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Estávamos a uma dúzia de minutos do tiro de partida de uma das edições da “Corrida do Tejo”. Havia natural excitação no pelotão e, próximo de nós, um grupo de uma dezena de corredores, que envergavam camisolas do mesmo clube, faziam as últimas preparações, as últimas pequenas coisas que cada um pensa serem ideais para uma boa prova. De súbito alguém lança uma pergunta para o ar, dirigida claramente a todos: -Já tomaram as aspirinas? Não se esqueçam! …

Nesse momento pensámos que o participante apenas tinha dito alguma piada, das muitas que, com frequência, surgem antes do tiro de partida. Meses depois, num fim de tarde de sábado, participámos na “Meia Maratona de S.João das Lampas”. Tínhamos chegado cedo e, no parque de estacionamento que a organização disponibiliza para os automóveis dos participantes, já algumas carrinhas deixavam os corredores dos muitos pequenos clubes que, como se sabe, animam as provas. Próximo de nós alguém lembra aos companheiros: – Tragam a caixa das aspirinas e as garrafas, de água, pois apaparicar a uns 500 metros! … Uma luz surgiu nos nossos pensamentos

Era mesmo verdade, havia corredores portugueses que ingeriam aspirinas antes do início das suas provas.

 QUAIS OS SEUS EFEITOS NO ORGANISMO? Bem, comecemos por deixar uma coisa clara: a aspirina não é considerada um fármaco do grupo “doping”, portanto, não é produto interdito, segundo as atuais regras da IAAF. Mas, terá efeitos positivos? A aspirina é produto perfeitamente conhecido do grande público. Constituída por ácido acetilsalicílico, trata-se de um fármaco com enorme grau de familiarização junto da população, e é hoje aplicado nas mais variadas situações, abrangendo doenças de reduzida ou acentuada gravidade. Essa “velha senhora”, com a invejável idade de mais de 100 anos, é particularmente eficaz contra a febre e a dor, e até como prevenção dos acidentes

, vasculares cerebrais. No entanto, a sua vulgarização e o seu emprego, digamos, indiscriminado, também podem ocasionar certos males que o público muitas vezes desconhece.

No caso dos desportistas, sabe-se que o recurso à aspirina é bastante frequente, tanto pelos atletas dos chamados grupos de elite como, e cada vez mais, pelos chamados atletas de pelotão, ou seja, indivíduos sem grandes aspirações competitivas a níveis superiores. Todavia, vejamos o que acontece no organismo quando se encontra em pleno esforço.

Durante o esforço, os músculos produzem certas substâncias químicas denominadas por prostaglandina, e pensa-se que são elas que provocam as alginas musculares. A aspirina, pelas suas características, pode bloquear a produção das prostaglandinas …

Nas provas de grande duração, como, por exemplo, a maratona, certos atletas de elite chegam a absorver 8 comprimidos de aspirina cerca de 30 minutos antes da partida, com o objetivo de conseguir um certo efeito analgésico superior. Ora acontece que os mecanismos da dor são, de certa maneira, sinais de alerta particularmente eficazes e tendentes a “informar” o atleta de que algo vai mal e o funcionarnento do seu organismo está próximo dos limites.

É lógico que qualquer Ser Humano deve respeitar esses sinais de alerta, porque, caso contrário, ao continuar o esforço durante mais tempo, os limites do organismo podem ser ultrapassados e sucumbir. Portanto, quando surge a dor, há que “tirar o pé do acelerador” … Se estivermos perante atletas pouco experientes, como, aliás, se verifica em boa percentagem dos corredores de pelotão, o perigo de não se respeitar esses sinais de dor ainda são maiores, pois o seu eventual entusiasmo leva-os a não se importar com os sinais orgânicos que se encontram “camuflados” pela ingestão irracional de alguns comprimidos de aspirina. Nesses casos, é provável que o atleta, ao competir depois de ter ingerido algumas aspirinas, fique obrigado a um tempo maior de recuperação após o final da sua prova. No entanto, à luz dos atuais estudos, e que decorrem há mais de 30 anos, é possível afirmar-se que existe um certo perigo no uso indiscriminado da aspirina pelos corredores.

 O Ser Humano tem a dor a avisar-lhe que está achegar aos seus limites e, assim, é melhor deixar o organismo “gritar” os seus males para que a segurança seja máxima para quem gosta de correr. Devemos também lembrar outro pormenor particularmente importante e que diz respeito à utilização da aspirina como processo para limitar, de certa maneira, o excessivo aquecimento orgânico, fruto da forte temperatura ambiental em dias mais quentes, nomeadamente quando o desportista se encontra submetido a esforços duros e prolongados, a decorrerem em locais abertos e com raras sombras.

Na realidade, o ácido acetilsalicílico obriga a um maior grau de transpiração portanto, a urinar com valores bem superiores ao que é normal. Regra geral, a temperatura corporal baixa quando se verifica uma diminuição da produção de calor ou pelo aumento da evacuação do calor. É lógico que a aspirina baixa a temperatura do corpo, favorecendo a sudação, mas não consegue abrandar os fenómenos metabólicos. Assim, o ácido acetilsalicílico aumenta a diurese e inflita a reabsorção da água ao nível dos túbulos renais.

Enfim, por outras palavras, ao facilitar a transpiração, a aspirina expõe o atleta a uma desidratação superior e, paradoxalmente, a um maior cansaço sempre que não preste muita atenção à conveniência de absorver o máximo de líquidos nos vários locais de abastecimento. É bom ter presente que, em.termos gerais, quando se alinha em esforços prolongados, cerca de 50% da energia é gasta em arrefecer o corpo do desportista! …

A concluir, não podemos esquecer de deixar um alerta aos nossos corredores: ingerir algumas aspirinas antes da partida? A ideia, à primeira vista, poderá ser vantajosa, mas com vários riscos, não só perante a dose que se vai ingerir, como pelas suas consequências. E quanto aos campeões que apostam em vários comprimidos alguns minutos antes de começar o esforço? Bom, tudo depende de cada um, a situação não é considerada “doping”, mas o organismo  humano nem sempre reage positivamente a 111\ .alguns produtos considerados vantajosos. –