O TREINO PREJUDICA O CORREDOR?

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Muitos corredores, os seus treinos cotidianos ou em dias de competição, já ouviram termos populares como “quebrou” e “virou o fio” ou científicos como “supertreino” ou “sobretreino”. Tais termos referem-se àqueles corredores que, em determinado momento da sua preparação ou de uma competição, pecaram pelo excesso. Excesso de rodagens, de intervalados, de longos ou de ritmos intensos demais para as condições atléticas do momento. Todo este exagero pode ser observado facilmente quando o corredor não consegue completar uma sessão de treino ou mesmo quando não segura o ritmo em uma competição, não importam o tipo ou a distância percorrida.

O aparato dentífico-tecnológico atual muito contribui para a otimização do processo de preparação desportiva. Por meio de testes específicos, pode-se alcançar uma margem bem segura em relação a intensidade, duração, frequência e repetição das cargas de treino, em qualquer nível de condição física. Assim, é possível organizar um programa de rendimento atlético bem elaborado nos seus propósitos.

No processo de preparação, portanto, pretende-se obter os efeitos desejáveis das cargas de treino com o intuito de provocar ajustes anatómicos, fisiológicos e psicológicos, gerais e específicos, que possam garantir ao corredor um organismo adaptado às diversas exigências de esforço.

Entretanto, em algumas situações, a coisa volta-se contra o próprio corredor, mesmo com todo o conhecimento e a tecnologia disponíveis. Por que ocorre isso? Por mais objectivo e científico que seja o treino, muitas vezes não se considera que entre atleta e treinador a relação deve inspirar confiança e convicção. Ou seja, nem tudo no treino é uma exactidão inviolável, pois o aspeto humano faz-se presente com suas crenças; valores e motivações pessoais que transcendem o científico e o tecnológico.

As ambições existem em ambas as partes. Corredores e treinadores desejam, com mais ou menos ímpeto, a vitória, o recorde pessoal, a participação imaculada. Muito comuns são os casos em que o treinador idealiza um percurso, digamos de 30 km a 75% do ritmo competitivo, porém, o corredor não consegue assimilar de modo proveitoso a duração e intensidade desta carga. Ou seja, ele pode ir muito bem até 25 km no ritmo proposto, o que lhe dará os benefício.
desejados.

Todavia, os 5 km excedente contribuirão apenas para aumentar o desgaste fisico e psicológico e provocar um decréscimo no rendimento.

ACHAR O PONTO CERTO
Também é muito comum que, em uma sessão de 8 x 1.000 m a 90% do ritmo de competição, com pausa de 2 minutos, o corredor assimile 5 ou 6, com as demais excedendo o ritmo suportável. Pode ser que, com uma pausa de 3 minutos, ele conseguisse concluir as 8 e aproveitá-las na sua totalidade. Esse limite suportável, portanto, constitui o ponto ideal entre os benefícios do treino e os desgastes excessivos provocados pelo mesmo.

Outra situação tipica do cotidiano dos corredores é quando eles, por si mesmos, cometem os excessos. Quando o treinador conhece bem o seu orientado, as cargas de treino são dispostas de tal modo que o seu efeito seja alcançado com sucesso. Entretanto, para um corredor mais ambicioso, o controlo rigoroso do treinador pode ser rompido até mesmo por um excesso de confiança ou disputa com outros corredores. Vejamos o caso de um corredor que tenha como meta estabelecida pelo treinador realizar 10 x400 m a 1.15 cada repetição.

Na ânsia de alcançar rapidamente a Forma atlética ideal, o corredor
julga ser melhor cobrir a distância em 1.12. Ou, ao invés disso, acredita fazer 15 x 400 a 1.15 como algo mais proveitoso. Em treinos coletivos, isso pode ser muito comum, com os corredores tentando superar uns aos outros, competindo entre si.

Corredores assim são conhecidos, geralmente, pela alcunha de “leões de treino”, pois empreendem disputas acirradíssimas com os colegas nas sessões de preparação, porém, nas  competições, sofrem, chegam “baleados”, em extremo desgaste.

