A verdade das dramáticas Cãibras…

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Cãibra pode ser definida como uma contracção espasmódica dolorosa que surge no decorrer de um esforço de corrida longa. É esta a sua definição clássica, mas, para nós, corredores, o que importa-o que consideramos na linha da frente,é exactamente a fuga ao problema dps cãibras, evitando-as ou combatendo-as da maneira mais directa e eficaz. A Dr. aMary Brewer apresenta-nos um texto com tal linha de pensamento e o claro objectivo de responder a muitas das questões levantadas pela maioria dos praticantes do nosso desporto. (M.M.)

Não,não é exagero nenhum. Para um corredor em pleno esforço, o aparecimento de uma cãibra é algo considerado logo como um verdadeiro drama! O atleta quer correr, andar, progredir, vencer mais uns metros, e a sua “máquina” recusa-se a fazê-lo …
É drama que tanto pode “atacar” qualquer modesto corredor com pouca ou quase nula actividade no desporto, como o consagrado campeão com décadas de experiência e de treino … Ele abrange todas. as modalidades desportivas, incluindo aquelas que ninguém imaginaria susceptíveis de serem atingidas, como, por exemplo, a praticada por aquele campeão de Biatlo (ski de fundo e tiro de carabina) que, no momento dos seus tiros ao alvo, sofreu de cãibra exactamente no dedo indicador.

É drama que tanto pode apanhar os velhos e lentos desportistas como qualquer fulgurante adolescente que transborde energia pelos seus poros … Surge sem que tenha hora marcada para isso e tanto pode “atacar”  qualquer um logo nas primeiras passadas como volvidas dezenas e dezenas de quilómetros …
É drama que também não escolhe distâncias nem velocidades, e tanto pode ser válido e forte apenas num curtíssimo esforço de 100 metros como em qualquer prova de Endurance de 100 km … Às vezes, apresenta-se suave e lentamente, como que uma espécie de sensação muscular muito ligeira, que vai crescendo, crescendo, até que, de repente, se apresenta fortemente dolorosa para o atleta, já convencido de que a tal pequena sensação muscular vai passar. Resumindo, poderemos dizer que estamos mesmo perante um verdadeiro e grande drama!…

COMBÁTER AS CÃIBRAS

Nesta breve resenha do “animal monstruoso” que é a cãibra, surgem automaticamente duas questões na mente dos desportistas:

– O desejo de nunca passar por tais situações;

– A maneira como combater tão incómoda adversária. Por outras palavras, como prevenir o seu aparecimento e como a combater quando ela surja!

Em termos de fisiologia desportiva, os avanços nas últimas décadas têm sido espectaculares em muitos sectores, mas, no que diz respeito a esta questão particular, das cãibras, continua a existir muitas teorias, tanto no campo da prevenção como no seu combate, principalmente quando se está em pleno esforço.

Também entre atletas e treinadores têm surgido muitas dicas, algumas delas particularmente “estranhas”, com mezinhas e outros tratamentos algo duvidosos, que se enraízam no seio do pelotão e acabam por funcionar como grandes verdades, embora se demonstre cientificamente que nada mais são do que grandes mentiras. É a pensar em tudo isto que elaborámos o presente texto e cremos que poderá proporcionar uma aprendizagem rápida a todos os corredores sobre o que, à luz da Medicina Desportiva actual, é considerado verdadeiro ou falso.

Vejamos, pois, algumas das ideias que normalmente circulam nos pelotões e nos clubes de corrida.

AS CÃIBRAS SURGEM MAIS NAS  PERNAS

CERTO. Sabe-se hoje que as zonas de inserção dos músculos nos tendões são as primeiras a ser afectadas por situações de debilidade e, assim, serão pontos fulcrais para o aparecimento de cãibras. Estamos a focar principalmente os gémeos e os grandes músculos das coxas, quer posteriores como anteriores. Para os corredores, serão esses os músculos mais vulneráveis e, consequentemente, os mais atreitos a ficarem lesionados. Uma das razões para isso, estará relacionada com o facto de, em plena corrida, sofrerem alongamentos repetidos e grandes estímulos eléctricos.

COMER BANANAS EVITA  LESÕES?

FALSO. Aqui está um tipo de prática bastante enraizado entre os triatletas e maratonistas, mas que nada tem de científico. Importa recordar que estamos perante um fruto muito rico em potássio, mas sabe-se que as lesões que queremos combater apresentam relação directa com a diluição do sódio no sangue. Ao ingerirmos bananas, não estamos a actuar directamente sobre a carência de sal mineral, sendo preferível ingerir qualquer bebida do tipo isotónico ou, se isso não for possível, recorrer a água com um pouco de sal.

HÁ ATLETAS QUE NUNCA SOFREM DESTAS LESÕES

VERDADEIRO. Ora aqui está umverdadeiro enigma! Os vários estudos estatísticos levados a cabo em muitos países  demonstram que cerca de 20 a 30% dos corredores que vivem ou viveram a modalidade durante um década nunca estiveram perante o drama da cãibra quando em pleno esforço, situação que faz com que determinadas pessoas estejam mais sujeitas ao aparecimento deste tipo de lesão do que outras. A predisposição poderá estar associada a um quadro de desportistas que não fazem exercícios de alongamento com regularidade ou cuja viscosidade muscular foi diminuindo com a idade.

