O coração do Atleta

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coração de atleta

A partir da década de 70, observou-se em praticamente todos os países ocidentais um crescente interesse de profissionais e do público em geral sobre a actividade física e a saúde. Em particular, a corrida teve o seu interesse despertado a partir dos livros do doutor Kenneth Coopero.

Para Cooper, correr era sinónimo de ter saúde e a corrida passou a ser intensamente divulgada e estimulada como prática desportiva e recomendada como hábito saudável. O incentivo foi tão intenso que a corrida passou a ser conhecida como cooper e esse foi o primeiro passo para que muitos  interessassem por uma disciplina-desportiva.

A actividade física praticada de forma regular, intensa e prolongada leva a adaptações cardiovasculares que permitem ao coração do atleta ter um desempenho excepcional. Porém, tais adaptações consideradas funcionais também podem ultrapassar os limites da normalidade. O segredo da obtenção da melhor performance sem levar ao comprometimento cardiovascular está no controle inicial, na programação e na orientação adequadas da actividade desportiva e nas avaliações periódicas, bem como no bom censo do profissional que supervisiona o atleta.

Modificações fisiológicas normais

Os atletas costumam apresentar algumas alterações cardiológicas consideradas fisiológicas e que são decorrentes do treino físico vigoroso (de alta intensidade e praticado com regularidade). O termo “coração de atleta” é utilizado para descrever as variações do normal no exame físico e nos exames diagnósticos de indivíduos que participam em competições desportivas.

O treino aeróbico de moderada intensidade (de até 70% da FC máxirnal.. mesmo quando prolongado, não é suficiente para promover tais alterações, como, por exemplo, a cardiomegalia (aumento do tamanho do coração), pois são utilizadas as reservas funcionais. Porém, no treino aeróbico intenso (FC mantida superior a 85% da máxima), pode-se observar algumas alterações  quando comparado ao indivíduo sedentário:

• Frequência cardíaca menor em repouso (característica mais conhecida e presente no atleta bem treinado), menor elevação em qualquer nível de exercício e retorno mais rápido ao valor basal após o término;

• maior consumo máximo de oxigénio;

• volume cardíaco maior;

• dilatação e hipertrofia cardíaca (associada à maior performance ventricular);

• débito cardíaco e volume sistólico mais elevados;

• maior extracção de oxigénio arterial pelos músculos, por causa da maior capilarização devido ao exercício, promovendo uma diferença maior entre a saturação de oxigénio arterial em relação ao venoso;

• alterações do ritmo e da condução do estímulo cardíaco. Essas alterações encontradas e promovidas pelas adaptações fisiológicas ao exercício e consideradas “normais” também são observadas nos exames diagnósticos, como eletrocardiogra raio X de tórax, ecocardiograma e teste cardiopulmonar.

Supertreino

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O enorme estímulo para a prática de exercícios físicos vem resultando num aumento crescente pela população em geral, que busca melhor qualidade de vida e manutenção da saúde. Essa actividade física influencia favoravelmente o perfil lipoproteico plasmático, a adiposidade, a pressão arterial, a tolerância à glicose e a capacidade funcional cardiopulmonar. Porém, esse benefício pode transformar-se em risco ao efectuar-se um exercício extenuante não habitual, no lazer ou numa competição de elevada procura energética (maratona), provocando diversos tipos de comprometimento cardiovascular, até mesmo um evento agudo fatal.

O supertreino (overtraining) é decorrente de exagerada preparação física e tem como consequência uma queda do desempenho desportivo. Apresenta como sintomas e sinais característicos insónia, fadiga não usual em exercícios habituais, irritabilidade incomum, FC elevada no sono e em repouso, demora do retorno da FC após o exercício, arritmias cardíacas potencialmente danosas, rápido aumento da área cardíaca, distúrbios do ritmo e da condução do estímulo cardíaco sem doença cardiológica conhecida, causando síncopes e até morte súbita (por inibição vagal, distúrbios dos íons, alterações metabólicas e elevação na concentração sanguínea de catecolaminas para um mesmo nível de exercício). Existe ainda a fadiga periférica, que é considerada uma fase pré-supertreino.

