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Raro é o atleta, seja ele de alta competição ou um simples corredor do pelotão, que não é atingido por uma lesão na sua actividade desportiva. Ter de parar mesmo que por poucos dias, nunca é agradável, Lesões desportivas.

Que fazer nessa situação! Como evitar as lesões? Vamos publicar um trabalho do doutor Augusto Gil Pascoal acerca das lesões desportivas. Dada a extensão do seu trabalho, iremos abordar nesta edição questões como surge a lesão, a sua prevenção e o período pós-lesão.

No próximo número, debruçar-nos-emos sobre o que fazer após a lesão, como determinar a sua gravidade, controlar a reacção inflamatória e o que não deve fazer para agravar a lesão.

Introdução

Na sociedade moderna, o desporto e a actividade física nas suas diferentes variantes, são tidos como benéficos para o indivíduo. Com frequência, os apelos à actividade são conotados com valores higienistas e de promoção da saúde, sugerindo que quanto mais desporto mais e melhor saúde.

Contudo e paradoxalmente, no verso de cada medalha encontram-se alterações patológicas mais ou menos profundas da morfologia e fisiologia do atleta, e o drama das lesões acompanha constantemente treinadores e praticantes, ensombrando a prática desportiva e provocando custos a diferentes níveis.

Os benefícios e os malefícios repartem-se assim a propósito da actividade física e do desporto, numa dualidade de efeitos -que delimita um equilíbrio tanto mais difícil de manter quanto mais elevado for o nível de prática. Estamos convencidos que a actividade física quando encarada com moderação, é importante para o indivíduo.

Os excessos não podem ser assumidos em nome da forma física nem encarados como o preço a pagar pela fama e pela glória. Devem antes ser evitados e enveredar-se por uma prática desportiva mais de qualidade do que de quantidade.

É neste contexto que entendemos a prevenção de lesões desportivaso

Julgamos que algumas situações traumáticas acontecem por precipitação de factores predisponentes (factores de risco”) que, uma vez identificados, poderiam ter evitado a ocorrência da lesão. Por outro lado, e quando a lesão acontece, a ânsia de regressar à actividade e o “heroismo” que genericamente caracteriza o desportista, empurra-o para novos excessos cujo preço se revela por situações crónicas que a prazo, produzirão perturbações na própria prática desportiva.

É nesse sentido que são sugeridas estratégias preventivas de dois níveis: (l) aquelas que procuram evitar o aparecimento da lesão; e (2) aquelas que depois de ter acontecido a lesão, procuram minimizar as suas consequências e promover a rápida e eficaz recuperação.

Lesões Desportivas

– Definição Genericamente, uma lesão identifica a perda de equilíbrio morfofuncional das estruturas orgânicas constituintes do organismo humano (células, tecidos e órgãos). Como se sabe, a solicitação funcional de uma qualquer estrutura orgânica desencadeia por parte desta, uma resposta adaptativa composta por um conjunto de processos fisiológicos que tendem a aumentar a resistência e a melhorarem o funcionamento da estrutura solicitada. É este o efeito procurado no treino quando são aplicadas cargas- solicitações funcionais – que por serem doseadas, produzem adaptações funcionais conhecidas e que se orientam para o aumento da resistência e melhoria do funcionamento das estruturas orgânicas directa ou indirectamente implicadas no movimento.

O aparecimento de adaptações funcionais só acontece quando as solicitações ocorrem dentro dos limites de resistência das estruturas orgânicas. Isto é, quando acontecem dentro do seu limite de tolerância. Sempre que o limite de tolerância da estrutura orgânica é ultrapassado, atinge-se o estado de lesão, sendo a solicitação funcional (“carga”) entendida como uma agressão e a resposta adaptativa orientada no sentido da preservação e defesa do organismo.

O aparecimento da lesão depende assim, do limite de tolerância das estruturas orgânicas mas depende igualmente do tipo, intensidade e frequência das solicitações funcionais realizadas. De salientar que o limite de tolerância é específico para cada estrutura e para cada organismo e representa a resistência máxima de uma estrutura orgânica a cada um dos tipos de estímulo ou solicitação funcional (mecânico, químico ou térmico). No contexto desportivo e do ponto de vista fisiológico, a lesão corresponde ao momento de ultrapassagem do limite de tolerância das estruturas implicadas no movimento, nomeadamente aquelas que integram o aparelho locomotor, devido a estímulos associados às diferentes componentes do exercício. Define-se assim, a lesão desportiva que pode ser ídentifícada pelas alterações celulares e teciduais que lhe estão associadas mas que se caracteriza sobretudo, pela dor e pela incapacidade funcional.

As lesões desportivas envolvem com frequência estruturas orgãnicas como a pele (escoriações, cortes e queimaduras de fricção); o osso (fracturas); o músculo esquelético (rupturas e tendinites); e as articulações (rupturas ligamentares, entorses e bursites). Com menos frequência, é possível encontrar lesões nos nervos e nos vasos sanguíneos.

Tipologia das Lesões Desportivas

As lesões desportivas podem ser classificadas tendo em conta diferentes critérios: estrutura lesionada, agente da lesão ou gravidade da lesão. Contudo e de um modo geral, podem considerar-se dois tipos de lesão, definidos em função do modo como é ultrapassado o limite de tolerância:

1) Lesões traumáticas (de carácter acidental), quando o limite de tolerância é ultrapassado de forma brusca.