Curioso, é o facto dos tais 20 a 30% dos desportistas que nunca tiveram estas lesões a correr sofrerem com regularidade das chamadas cãibras nocturnas, ou seja, os tais espasmos musculares bem localizados durante as fases de sono.

COM MENOS TREINO É MAIS FÁCIL SURGIREM CÃIBRAS

CERTO. Pois é verdade, quando menor for o grau de exercitação dos grupos musculares solicitados  durante o esforço, maior será o grau de incidência desta lesão. Também no caso particular dos atletas veteranos que excedem a sua aplicação ao exercício físico, isso é uma realidade a ter em conta, tal como nos esforços com grande intensidade. Porém, tudo está directamente relacionado com o grau de eficácia do músculo. Por exemplo, imaginemos que o atleta não está habituado a saltar obstáculos durante a fase de corrida. Se começar a fazê-lo num treino ou numa competição, ficará mais sujeito a ficar lesionado.

NO FINAL DA CORRIDA, O MELHOR TRATAMENTO É A APLICAÇÃO DE MASSAGEM

FALSO. Depois do duche, o caminho a seguir é a aplicação de GELO! Gelo na área afectada durante 10 minutos, seis a oito vezes por dia. Repouso, gelo, repouso, será o  tratamento a seguir à risca nas primeiras 48 horas. A massagem clássica é algo absolutamente desaconselhado, por estimular as micro-fibras que estão directamente afectadas pela lesão. Quanto aos alongamentos, só devem começar a ser feitos após o completo desaparecimento da dor muscular. Outra área onde se deve actuar, é na reposição dos líquidos perdidos durante o esforço, principalmente os electrólitos (magnésio, fósforo, potássio, cálcio).

A FALTA DE AQUECIMENTO É FACTOR QUE PODE PROVOCAR MAIS FACILMENTE CÃIBRAS

CERTO. Embora o nosso texto seja dirigido fundamentalmente a praticantes de corrida de meio-fundo e fundo, ou seja, em distâncias que não vão exigir grande grau de intensidade de esforço, a verdade é que “partir a frio” para uma prova faz aumentar o grau de possibilidades neste tipo de lesão. Correr, com algumas paragens 10 a 15 minutos antes do esforço, é algo que aconselhamos vivamente. Trata-se de um tempo mínimo para enfrentar qualquer competição de maneira mais adequada.

INTENSIFICAR A RESPIRAÇÃO FACILITA O DESAPARECIMENTO DA LESÃO

TALVEZ. Se estivermos perante uma situação de cãibra na região abdominal, esta  poderá ser uma saída para o desaparecimento da dor, embora sejam várias as causas para o aparecimento da chamada “Dor de Burro”. Ao intensificar-se as inspirações e expirações de forma rápida, mais não estam os a fazer do que a aumentar o grau de oxigénio que é ministrado no sangue e, portanto, a provocar uma acção directa na região do diafragma. Naturalmente que, quanto a possível espasmo muscular nos membros inferiores, nada, em termos respiratórios, terá acção directa sobre a dor ou desaparecimento da lesão.

BEBER ÁGUA GAZEIFICADA É SOLUÇÃO POSITIVA

FALSO. Embora vários estudos fisiológicos demonstrem que os atletas bem hidratatos estarão menos sujeitos a este tipo de lesão, a verdade é que não há nenhuma relação entre a ingestão de líquidos gaseificados ou não. É certo que o quinino figura na composição das águas ditas tónicas, mas está provado ser um produto que até apresenta características de perigosidade para o desportista em pleno esforço por ser um tóxico. Todavia, é algo que apresenta bons resultados como prevenção das chamadas cãibras nocturnas, um tipo de lesão momentânea que acontece quando o desportista está em pleno sono. Aliás, estes espasmos musculares são muito a comuns nos corredores que estão em plena fase de acumulação de um grande volume semanal de quilómetros.

ANSIEDADE E NERVOS ANTES DA PARTIDA , AUMENTAM A POSSIBILIDADE DE LESÃO

CERTO. Na realidade, quanto mais o desportista estiver ansioso, maiores serão as possibilidades de surgirem cãibras, e isto estará directamente relacionado com a quantidade de estímulos eléctricos que circulam no seu corpo, situação típica que pode provocar reflexos espasmódicos bem característicos deste tipo de lesão. Factores de confiança pessoal e de grande motivação acabam por levar o desportista a
maior concentração mental e desempenho competitivo muito melhor.

ALGUNS MEDICAMENTOS PODEM FACILITAR O APARECIMENTO DAS CÃIBRAS

CERTO. A ingestão de medicamentos do tipo diurftico pode ser uma das causas para o mais fácil aparecimento destas lesões. Sabendo-se que o café continua a ser uma das bebidas escolhidas para. ser ingerida na hora que antecede 6 tiro de partida e que é um líquido com características diuréticas, o mesmo é dizer que estamos perante um tipo de bebida com factores positivos (estimulação para o esforço) e negativos (características diuréticas por facilitar a perda de líquidos orgânicos).

