AS TRÊS FASES DA CORRIDA …

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AS TRÊS FASES DA CORRIDA ...Nunca, como hoje, se assistiu a um movimento desportivo de âmbito verdadeiramente mundial como aquele que os corredores pedestres praticam.

De todos os locais deste planeta surgem notícias sobre eventos da modalidade de Corrida, onde se envolvem milhares de pessoas, muitas preocupadas com os ponteiros dos relógios, enquanto outras, cuja presença não se rege verdadeiramente por objectivos de tempos e marcas, talvez por inacessíveis à sua condição física e técnica, toleram o despique competitivo, para eles como que uma espécie de sal a condimentar a própria prestação desportiva.Entre todos eles, surge naturalmente um outro grupo, alheio aos relógios, ao tipo de passadas, aos bons ou maus estilos ou à posição corporal que reduz o tempo gasto no percurso.

Estão na Corrida, não por objectivos de estrela to ou de confrontos em que o relógio é senhor, mas, sim na busca da melhoria de Saúde, de exclusiva manutenção física, sem a qual a Vida se complica ainda mais, ao ponto de se tornar muito menos agradável e, ainda por cima, mais curta … Seja como for, o factor competição está sempre associado, de uma maneira ou outra, à prática de qualquer desporto e esse espírito competitivo, digamos assim, parece sobrepor-se a tudo e todos, pelo que terá de estar presente na modalidade que gostamos de pratica.

ALÉM DA COMPETIÇÃO …

Por mais paradoxal que pareça, uma das facetas agradáveis que encontro em qualquer  prova pedestre, reside exactamente fora do período que decorre entre o tiro de partida e a passagem na linha de chegada, embora se reconheça qUE uma grande percentagem de corredores, incluindo mesmo aqueles que não esperam classificações de relevo e sabem ir ser ultrapassados pela maioria, concentram todos os pensamentos em redor da própria competição.

É nela que “vivem” fortemente desde a véspera, após semanas ou meses de uma preparação que julgam adequada a êxito pessoal.

AS TRÊS FASES DA CORRIDA …

Correr entre centenas, milhares, de outros participantes, ultrapassando uns e esperar que não sejam muitos a fazerem-lhes o mesmo, é fito da maioria dos colegas da nossa modalidade. O seu desejo resume-se a competir, a mostrar que ali está a oportunidade por que esperavam para demonstrar as suas aptidões físicas e técnicas e aguardar que elas, finalmente, possam levá-los a marcas de há muito aguardadas, mas não concretizadas por razões das mais diversas, Perante isto, depreende-se haver uma minoria que não limita a sua presença ao exclusivo desejo de figurar na competição propriamente dita, destinando-o, igualmente, a observar o seu preliminar, ou seja, o período que antecede o soar do tiro, e ao chamado “Fim de Festa”, que surge após a ultrapassagem da meta. Encontram-se aí belos momentos a não perder quando se pretende tirar todo o prazer de uma prática desportiva tão salutar como é a nossa corrida.

Pessoalmente, como já mencionei nos artigos anteriores, sou um corredor de nível mediano à espera da oportunidade de dar umas passadas, sejam elas em ambiente competitivo, o que é raro pela difícil conciliação entre viagens e provas no local de destino, ou simplesmente em ritmo de pura manutenção, quase sempre a horas, diurnas ou nocturnas, bem variadas e sem qualquer outro corredor a meu lado.

Assim, visto a profissão, só por.si, ser um travão a qualquer anseio de notoriedade desportiva, dada a dificuldade em seguir qualquer programa de treino com esquemas de calendários, cronómetro e regime alimentar, ao qual raramente poderia ter acesso, sobretudo em regularidade horária, terei de me cingir à dependência do que possa surgir de interesse noticiário ou de reportagem por esse Mundo fora.

A profissão impede-me entrar no campo dos projectos que exijam presença pessoal e programas predefinidos e dependo sempre da ordem do que “há a fazer a seguir”!. ..

Esta será a razão da pouca atenção que ligo às marcas das minhas prestações desportivas, só possíveis de alterar com programas a que não tenho acesso. Claro que gosto de me ver envolvido em todo aquele “mar” de movimentos dos mais variados e de rostos em que a evidência do esforço se faz sentir.

Todavia, para mim, o chamado sortilégio das corridas populares reside, em boa parte, nas outras duas fases de qualquer prova: a que antecede a partida, onde a ansiedade assenta arraiais, e a que se observa após terminar o esforço e o suor surge em todos os rostos. Vejamos cada uma dessas fases, dignas, em minha opinião, de reflexões cuja análise exigiria disponibilidade de espaço que a SPIRIDON não tem.

ANTES DO TIRO …

AS TRÊS FASES DA CORRIDA ...

Eis, meus amigos, uma das principais fases de qualquer competição de corrida e onde se observa toda a espécie de exercícios físicos que se possa imaginar ..Quanto maior é o espaço disponível, mais largas dão os corredores à sua fértil imaginação.

