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Algumas pessoas são mais rápidas do que outras. Até aí, todos concordam, mas por que é que alguns corredores com o mesmo histórico de treino apresentam tanta diferença na velocidade pura? Quando se descobriram os diferentes tipos de fibras musculares, concluiu-se que estava aí a resposta definitiva, mas hoje, estamos afastando-nos um pouco desta hipótese.

Fibras musculares são as células que compõem a nossa musculatura. Dentro de um mesmo músculo, existem diversos pequenos grupos de fibras musculares que são inervados por motoneurónios diferentes (uma extensão nervosa saindo da coluna). Cada vez que nos movimentamos, um estímulo elétrico parte das áreas motoras do cérebro e viaja, através dos motoneurónios, até aos músculos desejados. Esse “choque” elétrico que eles recebem, faz com que ocorram uma série de reações, resultando na contração das fibras musculares e no movimento.

O calibre, ou grossura, desses motoneurónios é que irá definir o tipo da fibra muscular. Um motoneurónio mais grosso permite que uma quantidade maior de impulsos passe numa mesma quantidade de tempo e vice-versa. De acordo com o neurónio que lhe inerva, as fibras irão apresentar diferentes tipos de proteínas contráteis, que são as partes do músculo que efetivamente “se mexem” durante uma contração. Atualmente, consideram-se três tipos de fibras: as do tipo I, tipo IIa e tipo IIx; ou fibras lentas, intermediárias e rápidas, respetivamente.

Cada um dos três tipos de fibras possui capacidades diferentes, de forma que as fibras se “equipam” com substâncias diferentes para poder trabalhar melhor. As fibras lentas, inervadas por motoneurónios de menor calibre, possuem maior irrigação sanguínea e maior quantidade de mioglobina (o equivalente aos glóbulos vermelhos do sangue, só que no músculo) e glicogénio, para poder carregar mais facilmente oxigénio e realizar trabalhos de longa duração. As fibras rápidas, inervadas por motoneurónios mais grossos, estão equipadas por sua vez para realizar trabalhos de maior potência e força, porém perdem a sua capacidade de trabalho em pouco tempo.

Coxa escura, peito branco

Essa diferença no conteúdo das fibras musculares explica a diferença de cor entre a coxa e o peito de frango, por exemplo: a carne das coxas é mais escura, enquanto o peito tem carne branca. Tal acontece porque no frango, o tipo de fibras das musculaturas da perna e do peito são diferentes. Uma galinha passa o dia no chão, e realiza apenas breves voos. Os seus músculos das pernas são adaptados para realizar trabalho durante longos períodos, em baixa intensidade, enquanto o peito está adaptado para breves e fortes contrações das asas.

Aves que voam com mais frequência, apresentam uma carne mais escura no peito e nas asas. A cor da musculatura é na verdade o resultado final do processo: o tipo de inervação que uma fibra muscular recebe, irá determinar o tipo de trabalho que ela está mais apta a realizar, e o trabalho que ela realiza irá determinar o conteúdo da fibra muscular, podendo alterar a sua coloração.

Diversos estudos foram realizados tentando explicar as diferenças nos níveis de força e velocidade de pessoas a partir dos seus tipos de fibra. Alguns músculos parecem ser bastante estáveis quanto à sua composição.

Os eretores da coluna, por exemplo, possuem uma grande predominância de fibras tipo I (lentas), e isso justifica-se pelo seu uso constante como músculos posturais. Já as musculaturas dos membros inferiores e superiores apresentam uma variação maior entre pessoas, porém longe do esperado para explicar diferenças em performance de forma satisfatória.

A grande maioria das pessoas apresenta uma distribuição parecida de tipos de fibras nos músculos das pernas, talvez com uma variação por exemplo, de 10% para mais ou menos que a média, ou seja, nada que crie uma relação inabalável entre tipos de fibra muscular e desempenho em diferentes distâncias.

Mas vamos deixar a fisiologia quieta por algum tempo e pensar na corrida, para que fique mais claro. Algumas pessoas são mais velozes do que outras, isso é um facto, e é quase prontamente atribuído à distribuição dos tipos de fibra nos nossos músculos, o que não é necessariamente correto. O problema aqui, são os nossos parâmetros de comparação: digamos que você corre os 100 m em 14 segundos, e o seu companheiro de treinos, da mesma idade e tempo de treino, não consegue baixar dos 16 segundos.

Os dois resolvem então, começar a treinar para melhorar as suas marcas nos 100 m e após algum tempo, a sua marca baixou quase um segundo inteiro e a do seu amigo, apenas dois ou três décimos. A explicação é fácil: o problema é que o seu amigo possui possivelmente mais fibras lentas que você, é um fundista por definição, enquanto você possui mais fibras rápidas que lhe proporcionam breves períodos de potentes contrações musculares. Tudo muito bem, tudo explicado. O problema é que você também ganha provavelmente ao seu amigo em todas as provas de distâncias maiores, até à maratona. É aí que a teoria da distribuição de fibras começa a perder as asas.