PERANTE O APARECIMENTO DA LESÃO, NÃO HÁ NADA A FAZER

FALSO. Mesmo que no tocante à parte fisiológica nada houvesse a fazer, o atleta não deve tomar tal atitude, pois não nos podemos esquecer a vertente psicológica e a sua influência no rendimento atlético. O que fazer? Se aparecer uma contracção brusca e forte em determinado grupo muscular, o primeiro pensamento deverá ser tentar alongar a área afectada. Por um lado, assiste-se à diminuição da dor localizada. Por outro, tenta-se colocar o músculo numa situação que lhe permita voltar a trabalhar mais ou menos regularmente e com eficácia no seu rendimento. Como o fazer, já é outra questão, porque, se a lesão surge numa pista de atletismo, onde nada haverá para o atleta se apoiar, tudo é muito mais problemático atleta se apoiar, tudo é muito mais problemático comparativamente a uma corrida de rua, onde arvores, candeeiros, desníveis de passeios, etc, podem ser locais preciosos para o atleta encontrar um apoio fixo e esboçar o movimento Clássico de alongamento dos músculos dos  gémeos ou da parte anterior da coxa.l”braços enquanto alongávamos os gémeos …

Negativo, é tentar massajar a região muscular afectada, pois tal atitude irá aumentar ainda mais o grau de desarranjos microtendinosos, aumentando a tensão eléctrica dos estímulos nervosos e, consequentemente, os reflexos do grau de lesão. Por vezes, o aparecimento da situação de cãibra, principalmente no final de um esforço prolongado, pode surgir acompanhado de sensações de tonturas e ligeira perda de orientação. Perante um quadro destes, o melhor caminho a seguir será o abandono da competição porque o corredor pode estar perante um grande desequilíbrio hídrico, o que coloca a sua saúde em perigo.
Alongar, alongar sucessivamente uma, três, cinco vezes para ver se a cãibra desaparece, é o lema a seguir quando qualquer corredor for “envolvido” no drama da cãibra!

BEBER MUITA ÁGUA AFASTA ESTE TIPO DE LESÃO

FALSO. O organismo humano é, até certo ponto, uma espécie de máquina que funciona de acordo com determinados níveis ideais de líquidos. Se há falta de água, a “máquina” é obrigada a trabalhar mais lentamente, mas idêntica situação surge quando há excesso de armazenamento de água. Portanto, a regra será sempre a de nem muita nem pouca água. Porém, qual a razão por que água em excesso também não é vantajoso? A questão está directamente relacionada com o suor provocado pelo esforço de corrida e pela necessidade do organismo ir arrefecendo a temperatura corporal. Além de água, o suor contém sais minerais- e se o corredor apenas for bebendo água está a aumentar a diferença entre o teor dos sais e os líquidos existentes no organismo. O mesmo será dizer que vai cair numa situação de deficiência energética e, portanto, será obrigado a reduzir o ritmo de passada. A baixa do teor dos níveis de sódio no sangue, ou seja, um estado de hiponatremia, é uma das causas que provoca o aparecimento das cãibras patológicas.

A CAUSA DA CÃIBRA É O CANSAÇO MUSCULAR

FALSO. Nem sempre será assim, por ser um tipo de lesão que pode surgir logo nos primeiros minutos de um esforço tão longo como é o da Maratona. As causas para o aparecimento destas lesões são muito diversificadas, embora se saiba que o cansaço localizado é uma delas, sobretudo quando a elasticidade da estrutura muscular não está devidamente preparada, isto é, com um grau de flexibilidade que permita repetir determinado movimento milhares de vezes.

COM TEMPO FRIO, É MAIS FÁCIL TER CÃIBRAS

FALSO. É exactamente com temperaturas elevadas que pode ocorrer mais facilmente este tipo de lesão pelo facto do atleta estar mais sujeito a perdas de electrólitos devido a maior grau de suor e, consequentemente, de poder cair em estado de desidratação. Com temperaturas baixas, o perigo de cãibra surge em esforços de grande intensidade, em corridas curtas e rápidas, mas, nas provas longas, até será um factor climático. benéfico para o esforço em causa.

A TENSÃO ELÉCTRICA É PRINCIPAL CAUSA

VERDADE. A estrutura muscular do Ser Humano funciona mediante uma sequência de estímulos eléctricos. Ao corrermos, estam os a efectuar sempre o mesmo grau de tensão eléctrica num determinado grupo muscular. ‘Sendo assim, se o músculo estiver mal preparado para o trabalho que vai executar, pode surgir uma estimulação excessiva localizada, provocando reflexo de contracção anómala, de que resulta automaticamente a cãibra.

Os fisiologistas Martin Schwellinus e Timothy Noakes, da África do Sul, têm desenvolvido vários trabalhos científicos tendo por base exactamente o funcionamento do sistema nervoso e a relação directa entre determinados estímulos eléctricos e a lesão

Drª Mary Brewer
Revista SpiriDon