Os seus sintomas, relacionados à queda do rendimento, são decorrentes da fadiga músculo-esquelética. Por esse motivo, o repouso é considerado um componente essencial e importantíssimo do treino.

Devemos sempre respeitar a individualidade ao programar o treino do atleta. A grande dificuldade está em definir  qual o limite seguro para um atleta praticar exercício físico mantendo seu coração sadio. Atletas de todos os níveis de desempenho arriscam-se a desenvolver a síndrome do supertreino, porém esta situação ocorre com maior frequência em:

• atletas altamente motivados;

• atletas de elite;

• atletas que treinam sozinhos, sem a orientação de um profissional experiente;

• atletas sob orientação atlética não qualificada;

• atletas que retornam precocemente ao treino, antes da completa recuperação.

Efeitos cardiológicos do abuso de esteroides

Utilizados para ganhos de massa e de potência muscular, os esteroides podem promover sérios danos cardiológicos, desde lesões do tipo necrose e fibroses focais, arritmias complexas e graves, até arterosclerose acelerada com enfarte do miocárdio.

Arritmias cardíacas e supertreino

As arritmias cardíacas mais observadas em decorrência de supertreino são:

• fibrilação ou flutter atrial;

• extra-sístoles ventriculares polimórfica e complexa (pareada, salva, bigeminada);

• taquicardia paroxística supraventricular;

• taquicardia ventricular não sustentada.

Os atletas estão sujeitos a desenvolver ,as mesmas arritmias do que a população em geral. A bradicardia do atleta poderá torná-lo mais susceptível à síncope neurogénica e à fibrilação atrial, assim como outras taquiarritmias podem ser precipitadas pelo exercício físico. Vale citar, como comentário final, a importância da actividade desportiva orientada e supervisionada e do período de descanso, bem como a avaliação clínica obrigatória periódica do atleta, na tentativa de prevenção de lesões cardiológicas irreversíveis.

Teste e importância do acompanhamento cardiovascular e pulmonar do atleta

Na prática, a grande utilidade do teste ergoespirométrico ou cardiopulmonar reside na determinação da capacidade funcional ou da capacidade aeróbica, pela obtenção dos dois índices  de limitação funcional mais empregados, que são o consumo máximo de oxigénio e o limiar anaeróbico ventilatório; portanto, ele pode e deve ser utilizado para a avaliação de atletas. Para a actividade física, para principiantes ou indivíduos  com actividade regular, é o teste que discrimina a intensidade de exercício aeróbico a ser prescrita, considerando,obviamente, as informações do teste de esforço tradicional implícitas no procedimento associadas às informações sobre o mecanismo de transporte de gases envolvidos. Na avaliação fisiológica de atletas das mais variadas modalidades, esse é o teste que se impõe pela quantidade de informações e também pela facilidade de execução. Ele é utilizado para o diagnóstico das necessidades energéticas específicasnas diferentes modalidades, para o diagnóstico das capacidades funcionais individuais, no treino específico de cada modalidade desportiva, como, por exemplo, no futebol, para diferenciar o treino para grupos de funções tácticas distintas, e, ainda, na avaliação e na evolução dos índices de aptidão física com a reavaliação periódica, para constatação individual da melhoria do desempenho com o treino adequado.

Ajustes cardiovasculares ao exercício

Os ajustes cardiovasculares ocorrem para que possa haver aumento de fluxo sanguíneo para os territórios musculares em actividade, em função de aumento da procura metabólica local, com consequente aumento do consumo de oxigénio. Por exemplo, a diferença arteriovenosa de oxigénio aumenta durante a actividade física por causa da extracção acentuada de oxigénio do sangue arterial. Enquanto indivíduos não treinados conseguem extrair em torno de 15 mililitros de oxigénio por 100 mililitros de sangue, indivíduos treinados podem conseguir aumentos de até 20% nessa taxa, o que demonstra o efeito periférico benéfico do treino.A caracterização de índices que consigam mensurar a aptidão física, como o consumo máximo de oxigênio (V02 máx) e o limiar anaeróbico (LA), trouxe muitos benefícios na programação adequada do treinamento.

