As bolhas nos pés e o atleta

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bolhas nos pésPara além de todo o cuidado que o atleta deve ter no cumprimento do seu esquema de treinos, outros fatores terá de considerar em termos de rentabilização máxima do esforço físico.Dentro do chamado treino invisível ou passivo, tantas vezes descurado ou menosprezado pelo atleta, capítulos há que, pela vital importância que têm, podem pôr em causa todo um trabalho meticulosamente planificado e executado. Vamos hoje referir ao problema das «bolhas nos pés» que medicamente são conhecidas por flictenas. Faremos uma análise muito sumária à sua génese e tratamento, debruçando-nos em especial nos cuidados a ter no campo profilático.

FISIOPATOLOGIA

Todo o praticante desportivo, independentemente do seu nível competitivo, já esteve certamente confrontado com o problema de flictenas no(s} pé(s}. Tão incómoda situação, que poderá ter consequências mais ou menos graves, é passível de ser gerado em apenas alguns minutos, podendo por outro lado ter como resultado a paragem total do atleta durante dias, isto se não sobressaírem complicações mais graves. Como causas desencadeantes, podemos considerar basicamente duas, sendo a primeira bem mais frequente que a segunda, não esquecendo no entanto que, atuando sinergicamente, poderão contribuir para um agravamento da situação. Assim, damos real importância ao atrito produzido em zonas do pé com maior fragilidade ao nível da epiderme e derme. 

Como causa secundária, ou de exacerbação, referiremos o aumento da temperatura corporal local, que favorece o processo de formação da lesão. E o que acontece, e a título de exemplo, durante corridas de longa duração em que a temperatura ao nível dos pés ultrapassa os 40° centígrados. Embora na maior parte das vezes se responsabilize o calçado pela génese deste tipo de lesões, deveremos considerar, para além deste, dois outros fatores que poderão ser os principais ou únicos responsáveis. Estamo-nos a referir à qualidade das meias e cuidados de higiene local a ter com os pés. 

Voltaremos no entanto a este assunto, quando abordarmos a parte profilática. O que interessa considerar agora, e porque da fisiopatologia da lesão se trata, é que tanto o calor como o atrito em zonas de maior fragilidade produzem um descolamento entre a epiderme e derme. Esta zona de clivagem, inicialmente «seca» terá tendência, com o agravar do processo, a ser preenchida por um liquido serôso incolor ou ligeiramente citrino. No entanto, se a duração do atrito for prolongada, ou a zona do pé particularmente sensível, o liquido poderá ser hemorrágico. Em casos extremos, a destruição de tecidos poderá ser ainda mais pronunciada, apresentando o atleta uma rotura da flictena e, por vezes, uma maceração local que já é uma verdadeira ferida.

Em termos de sintomatologia, esta é por todos conhecida. Para além do aspecto bolhoso da lesão, a dor local poderá ter certa importância. Referiremos também que, complicando-se de infecção r esta se poderá traduzir por uma exacerbação da dor, rubor (vermelhidão) local e edema (inchaço) da região.

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 TRATAMENTO

Nos casos menos graves, não se recomenda em geral ao atleta que pare os seus treinos. No entanto, e como é óbvio, cada caso tem as suas particularidades, sendo por vezes mandatário, principalmente em casos complicados de infecção, o repouso absoluto.

Somos adeptos de que, tomadas as necessárias precauções, se deve proceder ao esvaziamento do líquido contido na lesão.

