Irrefutáveis Verdades

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Em Espanha existe um ditado: “el papel soporta todo”, o seu significado entende-se facilmente: podem escrever-se as maiores barbaridades sobre qualquer assunto, mas lá porque está escrito e impresso não significa obrigatoriamente que se trata de uma verdade. Ultimamente este ditado tenha-me vindo muito à memória, essencialmente de vido à moda que começou haver uns anos nos E.u.A.: correr descalço.

Esta moda conheceu um grande impulso com o lançamento do livro “Nascidos para Correr” (edição em português da (Cadernos) de Investigação), de Christopher McDougalL.

Como especialista em calçado, membro de organizações que promovem o seu estudo e o estudo do movimento humano, não pude deixar de ler o texto com interesse redobrado à espera de encontrar mais informações sobre um assunto que movimenta tantas paixões.

Com a leitura e verificação das fontes citadas, cheguei à conclusão que as supostas “verdades dolorosas” do texto, afinal não passam de especulações não fundamentadas.

Assim e acredito que os atletas merecem informações isentas e equilibradas, resolvi apresentar verdades fundamentadas sobre correr descalço ou com o chamado calçado “minimalista”, que batizei de as “verdades irrefutáveis” (porque à luz dos conhecimentos actuais), este texto não pretende provar que correr calçado é melhor que correr descalço ou com calçado minimalista, o objetivo é reunir informação para mostrar que os defensores da corrida descalça, com o objetivo de provarem os seus pontos de vista, fazem alegações que não são fundamentadas (em alguns casos fazem interpretações ou citações de estudos que podem induzir o leitor em erro).

Aqui fica a lista:

1 – Não existem diferenças significativas na ocorrência das lesões desportivas desde os anos 60 até aos nossos dias, além do mais simplesmente não se podem comparar dados da evolução das lesões desportivas.

Quem trabalha com dados científicos saberá o que quero dizer: as populações não são as mesmas, não têm a mesma preparação física, os mesmos hábitos alimentares e de treino. Por exemplo, nos anos 80, o tempo médio de uma maratona era próximo das 3,08 horas, actualmente está próximo das 4,20 horas, o que significa que pessoas menos preparadas estão a correr maratonas actualmente, comparando com os anos 80, mesmo assim, a incidência de lesões mantém-se estatisticamente igual, muito diferente do afirmado pelos defensores da corrida descalça.

2 – Inquérito não é igual a estudo. 

O inquérito feito no final de uma prova desportiva por Bernard Marti, que mostra que os corredores que se lesionaram no ano anterior utilizavam calçado mais caro, é uma constatação muito interessante. Simplesmente demonstra que, provavelmente, os corredores ao se lesionarem no ano anterior decidiram procurar melhor calçado e portanto mais caro, nada mais do que isso (5).

3 – O calçado “per si” não é a causa das lesões de esforço dos corredores.

 O que causa as lesões. Sabe-se que os sapatos poderão ser apenas uma parte na  equação que leva ao aparecimento das lesões, recordo aqui alguns dos factores que levam ao aparecimento das lesões:
Erros no programa de treino dou inexperiência:

  • Superfície de treino
  • Técnica de corrida
  • Desalinhamento estrutural
  • Limitações físicas
  • Alimentação e hidratação
  • Calçado

Não é correcto afirmar que o calçado é a causa das lesões, pelo simples facto das  pessoas se lesionarem com calçado, da mesma forma que não se pode afirmar que correr descalço ou com calçado minimalista evita lesão. São vários os factores que poderão conduzir ao desenvolvimento de uma lesão, o argumento não pode funcionar só num sentido (lá por não existirem provas absolutas que evita, não se pode afirmar que o calçado causa lesão).

4 – Não existem provas que o calçado evita lesão de esforço. 

Realmente, admito  não existem provas  que o calçado evita lesão. Mas isso não significa que o calçado não ajude a prevenir lesões. Apenas significa que não se sabe, ou melhor, dito: que não se tem a certeza. Sabe-se, através de diferentes estudos (como, por exemplo: 1,4), que o calçado influencia de forma positiva alguns dos parâmetros de comportamento mecânico que se supõe estarem na origem de diferentes lesões de esforço. No entanto, não podemos afirmar categoricamente que o calçado evita as lesões, simplesmente porque a ciência funciona através de factos e não de suposições.

