim, ser considerados como de primeira linha no tratamento da AIE, pela sua ação anti-inflamatória e normalizadora da hiper-reactividade brônquica. Como se sabe, os corticosteroides inalados, em doses únicas antes do exercício, não têm efeito imediato sobre a AIE. Mas, se tomados regularmente, podem modificar a severidade de AIE logo após a primeira semana ou, pelo menos, reduzir ou anular a necessita da toma preventiva de simpaticomiméticos.

Os medicamentos antagonistas dos recetores dos leucotrienos, em toma oral, para além do controlo da inflamação na asma e rinite, têm efeito protetor imediato e podem ser também muito úteis.

No que diz respeito ao tratamento farmacológico da AIE as recomendações reafirmam a prioridade de tratar precocemente a inflamação das vias aéreas que caracteriza a asma. Adicionalmente, se o doente estiver em período sintomático, deverá usar-se então, conforme a descrição clássica, os agonistas.

O pré-exercício, sem o adequado tratamento regular com anti-inflamatórios, pode ser perigoso para o doente, na medida em que a hiper-reactividade e a inflamação brônquica continuarão a aumentar, por falta do tratamento preventivo regular, conforme proposto anteriormente.

Para as situações em que se pretenda um efeito mais prolongado, em atletas com vários treinos por dia, os simpaticomiméticos de longa ação do tipo do salmeterol ou formoterol, poderão persistir como preventivos por 12h. Atender, no entanto, que o uso regular e frequente de agonistas-b.

No que diz respeito aos fármacos preventivos, com efeito imediato quando tomados antes do exercício, os mais eficazes, em cerca de 90% dos casos, são os agonistas.

De um modo genérico, como sintetizaria a problemática da asma e do desporto, tendo em atenção o elevado nível de prevalência da doença e a necessidade de fazer desporto?

As doenças alérgicas consomem hoje em dia uma parte importante dos recursos de Saúde, dado um prevalência crescente (atingem já cerca de 25% da população ocidental) e o seu controlo acarretar custos individuais e sociais elevados, o que tem originado varias iniciativas de intervenção pela OMS (por exemplo, os programas GINA e ARIA). Por outro lado, o exercício físico é hoje uma dimensão indissociável do nosso estilo de vida, não estando limitado aos atletas. A prática regular de exercício físico é hoje uma realidade para cerca de 1/3 da população ocidental, pois sabe que influencia positivamente a sua saúde, bem-estar e qualidade de vida, incluindo a do doente asmático. Assim, se da população ocidental 1/4 é alérgica e 1/3 pratica desporto, não admira que as interações entre a alergia e o desporto estejam no dia-a-dia da prática clínica.

O reconhecimento destas questões no desporto de alto rendimento tem como objetivo final um diagnóstico precoce e o controlo do atleta alérgico, fazendo com que este possa entrar em competição sem desvantagens físicas em relação aos seus oponentes. Se hoje em dia a alergia e a asma são situações muito prevalentes na população o médico do desporto, o treinador e o educador não se podem alhear dessa realidade. Hoje dispomos de terapêuticas muito eficazes, desde medidas farmacológicas, a intervenção ambiental passando pela dessensibilização (vacinas de alergia), não havendo razão para desvalorizar esta patologia como um problema menor, diminuindo, à partida, a qualidade de vida e desportiva dos nossos doentes.

O que é que pode desencadear ou agravar a asma de exercício? Como preveni-la?

É importante tomar atenção no Inverno, especialmente nos dias em que as temperaturas estão mais baixas e o ar está muito frio. Em situações em que se é alérgico ao pólen, deve-se evitar fazer ou restringir os treinos no exterior durante a época polínica (Primavera e início do Verão), sobretudo nos dias quentes e ventosos ou durante a manhã até à hora do almoço, em que os níveis de pólen no ar são mais elevados. Evite os irritantes, como o fumo do tabaco, cheiros ativos e os locais ou dias de altos níveis de poluição.

Mais de metade das pessoas que sofrem de AIE não têm mais episódios durante uma a duas horas após o primeiro ataque. Por isso, um período de aquecimento mais prolongado antes do exercício principal, com pequenos sprints (30 segundos cada dois minutos) ou um exercício de 15 minutos sem puxar pelos limites de força, diminui o risco de AIE. Manter em bom estado a respiração pelo nariz, tratando a rinite e assim desentupindo o nariz, ajuda a diminuir a gravidade da AIE.

Existem certos alimentos, como as bananas, ovos, camarão e amendoins, ou fármacos como a aspirina, que têm sido descritos como fatores desencadeantes de AIE e, em indivíduos alérgicos muito sensibilizados, os alimentos referidos podem mesmo desencadear reações graves com choque após o exercício. Assim, uma vez comprovada essa sensibilização, devem ser evitados antes do exercício.

Para além das várias maneiras de prevenir anteriormente descritas, o tratamento adequado da asma faz desaparecer a AIE. Cabe ao médico indicar qual o tratamento mais adequado mas, geralmente, a toma da dose normal do inalador broncodilatador habitual, antes do exercício, permite uma proteção de 2 a 3 horas, sem sintomas. Estes mesmos medicamentos podem também ser usados para aliviar os sintomas de asma, caso surjam. Os esteroides inalados, quando tomados antes do exercício, não previnem a AIE, mas se forem tomados regularmente para controlo da sua asma, esta manifestar-se-á de forma menos severa.

Que modalidade desportiva deve praticar o asmático?

A natação é um desporto adequado para pessoas com asma, porque apresenta muitos fatores positivos: a atmosfera que proporciona é húmida e quente, treina bem os músculos respiratórios e a posição horizontal mobiliza a expulsão do muco. Os desportos intermitentes, que alternam períodos curtos de exercício com intervalos como os desportos de grupo e o ténis, são mais aconselháveis.

Os desportos de longa distância e sem paragens, como corrida ou ciclismo, e os desportos de Inverno que forçam os pulmões a um trabalho pesado e contínuo e muitas vezes com ar frio, são os que mais podem desencadear AIE. No entanto, com treino apropriado e desde que se controle a asma e se cumpra o plano estabelecido pelo médico, pode-se praticar qualquer desporto ao nível dos não asmáticos.

O meu filho tem asma. Deve frequentar as aulas de educação física?

Sim. Pode e deve fazer exercício físico, exceto se estiver em crise. O exercício físico contribui para o bem-estar e para a saúde das crianças, promovendo um crescimento harmonioso e um melhor controlo do corpo. Contudo, o Professor deve ser sempre informado desta situação.

A medicação antiasmática é considerada doping?

Os medicamentos por via inalatória, broncodilatadores simpaticomiméticos e os anti-inflamatórios corticosteroides estão aprovados para serem administrados na prática desportiva pelos atletas que sofram de Asma Induzida pelo Exercício. Porém, e para que não seja considerado doping, é obrigatória a comprovação de uma notificação escrita. Esta declaração consta de um impresso próprio (aviso de prescrição médica para tratamento individual). Todos estes medicamentos, mas em formas que não sejam por inalação (comprimidos ou injeções) e muitos outros que são vendidos para a asma, são em regra proibidos. Assim, não se deve tomar nenhum medicamento para alergia ou asma sem consultar o médico.

Carlos Lopes
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