As lesões do tendão de Aquiles nos corredores de fundo

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Esta afirmação é tão comum nos corredores que treinam regularmente que chega a causar um certo receio nos atletas. A tendinite passa, invariavelmente, pelo repouso, pelo abandono forçado das pistas e em Portugal, nos casos mais graves, por meses de espera. Quem não conhece um atleta que não tem ou deve esta lesão, ? Sim, sofrer desta lesão assusta, muito principalmente quando se sabe que o único atleta português que conquistou uma medalha olímpica para o nosso atletismo ainda não encontrou uma solução  para o seu caso.

Certos de que, apesar de uma assistência precária, a grande maioria dos nossos atletas federados – e mesmo populares – abraça, cada vez mais, os métodos de treino quantitativos, percorrendo u1m bom volume de quilómetros, parece-nos importante apresentar uma série de artigos sobre os problemas do tendão de Aquiles.

Uma das mais vulgares lesões nos atletas de fundo e meio fundo é identificado, normalmente, como uma tendinite no tendão de Aquiles. Ocorre com uma frequência espantosa entre os velocistas, meio-fundistas, saltadores e lançadores. Algumas estatísticas apontam esta lesão como responsável por 25% das que se verificam ao nível das pernas. Mas, segundo a minha experiência, é fácil situar-se em mais de 50% das lesões modernas. Para melhor podermos compreender a natureza e o tratamento deste tipo de tendinite, há que, forçosamente, debruçarmos-nos numa breve descrição da região posterior da perna e do pé. O músculo gastrocnemius é um músculo largo que tem a sua inserção na parte posterior e inferior da perna (côndilos laterais e médios do férreo, como se pode observar na figura 1.

AS LESÕES DO TENDÃO DE AQUILES NOS CORREDORES DE FUNDO

Este músculo da parte posterior da perna termina num tendão liso situado na parte inferior, inserido no calcaneus, como mostra a figura 2.

 AS LESÕES DO TENDÃO DE AQUILES NOS CORREDORES DE FUNDO

Tal tendão é, normalmente, referenciado como sendo o de Aquiles, onde existe outro pequeno músculo que se prolonga e é conhecido por Soleus. Se olharmos para a parte posterior, ao nível do Calcaneus, notamos que é largo na superfície plantar e estreito na dorsal, enquanto que o calcaneus tem uma parte mais rogosa, onde se situa o tendão de Aquiles, como parece na figura 3.

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Há uma pequena espécie de bolsa nesta área, tendo em vista o fraccionamento e, muitas vezes, tal bolsa inflama-se por se utilizarem sapatos não apropriados ou por uma utilização excessiva do músculo. O tendão de Aquiles, que é largo na parte superior e formado por um conjunto apertado de fibras extremamente fortes e resistentes, é bastante diferente de qualquer outro existente no nosso corpo, já que, na realidade, não possui um verdadeiro revestimento ou protecção e está rodeado por um «pará- tendão».

O síndroma da tendinite no tendão de Aquiles é experimentado, pelo menos, uma vez por outra, por todos os corredores de qualquer distância e o facto de se ignorar esta pequena dor pode tornar-se num caso muito grave, levando até à imobilização, principalmente quando o atleta não é muito novo. O local mais frequente para uma rotura ocorre junto ao calcaneus, na zona de inserção, e nos casos menos graves a lesão resulta normalmente de um excesso de treino em rampas ou em percursos exageradamente acidentados. O tendão sofre de rnicro-roturas e começa a ficar inflamado e doloroso.

Quanto aos casos mais graves, provenientes de rotura mais profunda, são extremamente dolorosos e o atleta é forçado a abandonar o treino normal, apresentando- se a área de Aquiles bastante inchada e com uma cor azulada. Segundo a minha experiência, a grande maioria das tendinites no tendão de Aquiles são devidas ao seguinte:

1 – A uma forte accão com o peso da parte anterior do pé e com o joelho esticado, tal como numa partida para provas de velocidade;

2 – A repentina e inesperada flexão do tornozelo quando num lançamento ou num salto;

3 – A uma brusca e violenta flexão do plantar na zona do pé;

4 – A todo um conjunto de problemas biomecânicos do pé (pé chato, pé equinus, grande arco do pé. etc.l:

5 – A um excesso de exercícios repetidos, fazendo incidir nesta região elevadas percentagens de quilómetros, sem uma base crescente de treino.

