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Quem é que nunca sentiu no dia  seguinte de um treino mais intenso ou de uma maior distância percorrida, aquela dorzinha incómoda’ Tecnicamente, ela é chamada de Dor Muscular de Início tardio ou DOMS (da sigla em inglês Delayed Onset Muscle Soreness). Na prática, é a “dor do dia seguinte” – a perceção de músculos trabalhados, às vezes apenas ligeiramente doloridos, outras com intensidade bem maior.

Ela é causada pelo esforço físico imprudente ou acima do habitual e é ainda, erradamente, associada à’ concentração de ácido Láctico no músculo. “Esse é um conceito antigo, que persiste em função da falta de conhecimentos científicos mais actualizados por parte de alguns profissionais”, afirma o brasileiro Iuríbio Leite, especialista em medicina desportiva. A associação do ácido láctico à dor muscular não é necessariamente errada, uma vez que o acumular dele no músculo, de facto resulta num quadro doloroso. “Mas trata-se de uma dor aguda, que aparece durante e imediatamente após o exercício.

Ocorre por falta de fluxo sanguíneo nos músculos activos (isquémia) e, em razão disso, os produtos da actividade metabólica (ácido láctico e potássio) não podem ser removidos. Em excesso, eles estimulam os receptores dolorosos localizados nos músculos.

A dor persiste até que a intensidade da contracção para restabelecer o fluxo seja reduzido ou cesse”, explica o professor Marcos Caetano. Estudos recentes sobre a DOMS comprovam inclusive, que o ácido láctico é eliminado do organismo em duas ou três horas após o final da actividade física. A dor tardia, por sua vez, está associada a micro traumas musculares. “O esforço provoca lesões nalgumas células musculares (fibras), que por sua vez sofrem rupturas e derramam enzimas (creatinoquinase ou CK) na corrente sanguínea, levando a uma resposta inflamatória, causadora de edemas e dores”, diz Turíbío Leite. “Ela ocorre entre 24 a 48 horas após o final da sessões dos exercí- cios. E dependendo do tamanho da lesão, o músculo pode demorar entre uma a quatro semanas para cicatrizar completamente”, reforça Marcos Caetano.

Dor benéfica? 

Para ‘Iuríbio Leite, a dor do dia seguinte tem o seu aspecto positivo – desde é claro, que seja um quadro moderado de dor. A explicação: no processo de regeneração das micro lesões, o músculo vai-se remodelando como forma a se adaptar ao exercício, o que resulta em fortalecimento. Já Marcos Caetano é cauteloso ao referir-se aos benefícios que esse incómodo do dia seguinte pode trazer ao atleta, em termos de rendimento. “A força muscular diminui durante o processo doloroso e o atleta poderá ter que interromper os treinos diante dessa situação”. As causas desses pequeníssimos traumas estão ligadas a factores mecânicos e químicos.

Os mecânicos dizem respeito ao esforço vigoroso: ou seja, o atleta sobrecarregou o músculo com intensidade ou força, ele sofreu as micro lesões e reagiu com dor. “Um programa de treino físico de progressão lenta, para que.os músculos exercitados se adaptem ao stress do exercício, é o mais indicado”, diz Marcos Caetano. Já os químicos estão relacionados com os radicais livres – moléculas instáveis ou fragmentos de moléculas sem um par de electrões nas suas órbitas exteriores. “A actividade física prolongada liberta radicais livres que destroem as membranas celulares, causam danos e prejudicam o remodelamento muscular.

Aliás, se pudéssemos neutralizá- los, encurtaríamos o período de dor do dia seguinte”, afirma Turíbio. O stress químico não pode ser totalmente anulado mas tem ós seus efeitos minimizados por meio de antioxidantes, substâncias presentes em vitaminas, minerais e aminoácidos, que agem como uma espécie de escudo pro tector. No entanto, de acordo com muitos especialistas, só a dieta – por mais equilibrada que seja – não daria conta da necessidade adequada, especialmente no caso de praticantes de actividade física regular e intensa. “As pessoas deveriam comer diariamente entre quatro a cinco porções – nalguns casos até nove – de frutas, verduras e legumes. E uma porção não quer dizer uma folha de alface mas um prato de sobremesa”, diz Andréa Ramalho, doutora em saúde pública. Além do mais, há uma grande perda nutricional devido à industrialização dos alimentos. “Existem evidências de que o suplemento vitamínico seria capaz de atenuar os sintomas da DOMS, permitindo um retomo mais rápido à prática desponiva.

Mas é bom dizer que o suplemento não substitui a alimenta- ção e ele deve ser recomendado por um profissional da área da saúde”, aconselha Iuríbio leite. o entanto, para Marcos Caetano, ainda faltam provas, comprovações científicas sobre o uso de vitaminas para prevenir a dor

o treino do dia seguinte 

É preciso repouso, reposição nutricional e hídrica para deixar o músculo íntegro novamente”, ensina Iuríbio Leite. Portanto, o dia após o exercício deve ser de regeneração. O professor reforça: “O descanso e a alimentação adequada após a actividade são fundamentais. Um trabalho regenerativo, com actividades leves, como uma caminhada ou até um pequeno trote, desde que a dor não seja um factor limitativo, também contribupara o processo de reparação das fibras (dependendo do grau da lesão), pois aumentam a irrigação sanguínea no músculo afectado”. Sentir uma “dor gostosa” – não, isso não é coisa de masoquista – após ó exercício é sinal de que o seu corpo está reagindo e procurando melhorar a sua perfomance. Mas diante de um quadro de dor mais fone ou prolongada, é recomendável reduzir a intensidade dos treinos para evitar uma lesão mais grave e procurar um especialista. Afinal, o que o atleta quer é continuar exercitando-se, não’.

 

Artigo publicado na revista “Contra Relógio· de Dezembro 2007