Os exemplos acima mostram que há, no treino, muitas variáveis que, independentemente do modo como são determinadas, ficam à mercê das condições humanas, isto é, do modo como os corredores
entendem que devem fazê-lo. Tanto na vertente científica quanto na ernpíríca, os equívocos ou erros podem ocorrer, seja pelo desejo de
melhorar rapidamente, pela alta motivação e competitividade do corredor e a rivalidade com os demais, pela teimosa insistência de querer correr mais rápido sempre ou por cálculos e prescrições não tão exatas ou inadequadas.

EFEITO CONTRÁRIO
Tudo isso leva o corredor a um desgaste excessivo que se vai acumulando e convertendo as cargas de treino em algo cada vez mais pesado, que o descanso e a alimentação já não dão mais conta. É aqui que o treino se volta contra o corredor.

Este efeito contrário será sentido nas partes mais frágeis do atleta, como lesões musculares, enfermidades, fraturas por stresse, etc., pois o organismo encontra-se debilitado.

Da maneira como isto se coloca, parece mesmo que não como escapar da fatalidade do excesso. Contudo, há como detetar sinais e sintomas de exaustão, que é a consequência primeira dos abusos cometidos pelos corredores ou pela inexatidão dos cálculos de intensidade, duração e frequência de estímulos, por parte do treinador.

O processo que leva à exaustão apresenta situações em que o corredor que souber “ouvir”o seu corpo e detetar os seus avisos, poderá evitar com grande margem de sucesso a sua instalação. Assim, o primeiro sinal dado pelo  corpo. é o cansaço, ou seja, uma sensação  individual que é provocada pela realização de qualquer esforço físico. Ele pode ser percebido já desde o primeiro “tiro” de 400 m num total de 20 ao primeiro km de uma maratona.

Entretanto, cansaço não é algo que impossibilita a continuação do treino, é apenas uma mensagem enviada pelo corpo, dizendo que ele
está fazendo algo que exige maior mobilização de energia e força.

COMEÇO PELA FADIGA

De um modo  geral, após completar-se 45-60% de um treino, seja intervalado, rodagem ou longo, o corredor perceberá os sintomas da
fadiga, isto é,de um decréscimo inicial do nível de energia disponível e desgaste mecânico das principais fibras musculares responsáveis pelo movimento.

A fadiga é o primeiro indício da exaustão. Todavia, este ainda não é o momento para se interromper o treino. O principal sintoma da fadiga que pode ser percebido pelo corredor e observado pelo treinador, é o uso de mais força para se completar um “tiro” ou mais um quilómetro, de acordo com o ritmo estipulado. Na ânsia de não perder o ritmo, o corredor vai “buscar” força em outras fontes.

É comum, nesse momento contrair alguns músculos desnecessariamente,  situação expressa pelas habituais caretas.

Esse momento do treino é muito interessante, pois o corredor encontra-se no auge da estimulação capaz de promover os posteriores ajustes e benefícios do treino. Porém, se o ritmo ou distância estiverem acima das possibilidades orgânicas reais do corredor, o próximo sintoma deve ser motivo de preocupação e mesmo interrupção do treino. Assim, se para completar a distância ou marcar um determinado tempo, o corredor apresentar um desajuste visível em sua coordenação, é muito provável que o seu corpo esteja manifestando um estado de exaustão, que é um profundo desgaste energético e mecânico que o impede de manter a postura adequada para uma boa corrida. O efeito contrário pode atingir qualquer corredor, de qualquer nível. Ele é resultado do excesso, do acúmulo de treinos sucessivos de pesadas cargas, de um quadro de exaustão que toma conta do corredor. Há que considerar que isso pode ser muito comum nos momentos em que o corredor se encontra no melhor da sua Forma, pois a sua disposição para a superação está em nível elevado e ele sempre encontrará um desafio a ser vencido .

  • Por Marcelo Augusti
  • revistacontrarelogio
  • Adaptação ; Aminhacorrida