CUIDADO COM AS VARIZES

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Quando efectuamos os treinos mais prolongados ou somos submetidos a qualquer actividade que nos obrigue a posição estática durante um razoável período de tempo, é natural que comecemos a sentir como que um grande peso nas pernas, acompanhado de uma certa fadiga muscular.

A acumulação de sangue nas extremidades dos membros inferiores e a lentidão com que se efectua o chamado “retorno Venoso” são as grandes responsáveis por tal situação e os transtornos circulatórios que isso provoca num corredor podem estar associados a edemas, sobretudo ao nível dos gémeos, o que vem dificultar o acto da corrida e contribuir para que o esforço físico seja muito menos agradável.

Normalmente, e isto passa-se tanto nos grandes como nos pequenos clubes, o atleta aponta, como causa de tal situação, a falta de massagens ou a sua má aplicação ou execução, esquecendo-se que o problema pode ser outro e de origem fisiológica.

A situação apresentada neste artigo pode afectar não só os atletas seniores, juniores ou veteranos, masculinos e femininos, come também o praticante de alto ou baixo nível, aspecto que nos leva a considerá-la de indiscutível importância no panorama da nossa actividade desportiva.

Existem, com efeito, factores hereditários que contribuem para uma certa propensão tendente ao aparecimento de inchaço dos músculos inferiores, de que resultarão, mais tarde ou mais cedo, pequenas varizes.

UM POUCO DE ANATOMIA

Regra geral, o sangue chega às extremidades dos membros inferiores através das artérias femural (primeiro) e tibial anterior, posterior e perónea (depois), voltando ao coração através das veias.

Destas, existem dois tipos:
1) Veias superficiais, tais como a safe na interna e a externa, que são de tipo possuidor de um sistema de válvulas que obrigam o sangue a circular numa só .direcção, ou seja, sempre a caminho do coração;

2) Veias profundas, como a veia femural e as que acompanham as artérias tibiais anterior, posterior e perónea. O nosso organismo possui um sistema de ligação entre as veias superficiais e profundas, composto pelas veias perfurantes, igualmente possuidoras de válvulas dispostas de tal forma que o sangue circula sempre em direcção às profundas.

FUNCIONAMENTO DO RETORNO VENOSO
Depois desta breve síntese sobre a anatomia do sistema nervoso das pernas, importa abordar o mecanismo do chamado “Retorno Venoso”.

A acção muscular, combinada com a disposição das válvulas, constitui um importante factor para tal situação, isto é, o regresso do sangue ao coração depois da sua passagem pelos membros inferiores.

Quando nos encontramos sentados, imóveis, a circulação sanguínea faz-se de forma lenta (ver desenho nº 1). Esta inactividade muscular obriga o sangue a circular, tanto ao nível das veias superficiais, como das profundas,
embora a maior quantidade se processe por estas últimas.

Durante o exercicio. físico, as mudanças de oressão são de tal natureza que o sangue quase abandona as veias superficiais para circular ao nível das veias profundas, aspecto que evita uma sobrecarga do sistema nervoso superficial.

Assim, durante um esforço de corrida, a circulação de sangue através das primeiras é muito reduzida, chegando, até, nalguns casos, a não circular sangue algum por tal via.

Evidentemente que quando existem algumas pequenas deficiências nas veias profundas ou quando estas se encontram temporariamente fechadas, como, por exemplo, no caso de contracturas ou lesões musculares de qualquer outro tipo, então, torna-se necessário que o “Retorno Venoso” se processe através da circulação superficial, aspecto que não apreserrt a grandes vantagens, já que as veias superficiais não possuem válvulas tão fortes como as do tipo profundo, o que origina, portanto, inevitáveis deficiências.

Alguém já definiu o organismo humano como sendo uma máquina tão maravilhosa que se torna impossível “construirll outra igual. Com efeito, referindo-nos só a este aspecto que estamos focando, vamos encontrar ainda quatro grandes outros mecanismos que podem compensar o efeito da gravidade sobre o “Retorno Venoso”. Sim, porque será bom não esquecermos que o regresso do sangue ao coração faz-se contrariando a acção da Gravidade …

Tais mecanismos são os seguintes:
A) O poder de vaso constrição das veias das pernas, sistema que implica uma certa acção reflexa das paredes das veias, através de ligeiras contracções musculares involuntárias, de forma a se evitar a acumulação de sangue;

