Arritmias cardíacas são comuns

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Recentemente fui procurado por um corredor com a seguinte dúvida: “Corro há muitos anos e nunca senti nada. Estou a treinar para a Maratona de Lisboae durante um treino leve, senti um disparo estranho no coração e muito cansaço. Inicialmente, não dei atenção e acabou passando, mas pouco depois senti de novo e resolvi parar o treino. O que é isto? Tenho que parar de correr? Sofro perigo de vida?” 

O consultante é um atleta muito bem preparado, com um tempo em 10 km inferior a 35 minutos. O que ocorreu com ele? Ele deve realmente parar de treinar? Isto é comum acontecer? Vamos tentar detalhar um pouco mais este assunto nas linhas seguintes. A arritmia cardíaca ou distúrbio do ritmo cardíaco acontece quando o coração bate mais rápido (taquicardia) ou mais lento (bradicardia) do que o normal, seja devido a uma doença cardíaca, extra cardíaca ou mesmo a uma causa desconhecida. A importância das arritmias cardíacas e a sua relação com o exercício físico cresceu de forma exponencial após o advento da reabilitação cardíaca e da massificação da prática regular de exercícios pela população geral com finalidades preventivas. As alterações funcionais e estruturais que a prática regular do exercício e o treino atlético produzem, são hoje bem documentadas através de exames como o electrocardiograma, o ecocardiograma, o Holter e o teste ergométrico.  

Por meio desses métodos é que se faz a avaliação dos indivíduos que apresentam sintomas suspeitos de dependerem de arritmias induzidas por esforço ou daqueles assintomáticos, que tiveram arritmia fortuitamente, detectada durante ou imediatamente após a prática do exercício. As arritmias graves e a morte súbita provocadas pelo exercício, geralmente dependem de doença cardíaca orgânica e as principais doenças cardíacas causadoras de arritmias são a miocardiopatia hipertrófica e a arteriosclerose coronária (também conhecida pelo leigo como angina, enfarte, etc).

28Como causa de arritmias graves ou morte durante o exercício, até à idade de 30 anos, a miocardiopatia hipertrófica é a mais importante (caso do jogador brasileiro Serginho); após essa idade, a arteriosclerose coronária responde por cerca de 98,5% dos casos.  

Após a década de 1970, aumentaram muito de importância todos os temas que relacionam o coração e os exercícios físicos. Um dos principais objectivos a ser alcançado pela população foi a melhoria da qualidade de vida, mas também teve papel relevante a prevenção das doenças cardiovasculares. Como resultado positivo, observou-se que os índices de longevidade nos Estados Unidos, na década de 1980, cresceram três vezes mais do que a média das décadas anteriores.

Entre os pontos , destacam-se as arritmias cardíacas provocadas pelo exercício, principalmente após os primeiros relatos de morte súbita entre a população aparentemente normal e que se exercitava, sem supervisão, nos parques, clubes e avenidas de grandes centros urbanos no mundo ocidental.

Mecanismo das arritmias e exercício físico

No início do exercício de intensidade moderada, ocorrem grandes modificações no coração. Uma das mais importantes é o aumento da frequência cardíaca (FC), também conhecido como taquicardia. A taquicardia que inicialmente ocorre com o exercício físico é normal e necessária para atender às demandas do organismo durante o exercício.  

Nessas condições, uma arritmia pré-existente poderá ser suprimida pela simples elevação da FC. Algumas arritmias (corno por exemplo, alguns tipos de extra-sístoles) serão suprimidas quando a FC ultrapassar 100 bpm. No entanto, o exercício poderá também aumentar a frequência de uma arritmia pré-existente, o que é mais observado nos corações anormais. 

O exercício eleva a frequência cardíaca, a pressão arterial, a velocidade e a força de contracção do músculo cardíaco. Como esses elementos são os determinantes do consumo de oxigénio do músculo cardíaco, poderá ocorrer isquemia (falta de sangue), caso exista doença obstrutiva das artérias coronárias.

Uma das principais alterações decorrentes dessa isquemia é o aparecimento de arritmias cardíacas as mais diversas. As modificações desencadeadas pelo esforço persistem após a cessação do exercício activo. 

Dessa forma, explicam-se as arritmias que aparecem no período de recuperação dos testes de esforço ou dos treinos e competições. Entre os mecanismos evocados para explicar as causas das arritmias cardíacas, após um exercício, estão a queda da frequência cardíaca e a dilatação das veias periféricas que, em última análise, diminuem a quantidade de sangue bombeada pelo coração e pode gerar mais isquemia, fechando um círculo vicioso.

Todos esses factos são agravados se, após a interrupção do exercício de moderada para grande intensidade, o indivíduo permanecer em pé, parado, permitindo que mais de 60% do volume sanguíneo possa ficar retido nos membros inferiores.  

Daí a importância do período de arrefecimento activo (trotando ou caminhando) após o término de um exercício, com o retorno venoso a ser mantido pelas contracções da musculatura dos membros inferiores. O aparecimento ou agravamento de arritmia durante o exercício é consequência de múltiplos factores que não actuam isoladamente e que exibem diferentes resposta sem indivíduos aparentemente semelhantes. Nenhuma dessas arritmias é “normal” durante o esforço.

Normal é a taquicardia fisiológica, ou seja, aquela que o organismo lança mão para suprir as suas necessidades de sangue e oxigénio, aumentadas durante o exercício.

