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A fractura por stress é um problema que antigamente era restrito aos atletas de alta performance (alto impacto) e militares (marcha por longa distância), mas hoje deve ser lembrado por quem pratica e lida com atividade física.

Com o aumento do número de praticantes de desporto e a sobrecarga extra, que às vezes chegam a ultrapassar a resistência fisio-histológica do osso (principalmente corrida), além da intensidade dos treinos, as fracturas por stress podem acontecer por causa do esgotamento muscular (esforço excessivo) e a falta de absorção de impactos acumulativos. Invariavelmente, os músculos fatigados transferem a sobrecarga do stress para o osso ocorrendo a fractura por stress.

O que é fractura por stress? As fracturas por stress são fissuras microscópicas dos ossos, causadas por uma soma de quantidade de impacto. Esse esforço físico repetitivo aumenta as solicitações ósseas, que quando ultrapassam a resistência normal, ocorre a substituição da deformação elástica pela deformação plástica, isto é, não há retorno à situação anterior e, caso as exigências continuem, instalam-se microfraturas, prevalecendo então a reabsorção óssea. Nesta fase da evolução, tem-se uma alteração fisiológica, a fractura, no entanto sem aparente comprometimento anatómico (deformidade).

Como acontece? Pode-se originar de um aumento muito rápido da intensidade, volume ou mesmo de uma mudança no tipo de treino (troca de calçado, tipo de piso, programa de saltos, etc.). A fadiga muscular pode também ter um papel importante na ocorrência de fracturas por stress.

Para cada milha que um corredor percorre, mais de 110 toneladas da força devem ser absorvidas pelos pés. Os ossos não são feitos para absorver muita energia e os músculos agem como absorventes de choque adicionais. Mas, quando os músculos se tornam cansados e param de absorver a maioria da energia, as quantidades mais altas de choque vão para os ossos.

O osso envolvido é submetido a uma carga excessiva sem o devido respeito aos princípios de progressão e repouso, e inicia-se uma fractura da parte mais interna do osso (trabéculas ósseas), que pode, se não tratado, progredir para uma fractura completa (incluindo a cortical).

Qual a incidência? Os estudos têm mostrado resultados que indicam que as mulheres têm mais fraturas por stress do que os homens. Muitos ortopedistas atribuem este facto a uma condição conhecida como “a tríade da atleta feminina”:

(imagem de fractura de stress no peróneo esquerdo)(a)

A primeira descrição das fracturas por stress nos atletas foi feita por Devas, em 1958, embora apenas com o surgimento dos modernos exames de imagem é que pudemos diagnosticar precocemente estas lesões, assim como entender melhor o comportamento frente às formas de tratamento que foram surgindo.

As fracturas por stress são descritas na maioria dos desportos e, nos corredores, 5% a 16% de todas as lesões são denominadas dessa forma.

O que são as “Reações de stress”?

O termo “Reações de stress” foi criado para descrever as contínuas modificações que ocorrem no metabolismo ósseo em resposta às cargas aplicadas sobre eles durante o esforço físico. O osso é uma estrutura viva e modifica-se para se adaptar às cargas do treino, mas tais adaptações nem sempre são suficientemente rápidas e eficientes. Estas reações de stress incluem todas as modificações ósseas, desde a formação de osso novo (osteogénese) até a absorção (osteoclasia). A fractura por stress significa uma quebra no equilíbrio entre as taxas de formação e absorção ósseas.

Quais são os fatores de risco?

Os músculos envolvem os ossos e também funcionam como factores de protecção, na medida em que dissipam a energia, diminuem a concentração de stress, geram tensão e finalmente promovem a execução dos movimentos. A fadiga muscular observada nas situações de sobrecarga física contribui para o desencadeamento das fracturas por stress. A chamada “Tríade da Mulher Atleta” é caracterizada por mudanças dos hábitos alimentares, interrupção dos ciclos menstruais (amenorréia) e osteoporose. Estas condições estão relacionadas aos desportos de longa duração, nos quais a restrição alimentar, combinada com os altos níveis de treino, podem promover o enfraquecimento ósseo localizado.

As condições e características do treino também podem ser consideradas fatores de risco. Os estudos em corredores de longa distância apontam para alguns factores de risco, como o aumento súbito na velocidade e distância percorridas, as condições de superfície inadequadas (piso e sapatilhas), intervalo entre treinos e condicionamento físico insuficientes. Nos corredores de longa distância, as fracturas por stress da tíbia são as mais frequentes (50%), seguidas pelo peróneo, ossos metatarsais (2º e 3º), calcâneo e outros.

Quais as queixas mais frequentes?

A história do paciente com fracturas por stress é marcada pelo início da dor de pequena intensidade, sem estar associada a qualquer traumatismo ou acidente. A dor faz com que o atleta modifique as condições de treino aumentando os intervalos entre as séries de exercícios e diminuindo a velocidade ou a duração da corrida.

Como podemos diagnosticar as fracturas por stress?

O diagnóstico baseia-se na análise de um especialista sobre os dados da história do paciente, exame físico, exames laboratoriais e métodos de diagnóstico por imagem.Os métodos de imagem são: cintigrafia óssea, ressonância magnética e radiografia simples.

Como as fracturas são tratadas?

O tratamento varia em função de algumas características da fractura, tais como localização, tipo de osso afetado e tempo de evolução. Pode-se estabelecer um planeamento geral para o tratamento, dividido em duas fases:

A fase I ou de repouso modificado baseia-se no controle da dor por meio do uso de medicamentos anti-inflamatórios sob prescrição, fisioterapia e manutenção das actividades de vida diária sem provocar sobrecarga sobre o osso afetado.

A fase II inicia-se a partir do momento em que o atleta não apresenta mais queixas de dor. Esta fase baseia-se nos objetivos da fase I, somados à correção de factores predisponentes. Neste processo, o atleta inicia progressivamente o retorno às atividades de caminhada, trote e corrida até a normalização das condições de treino.

Algumas situações exigem a utilização de órteses (palmilhas, imobilizadores da articulação) e, em casos mais raros, o tratamento cirúrgico das fracturas. Outras modalidades de tratamento têm sido também empregadas como coadjuvantes na aceleração do processo de consolidação óssea nas fracturas de stress, como a terapia com ondas de ultra-som pulsado de baixa intensidade e a aplicação de concentrados plaquetários no foco da fractura(factores de crescimento).

Um treino bem elaborado aliado a boas condições de saúde é a chave para a prevenção das fracturas por stress. Bons treinos!

(a) Fractura de stress no meu peróneo esquerdo durante a Meia Maratona de Lisboa, em 12 Dezembro2006
Trabalho de: Rui Campos
Atleta