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Sem falar… Sentir a respiração da companheira … Transpirar … Viver o esforço … O prazer de algo que é comum … A sensação estranha de, mesmo em esforço, haver o mesmo objectivo … Não, não é disso que vamos falar, não é de algo que, por vezes, todos os casais fazem quando, como é hábito dizer-se, “se dão bem”. Do que estamos a tratar é de uma coisa bem simples: a de se correr, lado a lado, com a mulher de quem se gosta!

Correr com a mulher que se ama … Correr com a companheira que nos é querida, constitui, sem dúvida, algo de que poucos já usufruiram. Para quem gosta mesmo de correr, para quem o sente prazer em cada passada, o poder partilhá-lo  com a colega assume expressão de alto valor  quase emocional. Alma, é como se tudo acabasse por poder ser partilhado em união.

É certo que existem diferenças fisiológicas entre o Homem e a Mulher, mas é exactamente a pensar nessas diferenças que optámos por fazer este trabalho, o qual, bem vistas as coisas, acaba por constituir um convite para que se procure correr mais a dois. Ah, as diferenças…

Sim, as diferenças fisiológicas podem representar, nas fases iniciais do treino, problema um pouco complicado, mas há que pensar que tudo tem solução. Bastará um pouco de imaginação para que a ideia de “correr a dois” possa concretizar-se. Uma das principais vertentes que motiva as senhoras a correr, a iniciar um esquema de corrida, é, sem dúvida, a questão da estética, da perda de peso, de se sentirem melhores com o seu corpo. Claro que também conhecemos muitas raparigas que foram para a corrida em virtude do homem dos seus sonhos ser corredor, mas, regra geral, a questão começa por ter uma base de melhoria da estética.

Uma corredora de fundo dificilmente poderá ter as formas generosas de Marilyn Monroe ou de qualquer das artistas mais “sexys”. No entanto, na maioria dos casos, quando as senhoras vão para a corrida só procuram a melhoria da sua base estética.

Gordas ou magras, bonitas ou menos atraentes, as estatísticas acabam por revelar que uma boa parte das mulheres está na corrida devido à importância desta como contributo para o seu bem estar e para o seu aspecto estético. Ora é talvez por aí mesmo que pode começar a acção de motivar a companheira para a descoberta da
corrida. Entre os corredores, entre os grupos de homens que praticam a modalidade, este é um assunto frequentemente aflorado, sobretudo nas conversas em plena corrida e envolvendo atletas com idades compreendidas -entre os 20 e os 35 anos. Aliás, um estudo da Federação Francesa de Atletismo, levado a efeito há dois anos, revelou que uma das causas dos jovens abandonarem a modalidade é exactamente o facto das suas namoradas não serem atletas nem praticarem nenhum desporto de forma regular.

Segundo o trabalho da F.P.F., esse é motivo para que 27% de desportistas “fujam,” da prática do atletismo e sigam para outra modalidade desportiva mais “em moda”, ao estilo dos chamados desportos radicais, ou se disponham, até mesmo, a abandonar definitivamente a prática desportiva. Se é certo que numa fase inicial, sobretudo devido a diferenças fisiológicas, não é fácil que o homem e a mulher consigam correr ao mesmo ritmo e sob o mesmo esforço, a verdade  que, passados os primeiros meses, a mulher acaba por adquirir uma condição física superior mais
rapidamente do que o homem.

Na realidade, comparando ambos os sexos, o feminino adapta-se muito melhor aos esforços prolongados, pormenor que está intimamente relacionado com as suas naturais aptidões para a gravidez, o que nem sempre é devidamente explicado às mulheres que se iniciam na corrida. Aliás, não é por acaso que, ainda há duas décadas, conceituados dirigentes afirmavam que as provas longas eram prejudiciais ao sexo feminino! …

Claro que existem diferenças e é a pensar nelas que elaborámos este artigo, tendo em vista contribuir para que um maior número de casais de cubra os prazeres da corrida.

Vejamos, em síntese, alguns aspectos que julgamos importantes para todos os que
pretendam encetar um treino em conjunto com a parceira. Importa também reter que a sequência destes pontos não aparece por ordem e prioridades, mas, sim, de forma a que as várias vertentes surjam enumeradas para maior facilidade de consulta.

1. Para já, temos uma regra que é absolutamente fundamental: nunca transformar o treino em competição. Isto pode parecer um pouco disparatado, mas a verdade é
que, quando se treina em conjunto com alguém do sexo oposto, há sempre uma tendência para que o desportista com andamento “mais lento” acabe por transformar a sua sessão de preparação segundo ritmos muito próximos daqueles que aplica em competição, principalmente no último terço da sessão de treino. Portanto, muita atenção a este aspecto, o qual, a concretizar-se, pode apresentar
consequências nefastas para o parceiro com menores recursos físicos. Uma coisa é acabar-se esporadicamente a sessão em passada mais vigorosa, outra é quase aplicar de maneira sistemática ritmos intensos que, em vez de permitirem a construção de toda uma melhor condição física, acabam antes por destruí-Ia aos
poucos.