Como reconhecer uma tendinite no tendão de Aquiles ou uma rotura? Há, naturalmente, um passado histórico da dor no terço inferior da perna. junto ao calcaneus. Ela está, invariavelmente, presente quando se corre ou quando se faz um treino de cargas. com uma sensação de «rigidez» quando, ao acordar  o atleta dá os primeiros passos, descalço. A dor pode ser aguda e penetrante ou de intensidade menor mas generalizada.

Numa zona média. próxima do tendão. é evidente uma pequena dor, notando-se,  nos casos mais graves, uma fibrose ou uma espécie de nó na parte posterior do tendão, que parece um pouco «granuloso».

O teste de Thompson é geralmente positivo nos casos graves. Se o plantar não flectir é um sinal positivo e uma prova de que o tendão se encontra com rotura ou inflamado. Através da Ecografia, o triângulo de Krager apresenta um diagnóstico diferente. Esta área triangular, de grande densidade, representa uma elevada percentagem de tecido gorduroso e é vista na parte lateral do tornozelo, encontrando-se limitada pelos tendões flexores do pé, pelo tendão de Aquiles e pelo calcaneus. No seguimento de uma rotura, o triângulo encontra-se destorcido, com uma forma curva a partir do calcaneus.

Tratamento

Em qualquer caso suspeito de tendinite. aconselho seguir a fórmula R.I C.E. sendo:

R = Repouso

I = Imobilização

C = Compressão

E = Elevação

Nas primeiras 48 horas o pé deve estar elevado e o tornozelo  e a parte posterior da perna – colocado sob gelo,que deve ser removido durante 15 minutos em cada hora. Uma compressa de 7 a 8 cm será aplicada juntamente com o gelo. O atleta deve usar umas simples muletas ou qualquer outro tipo de apoio e, nos casos mais graves, aconselho a injetar-se imediatamente uma solução de Lidocaina a 2% e Hyaluronidase, que permitirá uma rápida diminuição da dilatação local.

Depois de um período inicial de 48 horas o atleta deve ser aconselhado a fazer hidroterapia durante cerca de 20 minutos por dia (qualquer tipo de recuperação com água é aconselhável), e, cautelosamente, começar a dar os primeiros passos, havendo o cuidado de se colocar uma ligadura em volta do tornozelo, tendo em vista uma maior proteção. Na maioria dos casos, aproximadamente duas semanas depois (algumas vezes, nos casos mais graves, chega a atingir as seis semanas) o atleta deve começar a andar rapidamente, dando, até, alguns passos de corrida.

Se, ao fim de dez dias, a dor já não aparecer, aconselha-se a começar com um mínimo programa de treino, sendo importante que esse programa abranja a flexibilidade (Programa  de Flexibilidade, de B0b Anderson) e, igualmente, umas simples sessões de treino com cargas. Nesses treinos o atleta usará sapatos com sola protetora do calcanhar e hoje em dia a maioria dos bons sapatos de treino já possui essa característica. Nos casos em que se verifique um certo tipo de pé chato, recomendo o uso de palmilhas ortopédicas para se estabilizar o pé e obrigar o tendão de Aquiles a sofrer uma certa pressão.

Os exercícios de flexibilidade são fundamentais para se evitarem problemas na cura das tendinites e são orientados para o fim a que particularmente se destinam. O pé e o torso posterior da perna não se encontram preparados para a grande maioria do volume de quilómetros que os amantes da corrida fazem hoje, na sua preparação normal. Por isso, há que prevenir contra as lesões.

Pessoalmente, costumo dizer que, conforme estão os pés e as pernas, assim progredirá a carreira do atleta.

Apesar de ter procurado transmitir alguns dados da minha experiência profissional, é forçoso – e aconselhável  que todo o atleta submeta tais partes do seu corpo a exame por competente médico desportivo ou, até mesmo, experiente treinador. Deste modo, qualquer anormalidade será detectada e poder-se-é iniciar, a tempo e horas, o tratamento adequado.

DR. JOHN W. PAGLlANO