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A origem do Dia Internacional da Mulher remonta ao início do século XX. Nessa época muitas mulheres passaram a incorporar a mão-de-obra industrial. As más condições de trabalho eram avasaladoras, e a diferença salarial entre homens e mulheres era gigante.

No desporto encontramos desigualdades ainda mais notórias, a verdade é que as mulheres lutaram muito ( e continuam a lutar em alguns países ) para alcançar direitos no mundo desportivo!

Ao longo da história, as mulheres usufruiram de uma limitada participação desportiva.

Já na Antiguidade Clássica, a participação da mulher nos festivais era regulamentada, existindo a proibição formal de participação nos Jogos Olímpicos quer como atleta, quer como espectadora. Aquela que desrespeitasse esta regra era severamente punida, sendo que essa punição corresponderia à pena de morte.

Alguns séculos mais tarde, durante a Idade Média, a exclusão das mulheres das práticas físicas não só se manteve, como inclusivamente acabou por se revestir de novas formas. Nessa longínqua época da nossa história, já era permitida a presença das mulheres como espectadoras às actividades desportivas medievais mas as competições apenas eram permitidas aos homens.

O evoluir conjuntural dos tempos e a passagem para o “século das Luzes” não veio alterar o papel da mulher no desporto, antes pelo contrário, às mulheres que ousassem praticar jogos que fossem para além dos tradicionais praticados na corte palaciana, seriam consideradas de má índole.

Já no séc. XX, nas sociedades ocidentais, temos assistido a um evoluir de uma crescente aceitação e participação das mulheres no desporto. Cremos que a razão para esta mudança se encontra no esbatimento de muitos mitos que, ao longo dos tempos, contribuíram para manter as mulheres afastadas das práticas desportivas.
As ideias de que o desporto masculinizava as mulheres, ou que a prática desportiva era perigosa para a saúde, foram ideias que caíram em desuso e que hoje (esperamos nós) estão perfeitamente ultrapassadas.

No Dia Internacional da Mulher queremos homenagear mulheres notáveis que contribuíram para o desenvolvimento do atletismo!

Em 1919 dá-se o Início da “guerra” no atletismo

Alice Milliat, presidente da Federação Francesa de Desporto Feminino (FFDF), pediu ao presidente do Comité Olímpico Internacional para incluir provas femininas de Atletismo nos Jogos de Antuérpia (1920), mas o Barão de Coubertin opôs-se violentamente à presença de mulheres nos Jogos. À época, estavam filiadas na FFDF mais de 15.000 associadas e 80 clubes. A perseverança de Alice Milliat foi um exemplo, infelizmente pouco conhecido, na luta pela igualdade das mulheres no desporto.

A recusa do Comité Olímpico Internacional e da Federação Internacional de Atletismo em incluir provas de atletismo no programa dos Jogos, leva Alice Milliat a organizar, em Abril de 1921, os 1ºs Jogos Femininos com a participação de atletas de 5 países. Sob o impulso de Alice Milliat é criada, em Paris, a 31 de Outubro, a Federação Internacional Desportiva Feminina (FIDF) que irá dirigir o atletismo feminino mundial até 1936.

1922 – 1ºs Jogos Mundiais Femininos (ditos olímpicos) – PARIS (França)
A 20 de Agosto, num evento de um único dia, realizaram-se em Paris, no estádio Pershing, os 1ºs Jogos (ditos) Olímpicos Femininos. As 80 atletas de 5 países competiram num programa de Atletismo com 11 provas. São batidos 18 recordes do mundo perante uma assistência de mais de 20.000 pessoas. O êxito desta edição obriga a Federação Internacional de Atletismo (FIAA) a negociar com Alice Milliat a inclusão de um programa completo de provas de Atletismo na edição dos Jogos em 1928 com a contrapartida de abandonar a designação Olímpicos dos Jogos Femininos. Alice Milliat cumpriu a sua parte – os próximos Jogos seriam denominados Jogos Mundiais. A FIAA e o COI não cumpriram a sua parte – os Jogos de Amesterdão irão incluir apenas 5 provas de atletismo.

