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No Congresso Internacional da Corrida, realizado pela Federação Portuguesa de Atletismo, o treinador Renato Canova analisou a realidade nacional comparativamente ã Europa e aos restantes continentes.

Uma das afirmações com que iniciou a sua apresentação (convertendo-se esta numa dasprincipais reflexões com que presenteou o público assistente) reportou-se ao pessimismo presente na Europa após o surgimento do atletismo africano. Actualmente, os atletas africanos dominam grande parte das provas de atletismo, arrecadando prémios em quase todas as competições, desde as mais mediáticas até simples provas regionais. Para este profissional italiano dizer que os africanos são melhores é um álibi que os europeus encontraram para explicar a sua debilidade.

O que se passa é que os europeus actuais treinam menos e mais lento do que os europeus de há 20, 30 anos (. ..). Os europeus treinam ao ritmo que o Lopes treinava no seu tempo.

Aprimeira questão que me surge é: Porquê?

Se as marcas deixadas no passado, por atletas de alto mérito como Carlos Lopes, proporcionaram (e proporcionam) sentimentos de orgulho nacional, porque não procuram os actuais atletas superar esses resultados  ter-seão modificado os objectivos dos atletas ao longo destes anos.

Terão surgido outros objectivos entretanto, os atletas de hoje terão mesmo outras prioridades e serão essas novas prioridades mais importantes que o título da prova a que o atleta se submete hoje em dia é preciso correr durante muito tempo e muito rápido. É esse o segredo dos africanos  pdemos então declarar que estes atletas treinam mais (em quantidade e consequentemente promovendo um aumento da qualidade) que os atletas europeus, e ao fazê-lo mais vezes vão, certamente, melhorar os seus limites pessoais e os limites de todos os atletas que fizeram a história do atletismo.

O tempo avança, a exigência aumenta, o esforço e a motivação para atingir os fins deverá também aumentar progressivamente para que os objectivos possam ser atingidos.

Os europeus não têm paciência, querem resultados o mais rápido possível, por isso deixaram de treinar a corrida. Antes o treino era a vida, hoje em dia já não, esta afirmação leva-me a supor que a procura de títulos com baixos níveis de treino será o mote actual dos atletas europeus, ou será ainda o treino o objectivo de vida dos atletas africanos’ Esta distinção de objectivos leva ao surgimento de dois mundos distintos: se para os europeus os resultados finais serão o propósito da realização da prova, para os atletas africanos haverá algo mais do que o título da prova em questão.

A motivação, enquanto “motor” capaz de mover o indivíduo e o levar a atingir o objectivo estipulado, poderá decifrar parte desta separação. Estas forças, que mobilizam o indivíduo para atingir os objectivos, ao serem divergentes, podem levar ã existência de dois tipos de motivação: extrínseca e intrínseca. Enquanto a primeira está direccionada para o resultado, valorizando os prémios e o reconhecimento social, a segunda relaciona-se com o prazer em realizar a tarefa valorizando o esforço, a aprendizagem e a competência.

Relacionando a perspectiva do técnico Canova com esta tipologia podemos observar um paralelismo entre as duas vertentes. Assim, aos atletas europeus estará associada a motivação extrinseca (estando o sucesso destes ligado  ã simples comparação com outros atletas e ás consequências dos resultados obtidos) e aos atletas africanos a motivação intrínseca (associando-se à prática competitiva o prazer pela modalidade procurando o constante progresso pessoal). Esta diferenciação teórica pode justificar a informação referida pelo treinador Canova, mas se tal for verdade, esta diferença de objectivos dever-se-á a que factores quais serão as causas desta distinção motivaciona.

Dever-se-á ao facto de os europeus (e aqui refiro-me a todos os indivíduos que compõem a Europa, e não apenas aos atletas) se terem tornado progressivamente mais materialistas mais consumistas valorizando apenas os benefícios materiais decorrentes de uma determinada tarefa estarão os africanos a valorizar o próprio progresso individual enaltecendo as capacidades pessoais e as próprias competências.

Poderá o mundo menos-materialista destes indivíduos trazer-lhes vantagens comparativamente aos europeus da mesma forma que passaram a dominar as provas de atletismo analisando os comportamentos decorrentes dos dois tipos de motivação, verificamos que a motivação extrínseca está associada a uma maior percentagem de desistências perante resultados desfavoráveis, bem como a níveis mais altos de ansiedade e de descontrolo emocional que podem levar ao abandono precoce.

À motivação intrínseca está associado o prazer nos treinos e na competição, evidenciando-seuma valorização do esforço dispendido que se reflecte na permanência na actividade. A fim de promover o desenvolvimento da motivação intrínseca aconselha-se a definição realista dos objectivos a alcançar centrados no desenvolvimento das capacidades do próprio atleta proporcionando as condições de treino necessárias ao mesmo. Contudo, a principal
estratégia relaciona-se com a valorização constante do esforço e do desempenho em detrimento dos resultados obtidos. Os títulos deveriam ser a consequência do esforço e da motivação despendida mas atendendo a todos os
factores que medeiam uma prova competitiva, esta relação linear pode não ser observada, impossibilitando-nos de assegurar atempadamente o desfecho da prova.

Texto: Paula Miguel Pereira