Principais variáveis fisiológicas obtidas pelo teste cardiopulmonar

Consumo máximo de oxigénio

O consumo máximo de oxigénio pode ser definido como o maior volume de oxigénio por unidade de tempo que um indivíduo consegue captar respirando ar atmosférico durante o exercício, sendo alcançado quando se atingem níveis máximos de débito cardíaco e de extracção periférica de oxigénio e não se conseguindo ultrapassá-los com maior carga de trabalho muscular. Nenhum outro parâmetro é tão preciso ou reproduzível quanto o V02 máx. A sua utilização, portanto, como índice de aptidão física é de grande valia na avaliação funcional de atletas.

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Limiar anaeróbico

Outro índice que reflete satisfatoriamente a aptidão física e que pode ser empregue tanto na prática clínica quanto na avaliação e no treino de atletas é o limiar anaeróbico. Há mais de 60 anos, foi estabelecido o conceito de que, acima de uma determinada intensidade de exercício, haveria acréscimo de ácido láctico no sangue, acompanhado de aumento da excreção de gás carbónico e da ventilação. O exercício físico é acompanhado de aumentos proporcionais de consumo de oxigénio e da eliminação de gás carbónico até determinada intensidade. Wasserman e Mcllroy sugeriram o termo limiar anaeróbico, caracterizando-o, num exercício de cargas crescentes, como um nível de intensidade a partir do qual a ventilação e a produção de gás carbónico aumentam desproporcional mente, elevando o quociente de trocas gasosas expresso pela razão entre o gás carbónico produzido e o consumo de oxigênio. Essas alterações decorrem da desproporção entre aporte e demanda mitocondrial de oxigénio, aumentando a relação piruvato/lactato e levando, como consequência, ao início da acidose metabólica do exercício. Sintetizando, as reações químicas que ocorrem nesse processo podem ser descritas da seguinte forma: a produção aumentada de ácido láctico nas células musculares em actividade alcança a corrente sanguínea, onde, vedada pelo sistema do bicarbonato, forma lactato de sódio e ácido carbónico; esse último, por ser altamente volátil, dissocia-se em gás carbónico e água.

O início da acidose metabólica e o excesso de gás carbónico seriam responsáveis pelo estímulo dos centros respiratórios que desencadeariam o aumento desproporcional da ventilação, que, por sua vez, em conjunto com níveis elevados de ‘gás carbónico, provocaria a elevação do quociente respiratório (R). Em resumo, o limiar anaeróbico – que, quando caracterizado exclusivamente em função das trocas respiratórias, recebe a denominação de limiar ventilatório – pode ser definido como a intensidade de esforço ou o consumo de oxigénio, acima da qual a produção de ácido láctico supera a própria remoção, provocando hiperventilação. Indivíduos não treinados apresentam, em geral, limiar anaeróbico em torno de 50% a 70% do consumo máximo de oxigénio. Atletas treinados utilizam maior fracção do V02 máx, podendo elevar o limiar anaeróbico até cerca de 85% do V02 máx. O limiar anaeróbico tem sido largamente utilizado na prática, tanto no diagnóstico de aptidão física quanto, e principalmente, na prescrição de treino, para indivíduos sedentários e para atletas das mais diferentes modalidades. Em termos de aplicação prática, a expressão do limiar anaeróbico em velocidade de corrida quando o teste é realizado na esteira (e em carga na bicicleta) tem sido extremamente útil. A evolução do limiar anaeróbico tem-se mostrado um indicador bastante útil para aferir o progresso do treino. O  limiar anaeróbio tem sido melhor predictor de desempenho do que o V02 máx para exercícios de longa duração. A ergoespirometria é, portanto, um método que cada vez mais acrescenta qualidade ao diagnóstico da aptidão física e à monitorização do treino de atletas, permitindo, inclusive, que se introduza o conceito básico do treino científico, que é o respeito à individualidade biológica do atleta.

Texto: Drª Paola Smonio