Como Explorar as forças do pensamento em provas longas

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As provas longas são fascinantes, pois permitem explorar o potencial físico e mental do atleta quase encontra envolvido em tais competições. Para além do prazer de testar as suas aptidões e os seus limites físicos, cada um- encontra, igualmente, a possibilidade de se conhecer melhor graças a um esforço mental que deve ser desenvolvido durante as competições e os treinos. Heinz Muller, treinador de Triatlo da selecção suíça, surge-nos com um trabalho que permite explorar as estranhas forças do pensamento humano, com a particularidade de cada um poder aplicar facilmente as técnicas de concentração ao seu caso individual. 

Nos desportos de Endurance, a força mental é um factor decisivo quanto ao grau de resultados que se possa vir a atingir. Todos os atletas, e não apenas os nomes dos grandes campeões, concordam em reconhecer o enorme potencial susceptível de ser colhido através de uma preparação mental adequada. Aliás, quase todos os desportistas já verificaram, e por várias vezes, o impacto que podem ter certos pensamentos quando nos dedicamos a uma competição desportiva. Veja-se, por exemplo, o que se passou na última prova em que obtivemos um resultado significativo e concluiremos que os factores de êxito tanto foram repartidos em termos de “pernas” como de “cabeça”.

CONTROLO DE PENSAMENTOS 

O controlo do pensamento é um processo activo e consciente, tratando-se de um “discurso” que cada um de nós tem para consigo próprio.

Cada indivíduo com um pouco de experiência na área das actividades físicas, que obrigam a esforços mais ou menos prolongados, compreende frases como estas: “Os meus pensamentos tornaram-se negativos e quase que automaticamente deixei de correr, de combater, para atingir os objectivos por que tanto ansiava”.

A finalidade do treino mental consiste em gerir cientificamente o nosso “universo mental”, quer durante os treinos quer em plena competição, não esquecendo, igualmente, tudo o que se refere à tentativa de manter individualmente o nível de pensamentos positivos ao longo do dia.

Exemplos de frases-chave visando o reforço da confiança em nós próprios antes de qualquer tipo de competição:

– “Estou bem preparado”;

– “Estou bem treinado e controlo toda a situação”;

– “Hoje é o meu dia”;

– “Sinto-me verdadeiramente forte”;

Exemplos de discursos “pessoais”, com o objectivo de se obter um grau de pensamentos positivos em situações críticas:

Na Corrida – “Estamos quase na meta!”;

No Ciclismo – “Vamos a pedalarem círculos perfeitos para avançar sempre!”;

Na Natação – “Temos de respirar fundo e utilizar todo o movimento das pernas e dos braços”.

PENSAMENTOS BLOQUEADOS

A técnica consiste em “preparar” o pensamento de forma a conseguir-se irradiar qualquer outro de base negativa. Se pensamos constantemente que, por exemplo, os bons nadadores estão a ganharnos, cada vez mais, uma maior distância, é mau. ja mesma sequência, se estivermos a correr numa prova de montanha, em plena subida, devemos formular pensamentos susceptíveis de poderem vir a ajudarnos e não para nos “deitarem abaixo”. É nestes momentos que o bloqueamento dos pensamentos pode levar à irradiação das chamadas imagens negativas. Ao nos concentrarmos num tipo positivo de frases-chave, é possível controlar melhor qualquer passagem crítica durante um esforço prolongado. Torna-se, portanto, claro que é necessário manter, durante toda a acção desportiva, os nossos pensamentos numa via bem positiva. O bloqueamento dos nossos pensamentos faz supor, naturalmente, a antecipação dos chamados pensamentos negativos, tornando-se evidente a necessidade de se exercer, de se treinar, diariamente vários tipos de pensamentos positivos, como se isto fizesse parte integrante do nosso próprio plano de treino.

Para reconhecer e tomar consciência dos pensamentos negativos, considerando a nossa participação numa corrida, utilizar-se-á, por exemplo, a imagem dos semáforos existentes num cruzamento de tráfego de qualquer circulação urbana. Em caso de dúvida, de pensamentos negativos, de receio de não se poder manter o mesmo ritmo de passada, o sinal  vermelho a parecerá, a exigir uma paragem consciente dos pensamentos. A formulação mental de um pensamento negativo irá fazer surgir, de certa forma, o sinal verde do semáforo para se poder prosseguir, libertando, assim, a “via” que permite a concentração máxima e permitindo um melhor rendimento em pleno esforço de corrida.