5 – Correr descalço é diferente de correr calçado.

Apenas isso, não podemos extrapolar conclusões. Sabemos que muitas pessoas, ao
correrem descalças, tendem a correr mais lentamente e a aterrar no solo com o meio pé ou ante pé, nada mais, não sabemos se isso causa mais ou menos lesões! Todas as afirmações, sobre ser melhor ou pior para as lesões, são simplesmente interpretações truncadas de alguns estudos sobre o momento ou gesto de correr (não sobre as lesões).

Por exemplo, o Dr Lieberman especula no seu estudo, sem qualquer fundamento, que “se as forças de impacto durante a transição contribuir para o desenvolvimento de alguns tipos de lesões, então este estilo de corrida [atacando o solo com o meio pé], (calçado ou descalço) poderá trazer alguns benefícios, mas essa hipótese ainda não foi testada”(?)

6 – O Dr Lieberman colocou um aviso sobre as conclusões erróneas que estão a ser feitas sobre o seu trabalho na sua página pessoal.

O Dr Lieberman, que fez o estudo mais citado pelos corredores descalços como provando que correr descalço evita as lesões, sentiu-se obrigado a colocar na sua página pessoal da Internet a seguinte informação: “por favor, note que o nosso trabalho não apresenta nenhuns dados sobre de que forma as pessoas devem correr, se o calçado desportivo causa lesões ou se correr descalço causa outro tipo de lesões. Nós acreditamos que existe necessidade de estudos controlados sobre estas questões”.

7 – Os impactos não estão relacionados com as lesões de esforço.

Nenhum estudo feito até hoje relacionou nenhuma lesão de esforço com impactos.
Ao contrário da crença generalizada, não existem lesões de esforço ou repetição (a exemplo as fracturas de esforço, a fasceíte plantar, as “canelites·’, nome popular da periostite medial de tíbia ou lesões no joelho como a condromalácia patelar) relacionadas com os impactos. Sofrer impactos ao correr não provoca lesões de esforço, apenas e simplesmente ajuda a calcificar e fortalecer os ossos. Qualquer estudo que tenha provado que o amortecimento de impactos está sobre valorizado no calçado está absolutamente correcto.

8 – As palmilhas de prescrição não enfraquece  pelo contrário fortalecem os pés.

Não existe nenhum estudo que indique que as palmilhas de prescrição ou o calçado
enfraqueça os pés. não existe relação entre músculos do arco plantar fracos e pronação, alguns estudos mostram mesmo que os músculos dos pés intrínsecos fracos levam ao aparecimento de pé cavo (arco muito elevado), precisamente o contrário do afirmado pelos defensores da corrida descalça. Não existem estudos que mostrem enfraquecimento dos músculos dos pés com a utilização de palmilhas, alguns mostram que não existem diferenças significativas utilizando ou não palmilhas (2), outros mostram fortalecimento dos músculos dos pés resultante da utilização de palmilhas de prescrição (3).

9 – Não existe relação nenhuma entre a altura do arco plantar (medial) e o tónus muscular dos pés.

A resposta anterior mostra isso mesmo, provados por estudos (6), ao contrário do aceite como verdade. Adicionalmente, a morfologia do pé – pé plano, raso, chato, cavo, ou normal – nada tem  com a biomecânica  do mesmo (pronação, supinação ou neutro), trata-se apenas da sua descrição morfológica, não do seu comportamento em corrida.

10 – Correr descalço reduz o consumo de oxigénio.

Simplesmente porque o corredor descalço carrega menos peso, (até – 700 gramas ou mais, o peso de um par de sapatos), o que significa menos esforço e logo menos consumo de oxigénio. Não existem razões para acreditar que é mais rápido, antes pelo contrário, ao correr descalço a maioria dos corredores corre mais lentamente (até porque, convenhamos, se fosse mais rápido a maioria dos corredores de elite competiriam descalços).

Fonte: Paulo Silva ( Revista Atletismo)