B) A acção de “massagem” dos músculos que rodeiam as veias dos membros inferiores, os quais, ao contraírem-se, actuam como verdadeiras compressas que apertam as veias e obrigam o sangue à circulação. Devido à disposição das válvulas que se encontram nas veias, a contracção dos músculos leva a que o sangue siga unicamente em direcção ao coração;

C) A presença de válvulas nas veias das pernas contribui decisivamente para que o sangue circule num só sentido, conforme poderemos compreender facilmente através do desenho nº 3, aspecto que nos transmite uma imagem real do maravilhoso funcionamento do corpo humano;
D) Os movimentos respiratórios, quer de inspiração quer de expiração, actuam também como um certo tipo de bomba, funcionando em contracção e relaxação da musculatura das pernas. Assim, mediante a inspiração, o sangue é aspirado dentro das veias toráxicas pela diminuição da pressão do torax, o que provoca a progressão do fluxo venoso até ao
coração. Do mesmo modo, a inspiração favorece a acção do sangue ao nível abdominal e toráxico, enquanto que, durante a expiração, os efeitos de pressão se invertem.

Vejamos detalhadamente a execução e alguns exercicios aos passíveis de colmatar lacunas no funcionamento do chamado “Retorno Venoso”. Exercício n2 1: caminhar descalço sobre as pontas dos pés; Exercício n2 2: de pé, na mesma posição, elevar o cor-po: 20 vezes; Exercício n2 3:com as pernas elevadas, executar repetidamente pequenos círculos (este exercício deverá ser efectuado três vezes ao dia); Exercício n2 4: Elevar as pernas e fazer o movimento de pedalar durante 30 vezes; Exercício n2 5: Deitado, como se vê na figura, juntar as pernas e executar pequenos círculos, alternando a direcção em cada série de 5 círculos

COMO SURGEM OS PROBLEMAS
Quando algum destes mecanismos que temos vindo a focar começa a falhar, produz-se uma acumulação de sangue nas extremidades inferiores dos membros, proveniente da insuficiência de “esvaziamento” das veias, o que origina situações de inchaço nas pernas que, em certos estados extremos, chegam a ser muito dolorosas.

Nas situações mais graves, aparecem edemas (saída do liquido plasmático dos vasos para os tecidos que os rodeiam) e em tais circunstâncias não se aconselha qualquer actividade física.

O aparecimento de pequenas varizes é fruto de deficiências funcionais dos mecanismos de compensação, situação em que se torna indispensável ter presente alguns dos seguintes conselhos:

1) Evitar o uso de roupas apertadas ou de ligaduras na parte inferior do corpo;

2) Não estar sentado ou de pé por períodos superiores a.uma hora. Se o leitor é propenso a ter frequentemente as pernas inchadas, é bom que, nas situações de imobilidade, deixe quatro ou cinco minutos para caminhar um
pouco e descontrair, portanto, os músculos das pernas. Se, pelo contrário, tem de permanecer muito tempo de pé, o melhor será prever um descanso de cinco minutos, durante o qual permanecerá sentado, e procurando colocar as pernas elevadas como se estivessem sobre o tampo de uma mesa;

3) Procurar dormir com as pernas numa posição elevada relativamente à da cabeça, num desnível de cerca de 5 centímetros;

4) Vigiar o controlo do peso, pois quanto maior for o volume muscular do corpo maiores serão as cargas a suportar pelos membros. Se estiver com um pouco de peso a mais, então, é aconselhável submeter-se a um regime de dieta ou de treino físico compensatório;

5) Tomar um banho diário de água morna durante 10 minutos, tendo o cuidado de massajar as pernas, mas sempre no sentido de baixo para cima;

6) Ter grande cuidado quanto a possíveis cortes nas pernas ou à existência de pequenas feridas, dado que qualquer rotura de simples vaso pode originar uma grande saída de sangue que é sempre difícil colmatar;

7) No Verão, com tempo quente, devem ser evitadas as exposições prolongadas das pernas ao Sol, aspecto que contribui para a formação de um maior inchaço;

8) Usar sapatos cómodos, tanto no treino de corrida como nas actividades profissionais diárias. As senhoras devem evitar a utilização de sapatos de salto alto;

9) Praticar todos os dias alguns exercícios compensatórios, com as características particulares inerentes ao esquema que apresentamos neste artigo .

por FRANCIS MULOT