Exemplos de pensamentos centrados especificamente em treinos ou competições:

– “Vou conseguir”;

– “Estou no bom caminho”;

– “Tudo vai bem”.

Para a Natação – “Vou até aos limites”;

Para o Ciclismo – “Vou apanhar o grupo da frente”;

Para a Corrida – “Mantenho a velocidade e vou apanhar o grupo da frente. Exemplos de pensamentos positivos antes do treino ou da com petição:

– “Hoje, tudo vai bem”;

– “Hoje, vou mesmo, mas mesmo, conseguir”;

– “Hoje, sinto-me em forma”;

– “Hoje, sou capaz de grades resultados”.

Os atletas que sabem utilizar a força dos pensamentos positivos, na linha do que acabámos de escrever, não serão afectados, regra geral, pela pressão surgida quando se aproxima qualquer competição importante. Na realidade, esses atletas conhecem os efeitos nefastos dos chamados pensamentos negativos e, consequentemente, sabem afastá-los graças ao seu próprio reportório das chamadas frases-chave.

O controlo dos pensamentos, a auto-sugestão e a força dos pensamentos positivos representam um verdadeiro tesouro para todos os praticantes dos desportos que exigem esforços prolongados. Nos momentos críticos, quando as forças oscilam, o recurso aos pensamentos positivos in fluencia considera velmente o nosso cérebro no sentido de uma reorientação para o objectivo e as soluções apropriadas. Conseguir instaurar um pensamento positivo permite reforçar a fé nas suas próprias capacidades de performance e explorar melhor as atitudes mentais.

APRENDIZAGEM DO PENSAMENTO POSITIVO

O treino mental apresenta uma grande vantagem: é uma técnica e, portanto, está acessível a todos. Cada um tem a possibilidade de se conhecer melhor, utilizando a força dos seus pensamentos e explorando a fundo todo esse potencial, muitas vezes esquecido por quem pratica desporto. Cabe a cada um formular as suas frases-chave ou simplesmente readequar ao seu caso pessoal os exemplos foca dos anteriormente. Certos atletas, por exemplo, inscrevem as suas frases-chave no guiador da bicicleta (no caso de ciclistas) a fim de explorarem, no momento crítico, a influência desta ou daquela frase e, consequcntcmente, obterem uma fase de pensamento positivo.

O resumo seguinte apresenta diversas intervenções possíveis, visando educar a nossa mente:

CONTROLO DOS PENSAMENTOS – Aumento da confiança em si próprio e susceptíveis de melhorar a força interior;

VISUALIZAÇÃO. – Concentração em situações próprias do treino ou da competição. Treino técnico através da estratégia de algumas frases-chave;

MOTIVAÇÃO – Fixação dos objectivos e sua comprovação;

CONTROLO DA ACTIVAÇÃO – Aprendera dirigir a sua energia corporal;

GESTÃO DO TEMPO – Organização e planificação precisas, quer do treino quer da competição;

RECONHECIMENTO DE SI PRÓPRIO – Tentar encontrar o equilíbrio interior;

REC-ENERAÇÃO – Recuperação física e mental graças ao treino autogeno ou à descontração muscular

progressiva.

VISUALIZAR TUDO PARA UM REFORÇO PESSOAL

Tal como o pensamento. a visualização ou, ainda, o pensamento em imagens, influencia a nossa acção e contribui, também, e de forma decisiva, para o sucesso das actividades físicas. “Vejo-me a subir uma encosta com energia e a meta será atingida em grandes passadas!” Para aprender a vísualizar é preciso, em

primeiro lugar, estar num estado de absoluta descontração. Para isso, recorre-se a diversas técnicas, . tais como o controlo da respiração, o treino autogeno ou a descontração progressiva dos músculos (ver quadro anexo). Por outro lado, o treino técnico baseado na estratégia dos pontos-chave, e através de uma boa visualízação, permite representar mentalmente, e em imagens, uma situação de treino ou de competição e, portanto, “carregar” os nossos pensamentos de sentimentos positivos. Para efectuar este exercício há que observar os seguintes aspectos:

– Tomar por base uma situação concreta, “vendo-a” o mais nitidamente possível. Por exemplo, “eu estou numa pista de corrida, nos três primeiros quilómetros da prova, numa linha recta e tenho dois adversários  comigo …”

– Considerar o processo sob uma forma global e com o cuidado de a repetir nos mais pequemos detalhes. Por exemplo, “estou acorrer num caminho de floresta, ao longo de uma paliçada, vendo uma cabra à direita e outro carreiro que me leva a um lago …”

– Pôr, se possível, todos os sentidos em jogo, visualizando o lugar, o tempo, a hora do dia, os odores, os sons, etc. Por exemplo, “apercebo-me que estou a chegar ao Posto de Abastecimento e oiço os gritos de encorajamento de quem está a entregar as bebidas …”

– Passar em revista todos os momentos positivos da competição, com o cuidado de “sahorear” mentalmente essas imagens em toda a sua quietude. Note-se que cada uma das coisas que se faz devesurgir no nosso pensamento como uma situação ideal. Se for cometido algum erro durante a fase de visualização, há que tentar voltar para trás, “rcbobinando” o pensamento e recomeçando tudo de novo. Por exemplo, “estou a entrar no último quilómetro da prova, sintome com muita força nas pernas e a passada é bem eficaz. Olho para o lado econcluo que o meu adversário de há pouco já não consegue acompanhar-me …

– Para além do mundo exterior, pode-se também representar e influenciar positivamente o chamado mundo interior. Por exemplo, “sinto-medescontraído, contente e convencido de ter atingido a meta”. No fim, o que se acaba por surgir, no meio de tudo isto é a clara noção de que tudo está interligado. Um bom desempenho físco, a 100% só pode surgir quando todo o meio ambiente que envolve o atleta contribui para isso, está a 100%. É impensável, por exemplo, conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, se há problemas graves no “circulo do atleta”, em sua casa e isto mesmo que fisicamente ele esteja no máximo da sua forma física. Nos atletas de pelotão a prática de um desporto de Endurancc pode ser um bom escape, uma libertação de tensões, mas quando se pensa em alto rendimento o quadroé com pletamente diferente, tudo é jogado nos limites, quer físicos como psíquicos.

NOTA FINAL

Pode-se reforçar a visualização pensando em palavras ou frases-chave, invocando pensamentos positivos que possam contribuir para restabelecer a confiança em si próprio ou para servir de apoio em caso de surgir alguma situação crítica. Isso ajudará o desportista a reconcentrar-se, a recentrar o seu objectivo e a desem baraçar-se da chamada energia negativa. Para visualizarum bom resultado nos últimos três quilómetros de corrida, pode-se recorrer a uma frase que influencie o resultado de forma positiva, como, por exemplo, “sinto-me bem e vou conseguir …”

Esta frase, formulada no quadro da visualização, poderá ser retomada em seguida, quando nos encontrarmos em pleno treino ou com petição. As experiências realizadas com atletas provam que, nas provas longas, o recurso à visualização exerce uma boa influência na obtenção de melhores resultados. Cada um deveria explorar a força das imagens mentais eaplicar estas técnicas de forma a conseguir resultados próximos dos seus limites.

ESCONTRAÇÃO PROGRESSIVA

O objectivo é conseguir uma descontração através da redução da tonicidade muscular, o que se obtém através dos seguintes passos:

1 – Deitar-se de costas, tentanto a descontração mediante o cerrar dos olhos e respirando profunda e calmamente;

2 – Concentrar-se nos grupos musculares;

3 – Contrair progressivamente os grupos jusculares;

4 – Manter essa tensão durante 5 a 7 segundos;

5 – Descontrair essa mesma tensão.

A ordem que deve ser seguida para se obter uma descontração dos grupos musculares deverá ser a seguinte:

– Mão e braço direitos

– Mão e braço esquerdos

– Fronte

– Rosto

– Nuca, peito e omoplatas

– Zona abdominal

– Coxa direita

– Perna e pé direitos

– Coxa esquerda

– Perna e pé esquerdos

 Por Heinz Muller