É vê-los em spríntes curtos, decisivos, como se uma meta imaginária esteja a 4 ou 5 metros de distância ou a táctica aconselhe a mostrar que velocidade não lhes falta. Arranques rápidos, prolongados, sinal de que “pontas” finais extraordinárias vão surgir quando a meta estiver à vista.

Rotações rápidas e constantes do tronco, da .cabeça, das ancas, demonstram reflexos atentos, seguidas de outras mais lentas, em que a execução é acompanhada de dinâmicos movimentos de braços, qual pugilista pronto a cair sobre o seu adversário … Flexibilidade em qualquer zona corporal que a possa exigir, é patenteada de todas as formas.

Esticam-se os braços, as pernas, os dedos, sujeitando-se estes, talvez como castigo por não estarem quietos, a várias tentativas para tocarem o chão, o que raramente é conseguido.

Amplos e frequentes saltos, talvez – quem sabe? – a prever a existência de barreiras no percurso, misturados com saltitares nervosos, miudinhos, adequados a crianças durante os seus primeiros passo os olhares?

Não há ponto cardeal onde ‘não se fixem … À direita, à esquerda, de baixo para cima, de cima para baixo … Creio poder dizer que nada, mas mesmo nada, falta quanto aos mais diversos meios de exercitar o corpo antes de começar uma prova. E executam-nos quatro, cinco, seis vezes Porém, isso não é tudo! … Não é, não! … E o equipamento?

Sim, o equipamento? A camisola, que se deseja dentro dos calções, teima em ficar por fora … Resultado de tanto movimento! … Os calções, por sua vez, tanto são puxados para baixo como esticados para cima, e os sapatos, já reapertados pela terceira vez, merecem novas mexidas.

Olha-se para o corpo várias vezes, na vertical, na horizontal, e de todas elas resultam alterações. Um puxão aqui, outro ali! Enquanto isto dura, os movimentos corporais sucedem-se, com repetição de mais sprintes, mais saltos, mais corridas, mais extensões …

Tanto podem ser dezenas como centenas ou milhares!. .. Os “artistas” responsáveis por tal espectáculo não se destrinçam uns dos outros.

Primeiras figuras, as denominadas “de cartaz”, poderão, é certo, dispor de recinto ligeiramente retirado, dado o seu estatuto de estrelas, mas a sua actuação, embora a demonstrar maior experiência, é a mesma que patenteiam todos os outros figurantes.

Tudo o que acabo de mencionar diz respeito à visão directa, digamos assim, que nos proporciona o anteceder de uma partida de corrida pedestre. Sim, isso é o que se vê logo!… Porém, é natural que surjam duas perguntas: – O que escutam os nossos ouvidos quando fazemos parte integral desse mesmo espectáculo? – Qual a diversidade de pensamentos que ocorrem nos cérebros de toda aquela massa humana, à espera da ordem de partida para o esforço que lhe vai ser exigido? Em relação à primeira dúvida, creio que o número de corredores que nada diz e só se preocupa com a movimentação preliminar, o chamado aquecimento, é tão diminuto que nem merece registo.

Toda a gente tem algo a dizer! … Sobre o tempo que faz, a lesão que parece eliminada, o tendão em boa forma, o treino seguido, os conselhos de um colega, as perspectivas em jogo, os erros ou virtudes da” organização, os treinos dos últimos dias, os bons sapatos que se comprou, o custo das inscrições, a melhor marca obtida, tudo, mas mesmo tudo, chega aos nossos ouvidos naqueles ansiosos minutos.

Dir-se-ia que, à falta do tiro, há que falar com alguém, conhecido ou não, que esteja ao nosso lado. Qualquer assunto serve e o que se diz a um é repetido a outro … Daí resultam as confidências que se dizem e se escutam, entre pessoas irmanadas pela mesma prática desportíva e que, dentro de alguns minutos, irão entrar em despique de corrida, desejosas, na maioria das vezes, de chegar à meta antes de todas as outras.

Quanto à segunda pergunta, a lembrar o problema dos pensamentos pessoais nesses momentos, trata-se de’ um campo em que psicólogos, psicanalistas e tantos outros técnicos da ciência encontrariam terreno propício a estudos que nos levariam, sem dúvida, a conhecer melhor a razão de ser de todo este movimento desportivo em que a raça humana se envolveu desde há anos.

META ULTRAPASSADA …

Chegámos à outra fase interessante de uma competição de Corrida. Para trás, ficou o preliminar do evento, já em terreno próprio, e com todos os concorrentes à espera do momento por que ansiavam desde há dias, semanas ou, até, meses.

A preparação para o esforço a que iriam ser submetidos terá sido a melhor, segundo as possibilidades de cada um, e as perspectivas de bons resultados poderão estar certamente concretizadas. Agora, depois de muitas e muitas passadas, algumas em ritmo previamente programado e outras a exigir alteração imprevista, chegou o momento da descontracção, do descanso merecido e, possivelmente, muito desejado durante a corrida …

Com excepção de alguns corredores que chegam com um sorriso nos lábios, a demonstrar condição física – real ou ilusória? – para prolongar o esforço, quase toda aquela multidão demonstra bem o que sente: cansaço, muito cansaço! Porém, como que por milagre,  nenhum dos seus componentes gostaria de perder o enorme prazer e satisfação de que se sente invadido pelos momentos acabados de viver e que a corrida pedestre prodigaliza como nenhuma outra.

