COMO PREVER AS MARCAS NAS A DISTANCIAS SUPERIORES?

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E sempre interessante termos uma noção quanto ao resultado que se pode obter-nas distâncias superiores àquelas em que competimos normalmente. Em paralelo,também o é, embora em menor escala, no caso das distâncias inferiores e isto porque, regra geral, o corredor vai aumentando a distância competitiva à medida que a idade e a experiência aumentam.

Existem vários trabalhos a abordar esta questão.Uns,jogando comuma grande variedade de dados estatísticos em torno das marcas obtidas pelos campeões ao longo das suas carreiras; outros, tomam por base princípios matemáticos de correlação entre a estimativa das velocidades médias possíveis para cada prova.

Agora, através deste nosso trabalho, vamos utilizar um método matemático simples, a partir de séries homogéneas de resultados, tais como os recordes regionais, nacionais, etc.. Assim, para cada distância, calculámos a velocidade média por troços de 100 metros, tendo por objectivo avaliar a relação entre as duas velocidades médias sobre duas distâncias diferentes, o que possibilita obter-se um coeficiente que traduz, de certa forma, a chamada perda de velocidade consoante aumenta a distância da corrida ou, no caso inverso, no aumento do teor de velocidade se estivermos perante distâncias inferiores. Face a este princípio teórico,julgamos ser oportuno ficar-se com uma noção mais aproximada através de um exemplo prático:

– Velocidade média por cada fracção de 100metros em 800 metros  13,62 segundos;

– Velocidade média por cada fracção de 100 metros em 1500 metros  14,96;

– Conclui-se que a passagem de 800 para 1500 metros, representa uma perda de velocidade de

14.96 =1,10

13,62

Obtivemos, portanto, e nas várias distâncias mais utilizadas nas competições de Atletismo, toda uma série de 1 coeficientes, como se poderá ver na primeira coluna do quadro anexo. Se, numa primeira análise, este trabalho  matemático é importante, também devemos ter noção de que, face aos condicionalismos psico-fisiológicos que regem  o desenrolar do esforço físico nas corridas, há que fazer  alguns acertos muito em função da experiência acumulada durante anos e na análise das carreiras atléticas dos campeões longo das várias décadas.

Na realidade, era sempre necessário calcular a velocidade, através dos já referidos troços de 100 metros, para a primeira distância, aplicando o eficiente e multiplicar por cada número de 100 metros que continha a segunda distância.

Para tornar tudo mais fácil, estabelecemos uma segunda série de coeficientes, constituída pela relação entre as duas distâncias.

Exemplo: 10.000 metros = 25.000

Obtendo o produto dos dois coeficientes (multiplicar a perda ou o ganho da velocidade pela relação das duas distâncias) obtemos um coeficiente global que permite, a partir do tempo total sobre uma distância, calcular a marca que deveria ser realizada na outra.

Vejamos alguns exemplos práticos:

Atleta A – 1.54 aos 800 metros. Que marca poderá esperar nos 1.500 metros?

  • Tempo de 800 metros em segundos = 114
  • Coeficiente 800/1.500 metros = 2,06
  • Tempo possível nos 1.500 metros = 114X 2,06 =235, ou seja, o tempo final de 3.55 segundos.

Atleta B – 30 minutos aos 10.000 metros. Qual o possível tempo em 5.000 metros?

  • Tempo nos 10.000 = 1800
  • Coeficiente 10.000/5.000 = 1/2,10
  • Tempo possível nos 5.000 metros = 1800 X 112,10 = 857, ou seja, 14.57 segundos.

Importa salientar que neste último exemplo utilizámos o inverso do coeficiente 5.000/10.000 metros, isto é, os tais 1/2,10. Para melhor compreensão, aconselhamos o leitor a consultar o quadro anexo.

Depois de termos estabelecido estes cálculos, verificámos a exactidão do trabalho teórico mediante o recurso a marcas efectivamente obtidas por atletas de vários níveis e nas mais variadas distâncias.

 

Os nossos dados estatísticos deram uma relação de resultados exactos na ordem de 1% em 80% dos casos e de 2% se pensarmos nos 100% dos casos estudados. Perante este cenário, estamos certos que a tabela dos coeficientes para distâncias entre os 400 metros e os 20 km é um óptimo meio para qualquer entusiasta do Atletismo, analisar as características e possibilidades de cada corredor. Para os treinadores, e nos vários escalões, esta tabela é sempre muito útil para melhor compreender alguns possíveis pontos negativos na preparação dos seus pupilos.

Sendo o Atletismo um desporto exacto, é lógico que  se apoie em deduções matemáticas, com base em anteriores resultados desportivos verificados ao longo das últimas décadas ese, para certos especialistas, tudo isto pode parecer exageradamente “frio” e rigoroso, sobretudo por estarmos perante actividades em que o Ser Humano é o autor, não podemos deixar de considerar o auxílio das ciências matemáticas como parte importante na interpretação dos resultados, quer estes englobem corredores de alto ou de baixo nível.

Caberá ao treinador escolher a melhor via, tendo por base as características do seu atleta e outros parâmetros que julgue importantes. Aliás, o papel do treinador é sempre o de encaixar métodos e processos na preparação do seu  pupilo e sempre na mira do maior rendimento desportivo.

Por outras palavras, o que será muito bom para um indivíduo, talvez seja de menos utilidade quando utilizado noutro, mesmo que ambos tenham a mesma idade e características morfológicas muito aproximadas.

Saliente-se, igualmente, que à medida que o atleta vai “envelhecendo”, isto é, perdendo velocidade de base, é natural que pense em subir de distância, surgindo os cálculos como factor extremamente essencial e capaz de transmitir maior confiança quanto às marcas que o desportista poderá vir a obter num futuro mais ou menos próximo.

Estamos certos que os coeficientes aqui apresentados serão mais um meio que fica ao dispor dos técnicos desejosos de uma base científica para que a evolução. dos seus corredores seja mais acentuada e de acordo comas previsões mais ou menos optimistas. A par de tudo isto, existe’ ainda outro aspecto extremamente importante. Referimo-nos ao facto do técnico poder explicar “matematicamente” ao atleta quais os resultados que este pode vir a obter, o que, sob o ponto de vista psiológico, pode representar um passo bem decisivo para que o corredor se aperceba de todo o potencial atlético que possui e do futuro risonho que o espera nas próximas épocas. Tudo isso bem explicado, acaba por ter mais valor do que muitos e muitos quilómetros percorridos “às cegas” …

Por J. Viala