Conheçamos os nossos pés para uma melhor corrida…

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Quem correr descalço numa praia e observar as impressões deixadas na areia pelos seus pés, verificará algumas das características morfológicas das extremidades inferiores do seu corpo, sem dúvida um dos pontos mais importantes do corredor. O pé constitui um mecanismo extremamente complexo em que a multiplicidade de ossos e músculos é coberta por centena de vasos sanguíneos e quase um quilómetro de filamentos nervosos envolventes. Foi concebido para deslocarmos-nos descalços em terreno natural, deslocação essa que lhe vai permitir um harmónico funcionamento de toda a musculatura e das diversas articulações. Assim, fácil é compreender que qualquer alteração artificial, principalmente através do uso de sapatos, vai refletir-se neste conjunto de alavancas, algumas delas bastante sensíveis e, sem dúvida, necessitadas da maior atenção, apenas dez por cento da população mundial

continua a deslocar-se servindo-se dos pés conforme as regras da natureza, isto é, descalços.
Paralelamente, nas sociedades ditas civilizadas, 30 a 40% da sua população apresenta deformações de vária ordem nos pés, o que não deixa de ser uma percentagem deveras alarmante numa perspectiva do bem-estar físico de todos. Como principal «culpado» desta situação é de apontar o uso do calçado, muitas vezes segundo os caprichos da moda e violando a estrutura anatómica de tão importante zona do corpo humano.

Sapatos apertados, afunilados, de salto alto, exageradamente largos, de sola alta, enfim, tudo tem sido visto para sofrimento dos nossos pés. E para os. que consideram de civilizados os povos que os utilizam vão as nossas reticências. No dia 10 de Setembro de 1960, precisamente na Via Appia de Roma, um atleta negro desconhecido de todos pisava o asfalto do mundo moderno com os pés descalços, perante a admiração e o espanto dos jornalistas e técnicos. Naquele fim de tarde, a Maratona Olímpica, tão aguardada por todos, iria mostrar ao mundo um longilíneo atleta etíope (1,76 e 58kg), de nome Abebe Bikila, que se sagraria vencedor no espantoso tempo de 2:15.16,2, correndo precisamente como sempre o fizera durante toda a sua vida: descalço!

A surpresa era geral, menos para o treinador do maratonista, o sueco Onni Niskanen, que sabia, há vários anos, que uma boa parte dos naturais da Etiópia se deslocavam descalços e não tinham qualquer problema com os pés como era vulgar acontecer com os habitantes do seu país. Bikila, nascido em 7 de Agosto de 1932, era originário da tribo dos Gallas e desde a mais tenra idade que não tivera acesso, por falta de recursos, ao uso de sapatos. O seu pé estava perfeitamente adaptado à locomoção e, como tal, ao findar a Maratona de Roma, na visita médica de rotina, constituiu motivo, só por si, de grande curiosidade e atenção. Como é natural apresentava uma sola córnea, de certo modo espessa, mas com uma sensibilidade digna de uma epiderme infantil.

Quatro anos mais tarde, nos grandiosos Jogos Olímpicos de Tóquio, Bikila apresentava-se de novo na linha de partida da Maratona. Os fotógrafos não perdiam o momento de focar os pés do atleta, pois o soldado etíope, desta vez; apresentava- se calçado para disputar a prova. Uma conhecida marca de sapatos desportivos tudo fizera para que o corredor africano usasse um dos seus modelos e o objectivo estava perfeitamente à vista, já que os órgãos de informação de todo o mundo publicaram o acontecimento.

A adaptação não tinha sido fácil e o treinador Niskanen, dois anos antes, ao fazer um teste de 32 km em estrada, verificou que o seu atleta perdia noventa segundos quando corria calçado. Na poderosa capital nipónica, naquela tarde de 21 de Outubro de 1964, apesar do atleta demonstrar uma grande facilidade de locomoção e calçar o que de mais moderno existia no campo do material desportivo, a verdade é que, ao findar a Maratona, Abebe apresentava algumas bolhas nos seus pés.

O exemplo agora focado deve servir de reflexão e pôr de sobreaviso principalmente os corredores. Se não é lógico que comecem a correr descalços, há que, pelo menos, não violar as principais linhas anatómicas do pé, preferindo calçado que salvaguarde tal aspecto. Uma das causas mais significativas das malformações dos pés reside no uso de calçado excessivamente apertado e afunilado, o qual, a médio prazo, vai originar o aparecimento dos conhecidos e incómodos joanetes, dedos sem flexibilidade e todo um conjunto de pequenas deformações que, com o tempo, se vão agravando cada vez mais.

