Dissertação opinativa sobre a História da Corrida Pedestre ao longo dos tempos….

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Um dos gestos da evolução dos seres vivos, mais marcantes, é sem dúvida o movimento que de forma progressiva se vai transformando em locomoção e esta em corrida. Todas as espécies desenvolvem o percurso do seu caminho, no viver e morrer, a lei natural da vida. O ser humano ao longo dos séculos tem sido o que tem progredido com mais técnica, a sua forma de se mover para espaços e distâncias, que nem as aves nos seus longínquos voos, o consegue superar.

É óbvio que neste ciclo evolutivo, outros seres, foram um seu auxiliar de extrema importância, nomeadamente no transporte de bens e pessoas. Os exemplos são tantos e ao longo dos vários períodos históricos, que a omissão de alguns é apenas resultado da sua enormidade. Apenas como exemplo, temos um dos melhores parceiros no deserto, o camelo, na selva o elefante, no gelo o lobo ou cães selvagens, na pradaria o cavalo, a mula e o burro, nos campos, as vacas, os bois, nos mares os golfinhos, etc.

Mas de forma autónoma e independente, também o ser humano caminhava e caminha, por montes serras e vales, atravessando desertos e rios, quando o caudal o permitia, na busca de alimentos ou procura de novos locais para morada da comunidade.

Como se constata a marcha e a corrida foram as primeiras formas de esforço físico que o ser humano mais se aplicou, ora por necessidade, por sobrevivência nos palcos de batalha com os seus congéneres ou em confronto com outras espécies, nomeadamente com as mais corpulentas ou numerosas. Correr foi a “arte” mais desenvolvida e com resultados visíveis, sendo a mesma exercida como mensageiro, alertando para os perigos ou ataques, ou mais basicamente na disputa com os demais seres vivos, indispensáveis para a sua contínua existência.

Equipa de 4×100 e 4×200 de 1937 da esquerda para a direita – Alves Pereira-António Rendas-Cunha Rosa e Neves Carvalho – recordiastas das 2 estafetas nesse ano – jornal STADUIM de 21.7.1937

O lazer foi sendo cultivado, na escrita e outras formas de expressão corporal e oral, sendo as actividades, mais físicas do ponto de vista lúdico, iniciaram-se com os preparativos paras as guerras e só posteriormente evoluíram para os chamados jogos de arena, também estes com a componente mais marcial e de luta pela vida, do que por mero gosto ou passatempo.

As civilizações foram apurando os seus códigos de vivência em sociedade, e caminharam no sentido de aplicar de forma prática e massiva, o desenvolvimento do intelecto, em actividades artísticas, culturais, físicas, sendo estas últimas na vertente da competição. Desta caminhada surgem os primeiros jogos organizados, contendo várias modalidades, tendo a corrida atingido a sua condição primeira, enquanto prova de resistência, com a maratona, e só posteriormente à mesma foi introduzida a performance da velocidade.

No seu caminhar foi a corrida, dando lugar a múltiplas especialidades que nos tempos mais modernos, acabaram por integrar a modalidade desportiva, classificada como atletismo e na qual predomina o uso dos braços e pernas, em categorias distintas entre si, exemplo do lançamento do dardo, do disco, do peso, do martelo. Outras com uso híbrido dos membros inferiores e superiores, como o salto em altura, à vara e em comprimento. A corrida também originou a marcha, a prova de obstáculos e muitas outras subespecialidades, diferenciadas entre si, na distância e rapidez.

Não irei alongar-me nas nomenclaturas classificativas e organizativas, da classe de atletismo, integrada na árvore das muitas classes que corporizam a actividade desportiva, ela já de si múltipla. O pretendido é dar enfase à caminhada, à marcha e à corrida, predominantemente praticadas em estrada, pista, trilhos e areia.

Andar é uma necessidade física, mental e espiritual, que sempre acompanhou e integrou o ser humano nas diversas vertentes da sua vivência, política, social e religiosa. Abstrairmo-nos desta realidade, é fazer como a “avestruz”. A análise da trilogia é de discussão profunda e abrangente, nas concepções filosóficas e ideológicas, acrescidas da componente do culto, ou seja o sagrado e o profano. Basta analisar os chamados jogos populares, também eles multifacetados, no uso da força e da sensibilidade artística, mas imbuídos do seu aspecto místico.

Retomando a corrida, é já nos nossos tempos que ela integra a preparação militar, nas estradas e nos campos. Aliás convém recordar que algumas das ditas modalidades amadoras, irromperam por razões políticas e sociais, no âmbito militar, nomeadamente em campeonatos de selecções castrenses. Aos poucos e por influências da vida militar, foram-se criando pequenas colectividades, mais de componente artística e recreativa, ficando quase sempre relegado para segundo plano a actividade desportiva, e ainda na maioria dos casos com a supremacia do futebol. Mas como a vida é dinâmica, acabaram por surgir clubes para a prática de modalidades náuticas em rio ou mar, aparecendo também na panóplia de modalidades, a corrida, que por sua vez foi influenciando outras classes, como a marcha atlética e mais recentemente o trail e a orientação, sendo a última nas vertentes cidade/ campo, ou seja estrada/trilho.

As provas de corrida em estrada e de forma massificada tiveram o seu crescimento na consequência do derrube do regime político então vigente, resultado dos acontecimentos ocorridos em 25 de Abril de 1974, e a sua evolução para a democracia participativa e representativa. Pelo facto começaram a florescer por todo o País, do continente às ilhas dos Açores e Madeira, a organização de provas de corrida em estrada, no começo com predominância comemorativa, mas as mesmas foram dando lugar a iniciativas de desenvolvimento local, turístico e social. Nesta senda acabariam por surgir as provas de montanha, troféus, encontros, corridas solidárias e os já famosos trails e ultra-trails. Resumindo a corrida já é uma “Indústria” que movimenta muitos milhões de euros, graças aos milhões de corredores existentes por esse mundo fora.