1928 Jogos da IX Olimpíada – AMESTERDÃO (Holanda)

As mulheres foram autorizadas a competir em Atletismo e Ginástica e os Jogos sofreram um “boicote” pela primeira vez. As atletas britânicas recusaram participar nas provas de Atletismo por considerarem que um programa tão reduzido constituía uma afronta para as mulheres.
A prova de 100 metros foi a primeira do atletismo feminino e a campeã foi a norte-americana Betty Robinson que também conquista a medalha de prata na estafeta 4 x 100m. Três anos após o triunfo olímpico, Betty sofreu um grave acidente de avião e foi dada como morta. Recuperou lentamente após um coma de sete semanas mas ficou impossibilitada de andar normalmente durante dois anos. O desejo de voltar a competir foi mais forte mas estava impossibilitada de fletir a perna, o que a impedia de tomar a posição agachada na linha de partida. Mas competiu e, em 1936 (Berlim), de regresso ao estádio olímpico,

Betty Robinson, integrou a equipa americana dos 4 x 100m e conquistou nova medalha de ouro.
A prova dos 800m deu origem a uma grande polémica na imprensa. A 1ª campeã olímpica dos 800m foi a alemã Lina Radke que fixou um novo recorde do mundo. Naturalmente, a vencedora e as outras 9 concorrentes estavam cansadas e algumas delas deitaram-se ao lado da pista. Mas nenhuma delas, como na altura foi noticiado, desfaleceu ou desistiu por exaustão. Contudo, os membros do COI aproveitaram os “relatos” da imprensa para suspenderem de imediato a prova, e durante 32 anos as mulheres foram impedidas de participar em provas com distância superior a 200m. O fundamento desta decisão é bem mais “interessante” quando comparado com os relatos da imprensa aquando da prova masculina dos 800m, nos Jogos de 1904, em St Louis (USA): “numa tarde de 5ª feira, na final dos 800m, dois homens caíram na pista, completamente exaustos. Um deles foi levado em braços e o outro, desmaiado na relva, só se reanimou com um estimulante”. Os desfalecimentos foram permitidos aos homens mas não às mulheres. Não foi necessário proibir os homens de correr distâncias superiores a 200m. A prova feminina dos 800m só foi reintroduzida 32 anos depois nos JO de Roma (1960).

1948 Jogos da XIV Olimpíada – LONDRES (Reino Unido)

Francina “Fanny” Blankers-Koan foi uma extraordinária atleta que iniciou o seu percurso olímpico no Salto em Altura, nos Jogos de Berlim em 1936. Nos Jogos de Londres, já com 30 anos e mãe de 2 crianças, conquistou 4 medalhas de ouro nos 100m, 200m, 80m Barreiras e nos 4 x 100m, em Atletismo. Nessa altura, Fanny poderia ter conquistado mais medalhas porque era recordista do Salto em Altura e do Salto em Comprimento mas as mulheres estavam proibidas de participar em mais de 3 provas individuais. Entre 1946 e 1950, obteve 5 medalhas de ouro e 1 de prata nos Campeonatos da Europa de Atletismo e estabeleceu 16 recordes do Mundo em 8 provas diferentes: 100 yards, 100m, 200m, Barreiras Altas, Salto em Altura, Salto em Comprimento, Pentatlo e nos 4 x 100m. O seu percurso ímpar foi um modelo para muitas atletas e ajudou a derrubar a ideia de que o desporto de competição não era “próprio” para as mulheres casadas e mães.

Maratona de Boston (EUA) – 1967

Todas as mulheres maratonistas devem uma pequena parte da sua liberdade à Kathrine Switzer, a primeira mulher a participar da Maratona de Boston (EUA), em 1967. Na época, apenas os homens podiam integrar provas de rua.
Kathrine Switzer Inscreveu-se com as suas iniciais KV Switzer e passou a linha de partida com o dorsal 261 no meio de um grupo de amigos, como se fosse simplesmente mais um corredor. Mas Kathrine passou à história quando um dos juízes, a meio da prova, se deu conta do que estava a acontecer e correu atrás dela para a deter, mas o resto dos corredores impediram-no e escoltaram Kathrine para que ela pudesse terminar a corrida, o que conseguiu, com o tempo de 4 horas e 20 minutos. Este é um dos momentos inesquecíveis da história do atletismo!

Campeonatos da Europa de Atletismo em Atenas ( 1982 )

Somente em 1972 as mulheres puderam fazer parte da maratona, e a primeira prova oficial de maratona feminina foi nos Campeonatos da Europa de Atletismo em Atenas ( 1982 ) prova ganha pela atleta portuguesa Rosa Mota.