2) Lesões de sobre utilização Cover-use”), quando o limite de tolerância é ultrapassado de forma progressiva. É um tipo de lesão particularmente associado à repetição e à falta de repouso das estruturas orgânicas. No limite, as lesões de “over-use” (sobrecarga) apresentam os mesmos contornos das lesões traumáticas.

Prevenção de Lesões Desportivas

Em nosso entender, as atitudes preventivas a tomar sobre as lesões desportivas, podem ser divididas em dois níveis: por um lado, aquelas que procuram evitar a ocorrência da lesão, particularmente as do tipo “over-use”; e por outro lado, aquelas que depois da lesão ter ocorrido procuram minimizar as suas consequências, contribuindo para a rápida recuperação do individuo lesionado.

As estratégias preventivas do primeiro nível são definidas depois de terem sido identificados factores de risco relativos à actividade desportíva, às capacidades morfo-funcionais do atleta e/ou ao modo como este realiza a actividade. De acordo com os factores de risco encontrados, assim as estratégias preventivas serão relativas ao individuo, no sentido de aumentar os limites de tolerância das estruturas orgânicas em risco, ou ao modo como o atleta realiza a actividade.

A identificação dos factores de risco é feita através da análise cinésiológica da actividade desportiva (componentes anatómicas e mecânicas) e da avaliação funcional do atleta (análise morfo-funcional do atleta em função do seu estado de desenvolvimento biológico e das necessidades requeridas pela actividade desportiva) .

Sem menosprezar o primeiro nível de prevenção, iremos contudo dar mais atenção ao segundo nível, uma vez que sabemos que tanto o atleta como o treinador só se lembram da lesão quando esta acontece. Por outro lado, a prevenção das complicações da lesão (segundo nível) está ao alcance de todos, tendo implicações bené- ficas no tratamento, que ocorre igualmente no período pós-lesão e que, pelo contrário, deverá ser promovido por técnicos de saúde especializados.

Período Pós-Lesão

Após a lesão, as estruturas orgânicas desenvolvem um conjunto de reacções que irão decorrer sequencialmente durante três principais etapas: fase aguda ou inflamatória; fase de reparação tecidual e fase de remodelação. Os limites de casa fase são poucos definidos de indiví- duo para individuo. Na fase aguda, a primeira reacção tecidual é desencadeada pelo sistema imunológico e reveste-se de características inespecíficas, estereotipadas e independentes do tipo de .aessão.

Trata-se da reacção inflamatória ou inflamação.  A fase seguinte – fase de reparação tecidual – tem início imediatamente após o período inflamatório (24-48 horas após a lesão). Caracteriza-se pelo desencadear dos processos locais ou sistémicos que estão na origem da reconstrução celular das estruturas lesionadas e assume contornos diferenciados de acordo com o tipo de tecido lesionado.

No caso do tecido conjuntivo (que forma os tendões e os ligamentos) a fase de regeneração caracteriza-se pela proliferação de fibroblastos (Células conjuntivas responsáveis pela produção de colagéneo e manutenção da matriz conjuntiva) e pela revascularização da região afectada.

Relativamente ao tecido muscular esquelético, o período de regeneração tecidual inicia-se cerca de 48 horas após a lesão por um momento de remoção das células necrosadas e dos resíduos metabólicos elaborados na fase inflamatória – fase de fagocitose

Segue-se o período de regeneração propriamente dito caracterizado, tal como a fase de regeneração do tecido conjuntivo, pela proliferação de fibroblastos (fibroplastia) e pela formação de depósitos de colagéneo. Dá-se então início à formação do tecido cicatricial, constituído essencialmente por colagéneo. A proliferação desordenada dos depósitos de colagénio tem implicações profundas nas futuras capacidades funcionais do músculo lesionado, uma vez que substituem o tecido contráctil por tecido não contráctil.

A fase de regeneração tecidual termina para o tecido muscular cerca de 6-10 dias após a lesão e para o tecido conjuntivo, ao fim de 15-30 dias. A fase de remodelação dá continuidade à fase de regeneração e procura integrar a estrutura reparada no contexto funcional para a qual será solicitada. Repare-se que o modo como decorre a fase inflamatória é determinante para a entrada das fases seguintes e para o desenrolar do período pós-lesão.

As possíveis complicações da fase aguda são assumidas pelos tecidos como uma nova agressão, dando início a novo período pós-lesão que não só dificulta o tratamento como tende a arrastar o tempo de recuperação. Daí a importância da prevenção das complicações da lesão, nomeadamente da sua fase aguda. As atitudes preventivas a tomar nestas fases dependem assim, do modo como decorre a própria inflamação.

Inflamação

A reacção inflamatória ou inflamação é uma reacção imunológica dos tecidos, de características inespecíficas e desencadeada sempre que qualquer tecido é agredido por estímulos mecânicos, térmicos ou químicos. É uma reacção tecidual que assinala a ultrapassagem do limite de tolerância das estruturas implicadas e desencadeia os factores locais e sistémicos que iniciam os processos de defesa e regeneração do tecido agredido.

Do ponto de vista clínico, a inflamação é identificada por quatro indicadores (sinais inflamatórios): dor, calor, rubor (“vermelhão”) e tumor (ederna, “inchaço”). Ao nível dos tecidos que compõem o aparelho locomotor, a reacção inflamatória manifesta-se ainda pelo espasmo muscular e por perturbações no movimento. A dor e os espasmos musculares desencadeiam um ciclo vicioso – ciclo de lesão – com origem nos mediadores inflamatórios e que tende a perpetuar o estado de agressão tecidual.