 

 Três tipos de arritmias em desportistas  

A seguir, vamos discutir resumidamente os três tipos mais comuns de arritmias encontradas em atletas e como esses indivíduos podem ser libertados para a actividade física. Embora os nomes das arritmias possam parecer complicados ou até mesmo um pouco assustadores para os leigos, a explicação que segue está fácil de acompanhar.

Antes, no entanto, é importante mencionar que as arritmias a seguir descritas podem não provocar sintomas, como cansaço intenso, tonturas, falta de ar, sensação de coração mais disparado do que o normal para aquela actividade e até mesmo, perda de consciência. A conduta que o atleta deve tomar. ao ter uma arritia ou um sintoma como os descritos é parar a actividade e procurar auxílio o mais rápido possível num pronto socorro ou posto médico. Caso seja possível fazer um electrocardiograma no momento da arritmia, isso seria o ideal, pois faria o diagnóstico correcto do problema. Um indivíduo que já sabe ser portador de algum tipo de arritmia deve submeter se a uma avaliação médica ‘completa antes de começar ou continuar com a sua actividade física.

1) Taquicardia super ventricular 

Os sintomas deste tipo de arritmia podem ser os anteriormente mencionados, variam  de pessoa para pessoa. A sensação de coração disparado, mais do que o normal, alerta o atleta de que algo diferente está a acontecer com ele. No momento dessa “sensação estranha”, ele deve parar a actividade e procurar auxílio. Para aqueles que apresentam episódios repetidos desta taquicardia, deve ser instituído um tratamento.

Eles serão libertados pra a prática de todos os desportos de competição se, sob tratamento, não ocorrerem episódios de taquicardia. Os indivíduos sem sintomas com episódios de taquicardia supraventricular de curta duração (5 a 10 segundos), a qual não aumenta durante o exercício físico, podem participar em qualquer tipo de desporto de competição. As pessoas com íncopes (desmaios) ou tonturas, palpitações importantes relacionadas a arritmias, ou que apresentam uma doen a cardíaca significativa associada, não devem participar em nenhum tipo de desporto de “competição”, até terem sido tratados correctamente e se comprove ausência de recorrência durante um período mínimo de seis meses.

Durante esse período, eles podem participar em qualquer actividade física, desde que não seja de altas intensidades. Os indivíduos submetidos a um tratamento específico e que se tornaram assintomáticos, nos quais é impossível a indução da arritmia, podem retomar após três a seis meses do tratamento a qualquer tipo de actividade, incluindo as de competição.

2) Extra-sístoles ventriculares 

As extra-sístoles são as arritmias mais comuns e em geral, dão ao paciente a sensação de um “batimento extra”. Não costumam ser graves e na maioria das vezes, nem sequer provocam sintomas. Não é raro desaparecerem completamente após o início do exercício.

Os indivíduos sem anomalia cardíaca associada, que apresentam extra-sístoles ventriculares em repouso ou durante o exercício (realizado para reproduzir o esforço da competição), podem participar em todos os desportos de competição. Se as extra-sístoles ventriculares aumentarem durante o exercício a ponto de produzirem sintomas como por exemplo, alteração da consciência, fadiga importante ou falta de ar, será contra indicada a execução de exercícios de altas intensidades.

Os indivíduos que apresentam anomalias cardíacas associadas, pertencendo portanto, a um grupo de alto risco, e com extra-sístoles ventriculares (com ou sem tratamento), podem realizar apenas exercícios de baixa intensidade.

3) Taquicardia ventricular 

Esta arritmia é a mais grave das três mencionadas. Ocasionalmente, causa perda de consciência. Em geral, a pessoa sente-se tonta, com mal-estar acentuado, sensação de enjoo, queda da pressão arterial e cansaço intenso. É imprescindível parar imediatamente a actividade física e procurar auxílio médico.

Os indivíduos com taquicardias ventriculares, cuja avaliação cardiovascular completa revela a ausência de lesão cardíaca associada, devem suspender. a prática de todos os desportos de competição durante seis  eses. Essa recomendação deve ser aplicada, seja o atleta tratado ou não. Seno final desseperíodo não houver retorno da arritmia e se não houver anomalia cardíaca associada,todos os tipos de exercícios serão permitidos.

É muito importante que os atletas que tiveram um diagnóstico de taquicardia ventricular sejam acompanhados de perto pelos médicos.

Conclusões 

Como se pode notar, o essencial em pacientes com arritmias’, em primeiro lugar, tentar descobrir o tipo de arritmia que o atleta apresenta ou apresentou. Se nenhum exame de rotina a evidenciou, talvez seja necessário realizar algum exame mais sofisticado para tentar detectá-Ia, especialmente em atletas de elite que se dedicam a competições. Em geral, a prática de exercícios mostra-se eficiente e uma óptima opção para tratamento coadjuvante de indivíduos com arritmias, principalmente nos exercícios nos quais é fácil controlar o volume e a intensidade do treino, atendendo com segurança e eficiência às necessidades de condicionamento físico, mesmo das pessoas mais debilitadas.

Voltando então à questão do nosso leitor do início do artigo, a recomendação seria ele procurar um cardiologista e realizar diversos exames de rotina, com a finalidade de tentar detectar a sua arritmia, se é que alguma ocorreu e não foi apenas cansaço devido a um treino mais pesado. Neste meio tempo, ele deve aumentar os seus tempos de descanso e praticar treinos mais leves, regenerativos, até que tenha um diagnóstico definitivo.

Texto: Por Fernando Mendes Sonl’ Anoo (médico cordiologisto)