2. Se os níveis de preparação dos dois são diferentes, ou melhor, muito diferentes, então há que tentar planificar o treino de maneira a não correrem sempre juntos, mas apenas em alguns períodos de cada sessão. Na maioria dos casos, isto significa que o indivíduo melhor preparado será obrigado a abrandar um pouco a sua passada, a não ser que deseje que a companheira aumente de ritmo para o seguir e acabe por desmotivar-se quando, mesmo assim, não consegue acompanhá-lo. O ideal, será estabelecer-se um circuito, em que os dois corram nos seus ritmos e que, por vezes, se encontrem para correr algumas centenas de metros em conjunto, aproveitando, neste caso, o que se encontra peor preparado para recuperar e com o objectivo de, findo esse espaço, aplicar o seu ritmo habitual.

Há tempos, num treino na zona de Monsanto, em Lisboa, verificámos que numa inclinação que se prolongava por uns trezentos metros, o rapaz percorria-a sempre a  subir (ritmo mais lento), enquanto a rapariga, que naturalmente tinha ido para o treino com ele, fazia idêntico percurso sempre a descer (ritmo mais vivo).

Depois, os dois separavam-se e votavam a encontrar-se alguns minutos mais tarde naquela grande inclinação.

3. Nunca tentar seguir o ritmo do colega melhor preparado, pois isso só poderá durar alguns minutos e o mais grave é que, desta maneira, não se poderá progredir
convenientemente. Há que ter bem presente que a melhoria gradual da condição física obriga a transformações no organismo do desportista e isso só será conseguido ao fim de várias semanas de corrida regular e sempre dentro das bases dos próprios limites do interessado. Erro, também é incentivar quem tiver pior nível a seguir o de nível mais elevado, pois esse género de incentivo só vai contribuir para a desmotivação de quem se encontra em mais baixa condição.

4. Outro ponto a não esquecer quando se treina a dois e um deles pretende fazer uma breve pausa de marcha para recuperar o fôlego, é respeitar sempre essa pretensão. :\mesmo que o de melhor condição física continue a correr, o mais acertado é que volte alguns minutos mais tarde ao local onde deixou quem preferiu
substituir por momentos a corrida pela marcha. Entre os corredores há uma ideia que em nada corresponde à verdade. Os períodos de pausas, em marcha, digamos, uma caminhada de uns 40 a 50 metros, não significa que a sessão de treino “perdeu” qualidades, mas, antes pelo contrário, tais pausas a caminhar não anulam os benefícios da própria corrida, podendo até melhorar a qualidade do treino. Vários são os métodos de preparação que incluem paragens em que o desportista vai caminhar, não só quando se está a utilizar ritmos mais fortes, como também quando se assiste a sessões de ritmos lentos.

5. Em sessões de treino em conjunto, o mais forte pode exactamente escolher esses dias para efectuar sessões de treino com alternância de ritmos, pormenor” que lhe vai possibilitar a seguinte situação: quando estiver na fase de recuperação, encontra-se a correr com o parceiro mais fraco, “fugindo” depois para correr em ritmo forte e regressar para o fazer mais lentamente, em pequenas passadas, e entrar, portanto, na sua fase de recuperação. Na prática, isso implica que o parceiro mais fraco continue sempre no mesmo ritmo da sua própria passada, enquanto que o mais forte apenas irá estar com ele nas fases de recuperação. Este tipo de treino em conjunto tanto pode ser feito em circuito como ao longo de um percurso de ida e volta, o que equivale a dizer que o desportista melhor preparado terá de correr para a frente e para trás.

6. Outro ponto importante e muitas vezes esquecido: se um dos parceiros gosta de estar sempre a falar e o outro prefere viver o período de corrida em silêncio, há que encontrar o equilíbrio, de maneira a que o tempo de treino não constitua um período de pressão, mas, pelo contrário, de descontracção física e intelectual. Vem-nos à memória o que se passou connosco há uns anos. Nós gostávamos de correr mantendo uma conversa com os colegas, conversas essas que podiam “tocar” as coisas mais diversas.

Foi assim durante anos. Um belo dia, quando estávamos sós na Suiça, saímos do hotel para um treino de 45 minutos. Não conhecíamos ninguém naquelas paragens e o treino iria ser em solitário. Dadas as primeiras passadas, verificámos que, em sentido contrário, vinha um corredor anónimo. Pensámos imediatamente em ir ter com ele, pelo menos sempre poderíamos trocar algumas palavras e talvez ele ajudasse a conhecer melhor a zona.