Contrariamente ao sucedido na chamada fase de aquecimento, em que as palavras afloram aos lábios sem uma razão bem definida, eis chegada a hora das confidências, da troca de impressões que alertam para o que se fez e não devia ser feito, para as justificações dos objectivos falhados, para o ensinamentos quanto aprovas futuras…

  • – Tinha previsto um ritmo de 4.30 por km, mas comecei muito rápido.Acabei por me sentir e ojinal custou-me um pouco …
  • – Preparei-me mesmo bem para a prova, mas o joelho ressentiu-se da lesão de há tempos e estragou-me o resultado…
  • – A prova saiu-me bem, mesmo sem ter dormido o que devia, Mas o programa de treino estava bem feito e juiz todo o percurso sempre à vontade…
  • – Já não sei o que fazer! Aconselham-me gelo e mais gelo, mas o problema 110 calcanhar parece não ter solução… Vou ter que parar uns dias! .
  • – Notei que o amigo se sentiu mal a meio do percurso, tal como sucedeu comigo pouco antes. Quando for assim, tenha calma e espere que a situação se normalize …
  • – Para mim, a corrida não deve ser a caça aos prémios, ao contrário do que pensam muitos dos que aqui estão.
  • – Ah, o amigo tenciona ir a Paris, aos 20 km? Podíamos combinar uma viagem turística ‘e desportiva ao mesmo tempo…
  • – Desanimado, eu? Você não me conhece! A coisa correu-me mal e, desta vez, foi o maldito café que bebi. Ai,foi,foi …
  • – Medalhas? Não me fale em medalhas… Nem medalhas nem “t-shirts”. São caixas e mais caixas cheias disso…
  • – Esta prova podia estar melhor organizada. Em minha opinião, os prémios só vão para os melhores e nôs
  • ficamos a ver! É o costume … Nós, só fazemos a festa!
  • – … Já lhe dei o meu contacto e basta um telefonema. Sim, não me custa nada. Envio logo e vai ver que resolve o seu problema …
  • – Não me fale nisso! Cada vez são mais caras e, qualquer dia, temos de pagar em prestações a inscrição numa simples prova … Até para correr se exige dinheiro!…
  • – Pode acreditar! Lá estarei consigo na próxima edição dessa Meia .., Já me tinham/alado nela. Ainda bem que o amigo a conhece … Depois, combinamos!

Terminou a prova tão desejada ao longo de meses, durante os quais se percorreram milhares de quilómetros em treinos e se usaram muitas horas em sessões de vário tipo, tudo com o objectivo de se usufruir da alegria de atravessar uma linha de Meta que há-de surgir em determinado dia.

Os que a ultrapassaram com os olhos postos nos relógios, terão saído desiludidos porque a “Dor de Burro” não estava prevista, ou, pelo contrário, fortemente motivados pela redução de um ou dois segundos no seu tempo na distância. Irão voltar de novo, agora depois de uma série de treinos já prevista! que uma tendinite fez adiar desde há anos.

De qualquer forma, já como preparação, estarão no domingo seguinte numa provazinha de 15 km para desentorpecer … A maioria de todos os outros, sempre envolvida pelo torpor do pelotão a que está habituada, já sabia que as perspectivas não eram muitas. Agora, chega-lhe os dichotes que se dizem e se escutam, a lembrança do auxílio a colega indisposto, dos incitamentos recebidos de um ou outro assistente e da camaradagem que a cercou ao longo de quilómetros.

Cada um desses anónimos corredores tem fortes motivos para usufruir da alegria e prazer que o invadem e festejar a sua vitória pessoal no preciso momento da consagração colectiva. Quanto aos restantes componentes da “Festa da Corrida” realizada naquele dia, as que encaram a sua prestação desportiva sem qualquer intuito que não seja o da sua melhoria física, do convívio generalizado, pouco frequente nos dias de hoje, e da extra total de todo o imenso prazer que a prática da Corrida proporciona, sabem que a paixão nutrida pelos outros colegas sobre a modalidade de que tanto gostam é absolutamente igual à sua. A mesma intensidade, a mesma dedicação! Todos, sem excepção, são os figurantes indispensáveis do espectáculo de cor e movimento que nos surge em cada fim-de semana, proveniente dos quadrantes mais variados. Reconhecer e divulgar os seus benefícios, é ajudar a construção de um Mundo melhor e mais saudável, ao contrário de muitas outras actividades cujo objectivo é o egoísmo, a tristeza e, sobretudo, a indiferença perante o bem-estar do semelhante!.. .•

  • Revista Spiriton
  • Por Michel Dominique
  • Na 222 • SETEMBRO-OUTUBRO