Influência das subidas e descidas numa prova.

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É habitual surgirem comentários menos concordantes quando os percursos das provas de estrada apresentam desníveis acentuados e, sobretudo, quando a distância a vencer é longa. Descidas e subidas parecem não ser muito do agrado dos atletas portugueses, não só por se ter criado o “mito” das “boas” provas planas, como também pelo facto incontestado de que a energia necessária para se correr um troço acidentado teoricamente maior do que numa  corrida efectuada em terreno plano.

Enfim, a controversa posição de que uma prova, para ser “bem organizada”, deverá decorrer em percurso plano, estilo pista de Atletismo,  bastante discutível, até porque um dos aspectos mais motivadores das corridas em estrada  a fuga à monotonia, tão conhecida dos circuitos da pista, recorrendo-se a novas e atraentes variantes de esforço, isto e, fazendo de cada prova fora da pista algo de novo e único para todos.

Talvez que tudo  só conduza à impossibilidade de compararmos os tempos obtidos em diferentes competições, embora os organizadores nos garantam, muitas vezes, ter efectuado a medição do percurso com roda de geómetro, conforme estipulam os regulamentos.

Será que poderá haver comparação entre as Meias Maratonas de Lisboa, Setúbal  ou Nazaré? Como comparar os 16 quilómetros do “Philippe Martin” com os 14 do “Circulo de Leitores”?
Julgamos que não será necessário mencionarmos a prova de montanha “12 Km Manteigas – Penhas Douradas”, verdadeira competição de rampa (inicio a 600 m. de altitude e final a 1.500); no entanto, a verdade que a traçados da maioria das principais provas, apesar de poderem ser considerados planos, apresentam desníveis desiguais que tornam difícil e quase impossível uma comparação técnica de tempos e isto, qualquer que seja o atleta e nível de resultados obtidos.

Claro que correr lia subir” representa um esf’ormo maior do que fazê-lo sobre o plano. Para conservar uma mesma potência de esforço muscular, os gastos energéticos serão sem dúvida superiores, embora o “estilo de corrida” seja importante para a economia da passada. Se, ao subir, seria mais racional encurtar ligeiramente a passada, a descer, o corredor deverá alongá-la, o que irá permitir-lhe que, com a mesma energia, tire um maior rendimento do esforço despendido.

O Prof. François Péronnet, do Departamento de Educação Física da Universidade Técnica de Montreal, juntamente com uma equipa de especialistas canadianos, publicou recentemente um importante e volumoso trabalho sobre o equilíbrio energético nos esforços de Endurance, tendo, com a ajuda de computadores, elaborado um quadro sobre as implicações do esforço de corrida, quer nos terrenos planos ou nos de perfil acidentado.

Vejamos, portanto, o quadro anexo, no qual se encontram referenciadas diferenças de esforço até 2% de subidas ou de descidas. Para uma mais fácil compreensão, tomemos o exemplo de um atleta que corre a um ritmo de 3.30 por cada quilómetro. Assim, se procurarmos os 3.30 na coluna central (terreno plano), é fácil
seguirmos o raciocínio de que, a descer, num quilómetro com 0,5% de desnível, o seu tempo passará a ser de 3.25, e isto apesar do atleta continuar < desenvolver o mesmo esforço; se for de 1%, o tempo melhorará para 3.20; para uma descida com 1,5%, haverá uma melhoria para 3.15; se o desnível atingir os 2%, então, o ritmo será de 3.10. Assim se verifica que num quilómetro com 2% de inclinação, um atleta que mantenha um ritmo real de 3.30 passa a fazer o espectacular tempo de 3.10.

No caso do traçado ser a subir, os valores do nosso exemplo passam sucessivamente para; 3.34, com uma subida de 0,5%; 3.39, se tiver 1%; 3.44, para 1,5%; 3.49, para uma inclinação de 2% …

Julgamos que através deste exemplo é possível a cada um dos leitores-corredores avaliar as mudanças de ritmo que ocorrem.em competição de estrada, cada vez que há mudança de perfil. O estudo atento da tabela anexa vai possibilitar uma analise mais real dos tempos finais feitos nas diferentes provas e concluir, por via indirecta, que a comparação dos tempos das provas de estrada é bastante problemática.

Por último, as “grandes marcas” feitas em certas competições estão intimamente ligadas aos traçados dos percursos, razão porque nem sempre traduzem melhorias significativas da forma dos atletas .•

Lourdes Machado