Quando nos aproximámos, apresentou-se a sugestão de correr a seu lado. Acenou com a cabeça. Continuámos a falar e, ao fim de alguns minutos, concluímos que o colega de ocasião era… mudo! Resultado: corremos durante quarenta e tal minutos absolutamente calados e, pela primeira vez, com a percepção dos prazeres da prática da corrida em silêncio …

7. Cuidado com os ensinamentos e conselhos repetidos. Se, regra geral, os corredores menos experientes gostam de escutar aqueles que estão há mais anos na modalidade, há que ter presente que uma das regras fundamentais quando se treina “a dois” é evitar transformar todas as sessões em aulas teóricas. “Não ponhas o pé assim… Não respires dessa maneira … “Desenrola” mais os braços … Levanta menos os joelhos …” Enfim, correr com alguém que está sempre a procurar corrigir-nos acaba por constituir uma verdadeira “seca”, a qual pode contribuir fortemente para o abandono da modalidade. O ideal é que o parceiro melhor informado transmita esses dados à medida que o menos conhecedor os solicite.

Depois, em termos de aprendizagem, há que não esquecer que quando se quer progredir, melhorar um dado aspecto do estilo de corrida ou da maneira de actuar, o melhor será a concentração num só ponto em cada treino e nunca tentar aplicar todos ao mesmo tempo. Portanto, é conveniente fugir dos conselhos repetidos, do estar sempre a lembrar as partes negativas e partir para cada fase de preparação como se o colega mais fraco estivesse a construir um “saber correr” por etapas, como se tivesse todo o tempo do mundo para isso. E depois, como já se sabe, não há duas pessoas absolutamente iguais e, muitas vezes, o que é bom para a maioria talvez não seja nada aconselhável para o nosso parceiro. Em treino, a informação técnica é algo de yital, mas as situações de ensaio e erro também são muito importantes.

8. Por último, há que ter sempre presente que a corrida tem ser um momento de grande prazer, pelo menos na maioria das suas fases. Se o não for, se tudo for monotonia, se tudo for esforço, se esta os lá para lidarmos com algo que não nos é agradável, então é quase certo que, passadas as primeiras semanas, um dos parceiros não quer mais voltar a essa “coisa “chata”, que é o ir correr … Regra geral, quando, num grupo de amigos sedentários começamos a falar dos prazeres de, por exemplo, ir correr à chuva ou de nos levantarmos às sete da manhã com um desejo “irresistivel” de ir correr, olham-nos como se estivéssemos a gozar com eles. Dizemos, até, que não compreendem mesmo como é que alguém pode ter prazer em correr. A versatilidade dos trajectos, a alternância do tipo de corrida, a descoberta dos nossos silêncios ou a vivacidade de uma conversa sobre assunto nunca abordado, podem representar algo de muito importante, capaz de transformar os
treinos entre parceiros como mais um momento para cimentar a amizade e o amor.

Correr a dois…. Competição

Ah, quantas vezes temos vistos casais a entrar em competições e em que as condições físicas dos dois intervenientes são bem diferentes …
Pois é, o Homem e a Mulher são diferentes e tais diferenças acabam por fazer com que o sexo masculino, por todo um conjunto de vivências, se encontre, à partida, mais apto a correr. Depois, com o evoluir do treino, a situação inverte-se, já que as senhoras, também pelo seu diferente potencial fisiológico, dispõem de melhores aptidões naturais para as provas longas. Enfim, é difícil na prática encontrarem-se
casais com o mesmo ritmo de passada competitiva. Porém, uma questão se levanta: e se pretenderem efectuar uma competição em conjunto? Vejamos alguns aspectos a repensar … Logicamente, em conjunto!

1. O corredor mais forte deve comportar-se de maneira a que, no momento da partida, não utilize passada vigorosa. Há que começar a  competição num ritmo muito fácil, que permita à companheira poder aplicar a sua passada individual de competição. As acelerações bruscas, as mudanças de ritmo, devem ser esquecidas. Deverá ser a companheira a “dizer” qual o andamento a aplicar e não o contrário.

Note-se que, para o individuo melhor preparado, as alternâncias de ritmo ou as partidas rápidas podem representar situações que, em função do seu nível, acabam por ser compensadoras, enquanto que nos indivíduos mais fracos, essas alternâncias podem ser de todo catastróficas e contribuir mesmo para o abandono da competição.

2. Se as condições físicas estiverem adversas no dia da competição, isto é, com vento forte, chuva, etc., então o companheiro melhor preparado deverá ter um comportam ente de maneira a minimizar, de certa forma, essas influências climatéricas. Por exemplo, com vento de frente, ele deverá colocar-se na frente
do parceiro para o proteger. Como é dificil correr vários minutos exactamente ao ritmo do que é protegido, o melhor será colocar-se não de frente mas, sim, ligeiramente na frente e de lado, o que permitirá a protecção contra o vento, ao mesmo tempo que se apercebe se a passada está correcta para o nível atlético do parceiro.