Caso contrário, o processo de reabsorção. sendo relativamente lento, obrigará o atleta a uma paragem que dificilmente este aceitará. Por outro lado, continuando a treinar, a tendência será para o agravamento do processo. Não será necessário, nos casos benignos, recorrer ao médico para proceder à evacuação do líquido. Qualquer indivíduo estará apto a fazê-lo desde que respeite os seguintes condicionalismos: 1.° Desinfecção meticulosa da superfície comprometida, o que potíerá ser feito com álcool após lavagens com água morna e sabão; 2.° Desinfecção da agulha a utilizar para a perfuradeção. Para maior segurança, esta será passada por fogo e em seguida lavada com álcool. Há quem recomende que se utilizar agulha com um fio que posteriormente não será retlrado .-servindo de dreno para o líquido que eventualmente se venha a formar de novo. A nossa experiência não nos diz que se obterão melhores resultados com este sistema. É no entanto importante, para se obter êxito terapêutico, que, após a função, se evacue por compressão a totalidade do líquido contido na flictena e que se proceda em seguida a nova lavagem com álcool. Obviamente, convém fazer um penso sobre a região comprometida. Falámos em lavagem com sabão e água (morna) e desinfecção com álcool. (O álcool embora seja um bom desinfectante, não é no entanto de aconselhar em lesões expostas, isto é, em que a ferida é extensa. Existem outros produtos como alternativa em que a sua aplicação não é dolorosa). Claro que este procedimento se destina a lesões pouco extensas, sendo de aconselhar vivamente a consulta de um médico nos casos de média gravidade  sendo esta considerada pelo número de lesões, sua extensão ou sintomatologia.

PROFILAXIA

Obviamente que será este o capítulo que interessará mais ao atleta, já que se respeitar algumas regras, dificilmente terá problemas de bolhas nos pés. Faremos a análise dos três factores que podem contribuir negativamente, nomeadamente-os sapatos, as meias e os próprios pés do atleta.

A} Sapatos

Embora o aperfeiçoamento constante do calçado, não só pela melhoria das qualidades do material mas também por melhor adaptação anatómica ao pé, torne menos provável o aparecimento de bolhas, não nos podemos esquecer que sapatos novos,usados inicialmente em competição, são um erro a evitar. Na realidade, aconselha-se sempre que o atleta, ao estrear calçado, seja para treino ou competição, faça uma prévia «rodagem» em casa ou a andar na rua, de molde a realizar uma perfeita sirnbiose pésapato. Caso contrário, e o mais provável será o aparecimento de lesões em que sobressaem as bolhas.

B} Meias

Meias de tecido sintético provocam geralmente uma elevação mais significativa da temperatura ao nível da zona que protegem e, como vimos no princípio, basta este aumento de calor para influenciar negativamente

o aparecimento de lesões. Também  média gravidade meias demasiado largas, já sem elasticidade ou, pelo contrário, meias demasiadamente apertadas, podem ser factores a considerar. Por último, refere-se que, obviamente, meias rotas ou já várias vezes cosidas podem provocar, nas zonas de rompimento ou costura, atritos responsáveis, também eles, pela formação de bolhas.

C} Pé

a) Qualquer alteração ortopédica pode, principalmente se não for utilizado o respectivo calçado compensatório, ser fonte de constantes problemas. Não cabe no âmbito deste trabalho a enumeração das diferentes anomalias, e não são poucas as que poderemos invocar. No entanto, lembraremos mais uma vez que o pé juntamente com o joelho, é o segmento ortopédico mais importante em quase todo o tipo de desportos, e a merecer sempre uma análise pormenorizada do ponto de vista profilático em Medicina Desportiva.

Mas, para além do campo ortopédico, podemos e devemos ainda invocar alterações de outra ordem e bem mais frequentes.Assim, uma higiene cuidada do pé, em que se destaca a limpeza e secagem conveniente, evita o aparecimento de lesões dermatológicas. Também o corte adequado das unhas não deve ser esquecido.

b) Por vezes, todo os cuidados atrás enumerados não bastam. É o caso de indivíduos com pele demasiadamente sensível ou, então, situações de esforço prolongado.” como sejam a corrida de fundo. Nestes casos, impõe-se, para além da conduta de origem profilática atrás enumerada, ainda outro tipo de actuação. Começaremos por referir que dois tipos de atitudes se podem tomar:

1. Redução do atrito. Neste caso, aconselha-se untar o pé com vaselina. Nunca com pó de talco. Na realidade se a superfície estiver seca, o pó de talco diminui o atrito. No entanto, com o suor progressivo do pé, o pó torna-se numa pasta perdendo a sua eficácia.

2. Protecção das zonas sensíveis: a nossa experiência diz-nos que o melhor será usar adesivo de largura variável conforme a zona considerada. Referimos adesivo e não penso já que este, não tendo autocolante em toda a sua superfície, tem tendência durante a corrida a cair ou a soltar-se, sendo consequentemente um agente de fricção.

 pelo dr. RENATO GRAÇA