Jogos da XXIII Olimpíada – LOS ANGELES (Estados Unidos da América)

Até aos Jogos de Los Angeles, as mulheres só tinham sido autorizadas a correr distâncias inferiores a 1.500m.
A maratona feminina foi introduzida nos Jogos de Los Angeles em 1984, 88 anos depois dos homens! Mais de meio século depois de os médicos terem afirmado que as mulheres que corriam os 800m “envelheciam mais depressa”, a atleta dos Estados Unidos, Jean Benoit, sagrou-se a 1ª campeã olímpica da Maratona vencendo a célebre atleta norueguesa Greta Waitz (medalha de prata), conhecida como a pioneira da Maratona. A atleta portuguesa Rosa Mota ganhou a medalha de bronze e, quatro anos depois em Seul, alcançou a medalha de ouro. Rosa Mota foi uma das primeiras mulheres a contribuir para a história do Atletismo feminino.

A marroquina Nawal El Moutawakel venceu a final dos 400m Barreiras, prova também incluída pela primeira vez nos jogos olímpicos de Los Angeles (84 anos depois dos homens), e foi a 1ª atleta de um país muçulmano, e a 1ª atleta do seu país, homem ou mulher, a conquistar uma medalha de ouro.

Neste dia Internacional Da Mulher homenageamos algumas atletas portuguesas que contribuíram para a história do atletismo nacional

Rosa Mota

Não há grandes dúvidas em considerar Rosa Mota a grande referência do atletismo feminino português. Para além da medalha de ouro na maratona dos jogos olímpicos de Seoul em 1988 e da de bronze nos jogos anteriores em Los Angeles, a sua carreira, de 1982 a 1992, não tem precedentes na história do desporto. Das 21 maratonas disputadas nestes 10 anos, Rosa Mota esteve no pódio por 18 vezes e ganhou 14! Mesmo que a sua carreira tivesse acabado logo após a primeira prova, Rosa teria garantido um lugar na história do atletismo. A sua primeira prova foi também a primeira maratona feminina que existiu, no decorrer do Campeonato Europeu de Atletismo em 1982. Embora não fizesse parte do lote das favoritas, Rosa ganhou! Por fim, o recorde nacional feminino da maratona ainda lhe pertence, alcançado na maratona de Chicago em 1985.

 Manuela Machado

Manuela Machado participou 13 vezes na Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-mato, onde se sagrou, precisamente as 13 vezes, campeã da Europa por equipas. Participou também 13 vezes na Taça dos Clubes Campeões Europeus de Estrada, onde, mais uma vez, foi campeã da Europa, sendo que 4 delas foi campeã individual de 15 km. Em 1998 foi eleita a melhor atleta ibero-americana, tendo recebido a taça no palácio de Espanha dada pelo rei Juan Carlos. Manuela Machado foi diversas vezes condecorada pelo governo português com a medalha da ordem do Infante.

Fernanda Ribeiro

Desde muito cedo começou a dar nas vistas no atletismo. Em 1980 (com 11 anos) foi segunda classificada na meia maratona da Nazaré, tendo ficado a quatro segundos da primeira classificada: Rosa Mota. Em 1994 torna-se campeã da europa dos 10 mil metros e no ano seguinte é campeã do mundo na mesma distância. Em 1996 protagonizou uma das mais emocionantes finais Olímpicas de todos os tempos nos 10 mil metros, em Atlanta. Ao entrar na última volta tinha 20 metros de atraso em relação à chinesa Wang Junxia, mas na recta final conseguiu ultrapassar a adversária. Portugal conquistava a sua única medalha de ouro em Atlanta e Fernanda alcançava a hegemonia na distância, ao tornar-se simultaneamente Campeã Europeia, Mundial e Olímpica. Ainda é a detentora dos recordes nacionais dos 5000m e 10000m.

 

Aurora Cunha

Começou a carreira aos 15 anos e, pelo seu clube do coração o FCP, destacou-se em todo o tipo de provas de corta-mato, meio-fundo e fundo. Foi campeã mundial de estrada em três anos consecutivos — 1984, 1985 e 1986 — e venceu as maratonas de Paris (1988), Tóquio (1988), Chicago (1990), Roterdão (1992) e representou Portugal em três Jogos Olímpicos – Los Angeles 84, Seoul 88 e Barcelona 92.

Carla Sacramento

Esta atleta nascida em 1971 em Lisboa, mas com raízes em São Tomé, dominou durante alguns anos o meio-fundo nacional e internacional. Conquistou várias medalhas em grandes competições internacionais, tendo o ponto alto da carreira ocorrido em 1997 quando se sagrou campeã do mundo nos 1500m. Superou por mais de duas dezenas de vezes os recordes nacionais e apesar de já não competir, os seus máximos nacionais dos 800, 1500 e 3000 metros ainda perduram.

Bibliografia: http://www.mulheresdesporto.org.pt
Catarina Pardal, Doula e Atleta