3. No último terço da distância, a ajuda pode ser muito importante, não só indo buscar os abastecimentos às mesas como, igualmente, incentivando o colega a imprimir um ritmo de passada constante. Nas atletas de topo de nivel, as lebres masculinas axercem a sua maior influência exactamente nos denadeiros períodos da competição, isto é, quando a concentração da corredora é menor e quando uma palavra amiga dita no momento certo pode contribuir decisivamente para que se atinjam limites físicos que jamais se julgaria possível atingir.

Continuar a Correr

Nos casais, nem sempre os dois são praticantes de corrida. ‘Regra geral, a esposa
acompanha por vezes o marido às competições e pouco mais do que isso. Mas talvez um dia, talvez mesmo num determinado momento, ela apresente a si mesma a questão se não será mesmo muito interessante fazer uma experiência.

É a pensar nesse dia, nesse tal momento, que escrevemos estas linhas. Inconscientemente, o marido talvez até já tenha pensado (mas, regra geral, nunca diz nada .•.) em como seria interessante que a sua companheira também corresse. Não é de estranhar, portanto, que quando o tema surge em conversa, o marido procure dar todo o seu apoio a essa primeira experiência.

O encaminhar a parceira para que ela fique mais apta para a modalidade desportiva
que ele adora, é arte que exige paciência e talvez  valha mesmo a pena abrandar as suas sessões para ajudar a mulher. No fim, pode-se estar a perder parte dos treinos, pode-se mesmo sacrificar algum tempo da nossa corrida, mas, quem sabe, talvez se esteja a construir algo de muito importante para o futuro dos dois. E quando se pensa no futuro de um casal, é natural que não possamos esquecer que a prática da corrida entre dois seres que se amam pode constituir um estranho e delicioso reforço dos laços de amor entre os dois.

AS PRINCIPAIS DIFERENÇAS
….. Homens Senhoras
CORAÇÃO
Débito máximo 3,5l1min 27,511min
Frequência cardíaca máxima 198 180
ÁGUA
Relação água/peso do corpo 70% 60%
FORÇA MUSCULAR ESTÁTICA
Membros superiores +44% -44%
Tronco +36% -36%
Membros inferiores +28% -28%
HORMONA MASCULINA
Sangue 5,90 ng/nl 0,40 ng/nl
Urina 100 ug/24h 11 ugl24hh
PULMÕES
Capacidade vital em litros 5,68 4,28
Ventilação max./minuto 140 95
Frequência respiratória maxlmin. 40 46
Sangue
Globos vermelhos 4,5 a 5,9 milhões 4 a 5,4 milhões
Volume sanguíneo em litros 6 4 a 4,5
V02 MAX
Valores máximos 84,4 mllmin/kg 71 mllmin/kg

Mais Próximo do divorcio 

Um estudo divulgado pela “American :\1edical Joggers Association” e envolvendo questionários a 2.000 corredores com idades compreendidas entre os 20 e os 60 anos, revelou que a relação num casal em que ambos praticam regularmente a corrida é muito mais estável do que quando apenas um deles se dedica à modalidade.

Se o homem é atleta e a mulher não, a situação é, até certo ponto, “aceitável” nos primeiros anos, mas, depois, os problemas podem surgir à medida que se vai a avançar na idade e as diferenças dos níveis de forma se forem a acentuar, havendo até algumas possibilidades da prática da corrida acabar por contribuir para uma situação de divórcio. O corredor de fundo, regra geral, é mais activo, mais disciplinado, mais individualista, e perante uma esposa que adopte estilo de vida mais de harmonia com as bases sedentárias, é bem possível que a relação entre os dois acabe por deteriorar-se. A Dra. Liz Levy, psicóloga em New York, tem uma frase para expressar os princípios de um certo distanciamento: Regra geral, costumo perguntar aos casais que me consultam como é vivido o seu domingo de manhã e quando algum dos cônjuges me di;. que pratica a corrida sem a companhia do outro e que sai bem cedo da cama para ir correr; enquanto o companheiro ou companheira/o em casa … então, é um dado importante para compreender certos distanciamentos que podem eventualmente existir na sua vida conjugal. No caso de ser a mulher quem gosta de correr, o espaço que os leva à separação é muito mais arriscado, principalmente nas famílias de base latina. O homem terá dificuldade em compreender por que razão a sua companheira o deixe para ir correr.

Mais grave, ainda, é quando a mulher é atleta activa, com forte vivência competitiva e o marido é um dos muitos cidadãos que leva uma vida sedentária. As contradições entre os dois podem acabar com a relação conjugal mais cedo do que se poderia pensar.

Texto : Alan Bernard