Sendo a abóbada plantar uma espécie de mola, o uso de sapatos nas condições já focadas acarreta uma má posição dos pés e uma incorreta maneira de andar, com repercussão sobre o equilíbrio geral da coluna vertebral. Viver sobre bom pé é tanto mais importante quando o cidadão tem uma atividade desportiva, individual ou colectiva, em que a corrida aparece como meio ideal de locomoção. Uma pessoa que apresente deformações nos seus pés verificara ser bastante penoso caminhar e ainda mais correr. Nestas condições, o desportista terá forçosamente que escolher um modelo bastante largo, o que nem sempre corresponde à medida exata do seu pé. sé é certo que os sapatos de corrida apresentam medidas de comprimento até ao pormenor de meios números, a verdade é que a questão de largura não é tão fácil de solucionar por não ter sido ainda encontrada uma medida padrão para tal aspecto. Apenas uma firma apresenta três medidas quanto à largura do sapato, o que comprova quanto há ainda a explorar neste campo. Outro ponto importante diz respeito ao tipo de curva interior do pé.

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 Se, como dissemos no início, observar as suas pegadas na areia da praia, notará que ‘elas poderão apresentar qualquer das variantes focadas no desenho n.º 1. Para uns, a curva interior será muito acentuada, resultando, portanto, ausência completa de traçado a meio do pé; outros, verificarão que o desenho deixado será compacto, o que traduz a falta de curvatura na planta do pé, conhecida popularmente pelo nome de “pé chato … A situação normal será a intermédia, que demonstra uma morfologia perfeita. Infelizmente, os dados estatísticos fornecidos pelo Dr. Pagliano, de Los Angeles, demonstram que, através de estudos anatómicos do pé, apenas quatro em cada dez corredores apresentam uma curvatura plantar normal. Por exemplo, Henry Rono, multi-recordista mundial, tem os pés quase do tipo chato.

Consoante for o seu tipo de pé assim deverá preocupar-se com o uso de palmilhas interiores para facilitar a sua locomoção e felizmente a maioria dos modelos de sapatos de corrida já contempla este requisito. Um dos processos que aconselhamos a quem pretenda adquirir sapatos de corrida consiste em calça-los e, depois, para confirmar se o seu comprimento e a estrutura da pai milha correspondem efetivamente às características necessárias, colocar o dedo indicador no interior do sapato, na .zona do calcanhar. Nesta posição, deverá sentir uma mobilidade absoluta de todos os dedos e um perfeito contacto com a pai milha. Recomendamos ainda que proceda a um segundo teste para verificar o grau de flexibilidade do pé; Sentado e depois de colocar uma folha de papel no chão, obtenha o traçado do pé através de um pouco de tinta colocada previamente na respectiva base.

Seguidamente, de pé, volte a repetir a operação noutra folha. Comparando os traçados apresentados pelas duas folhas, concluirá se possui ou não flexibilidade nos pés, consoante haja ou não diferença nos dois desenhos. A falta de flexibilidade revela também “pouca saúde .. do pé e exige que o corredor introduza diariamente, durante alguns minutos, certos exercícios complementares do tipo que conduza a uma mobilidade de todos os dedos. Assim, um exercício fácil e bastante frequente, consiste em tentar apanhar um lápis com os dedos dos pés ou ainda massaja-los em todos os sentidos.…

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Outro ponto bastante importante que pode observar quando corre descalço na areia prende-se com a maneira como coloca os pés no solo. Um indivíduo normal, ao caminhar, deverá projetar ligeiramente os seus pés para os lados, considerando, para o efeito, uma linha recta imaginária sobre a qual se desloque; se, pelo contrário, tiver problemas nos pés, acontece que, para aumentar a base de sustentação, os pés afastam-se mais, originando uma má colocação da bacia. Uma vez iniciada a corrida- os indivíduos do primeiro grupo, tal como o demonstra o desenho n.º 2, apresentarão quase que uma linha recta perfeita de deslocação, enquanto que os outros farão continuamente pequenos esses no seu trajeto, o q e, numa competição, implica na obrigatoriedade de se correrem mais metros.

Um dos processos práticos para se corrigir tal defeito, consiste em correr sobre linhas rectas, o que, todavia, não resolve totalmente o problema, já que o mesmo reside exclusivamente no tipo de pés. to compreensível que o assunto focado nestas linhas não possa ficar esgotado, dada a importância de que o mesmo se reveste. Os problemas são múltiplos e variados. E se agora nos limitamos a lançar um alerta, justifica-se plenamente que novas páginas sejam dedicadas ao assunto. Entretanto, aqui fica um bom conselho, a ser seguido sempre que para isso haja oportunidade. Referimos-nos à conveniência do atleta introduzir mensalmente, na sua programação, algumas sessões de treino correndo descalço, quer em campos relvados quer sobre a areia dura. A massagem natural que daí resulta é um verdadeiro tónico para os fi lamentos nervosos que envolvem os pés. E estes são, como já verificámos, a base do corredor. Claro que estas sessões de treino com os pés descalços devem revestir-se de certos cuidados, consistindo o principal numa progressão cuidada, de forma a evitarem-se possíveis lesões. Aliás, a noção de progressão por parte do corredor é, sem dúvida, uma das chaves do seu êxito.

por PETER ROLAND *