O exemplo dos profissionais

Nada melhor do que atletas profissionais para ilustrar esse ponto. O já falecido queniano Samuel Wanjiru, campeão da maratona nos Jogos Olímpicos de Pequim e ex-recordista mundial da meia-maratona, na sua formação chegou a campeão mundial júnior em provas como 5.000 m e mesmo em provas como os 800 m.

Peter Coe, pai e treinador de Sebastian Coe, dizia que se os meio-fundistas subissem de prova, com o passar do tempo, eles iriam dominar todos os eventos até à maratona, e isso tem-se confirmado com atletas como Wanjiru e tantos outros.

Esse tipo de domínio em provas de duração tão diferentes começa a ser um problema para o “argumento das fibras”, mas ainda resta uma esperança: o atleta vai mudando de prova ao longo do tempo, então é possível que o seu tipo de fibras mude com o tempo e isso explique que ele se dê bem em todas, certo? Não tanto. A capacidade de mudança das fibras, é limitada até onde sabemos.

O neurónio conectado à fibra não muda e é ele quem determina o tipo da fibra. No entanto, aquelas fibras intermediárias, as do tipo IIa, parecem ser bem propensas a “trocar” o seu conteúdo interno, dependendo do treino realizado, de forma que fiquem mais parecidas com fibras lentas ou com as rápidas. As duas, aliás, também podem adaptar os seus conteúdos, porém em menor escala.

Olhando a questão de outro ângulo, pense no seguinte: Wanjiru foi campeão olímpico da maratona e recordista da meia. Pela teoria, um corredor cheio de fibras lentas. Porém, durante a sua meia maratona em ritmo de recorde mundial, ele corre cada parcial de 100 m numa média aproximada de 16 segundos! Ou seja, o mesmo ritmo do seu colega de treino quando faz 100 m. Agora imagine Wanjiru correndo os 5.000 m, os 1.500 m e daí por diante. Corredores fundistas de elite também são excelentes velocistas, tendo marcas em 100 m melhores que muitos velocistas amadores, possivelmente na casa dos 11 segundos baixos ou mesmo 10 segundos altos.

Velocidade é a chave

O importante nessa discussão é que o seu tipo de fibras não determina possivelmente a sua performance mas, independentemente disso, a velocidade é a chave para o sucesso em qualquer distância e deve ser treinada para promover as melhorias necessárias. Um corredor capaz de correr os 100 m em 15 segundos estará possivelmente muito mais à vontade e coordenado correndo no ritmo de 25 segundos/100 m durante dez quilómetros, do que um corredor que faça 19 segundos aos 100 metros e tente fazer o mesmo (ele não vai conseguir).

Se aceitarmos que a velocidade é definida pelo seu tipo de fibras, por sua vez definido pela inervação, esta última “imutável”, só nos resta aposentar os ténis e comprar um jogo de xadrez. Desvincular a velocidade do tipo de fibras permite-nos partir para outros paradigmas em que a velocidade pode ser trabalhada com uma margem maior de sucesso.

Alguns outros fatores além do tipo de fibras, costumam estar implicados com a nossa velocidade máxima de corrida, alguns dos quais permitem que tenhamos alguma influência e outros não. Entre os que não podemos mexer, estão coisas como o tamanho dos nossos segmentos corporais e os locais em que os nossos músculos se ligam aos ossos, o que pode gerar forças de alavanca maiores ou menores. Nas coisas mais “interessantes”, ou seja, aquelas com as quais podemos tentar trabalhar, estão a força da passada, a pré-ativação muscular no momento em que os pés tocam o chão, a sincronização da ativação da musculatura, além da nossa técnica de corrida, todos os quatro inter-relacionados.

Alguns estudos já mostraram que corredores mais velozes são-no, não em função de trocarem as pernas de lugar mais velozmente, mas sim por terem uma maior força (e comprimento de passada, por tabela) a cada passo. Essa aplicação de força alia-se à pré-ativação da musculatura, no instante em que o pé toca o solo. Aparentemente, corredores que já tocam o solo com a musculatura mais ativada, desperdiçam menos energia elástica, por terem uma alavanca mais firme, o que lhes dá um pouco a mais de força a cada passo.

Estes dois fatores, junto com a sincronização da musculatura, permitindo que as diversas fibras de um músculo se contraiam de forma a maximizar a capacidade de força, resultam numa técnica de corrida mais eficiente. Os meios de se treinar isso, são basicamente a execução de sprints curtos, treino de força, e principalmente exercícios explosivos e pliometria.

Quanto mais jovem, maior o potencial para trabalhar a velocidade, até mesmo pelo impacto e stress físico que o treino procura.

No entanto, todos os corredores podem beneficiar ao montarem os seus planos, e quem sabe, cortar alguns segundos aos 100 m para economizar alguns minutos na maratona.

De: Fernando Beltrami, treinador de corrida e triatlo