Os efeitos da idade na corrida

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As pessoas que se mantêm activas, como os corredores, sentem menos o peso dos anos, mas não estão livres de uma queda no seu rendimento físico. Envelhecemos a cada dia e não temos como fugir deste destino. Porém, as pessoas que praticam actividade física têm um envelhecimento mais qualitativo que as que não praticam. Que envelhecemos melhor do que pessoas inactivas nós já sabemos, mas porque é que cai tanto a nossa performance?

Existe uma forma de alterar este quadro? Sobre estes assuntos iremos discutir neste artigo. Uma das variáveis que se costuma medir com frequência na fisiologia do exercício é o consumo máximo de oxigénio . Este representa a capacidade máxima dos nossos músculos em absorver oxigénio. O V02 max é medido através de analisadores de gases que conseguem avaliar a quantidade de oxigénio absorvido pelo organismo durante o exercício.

Alguns estudos mostram que o V02 max está correlacionado à performance, ou seja, se você apresentar um V02 max mais alto, terá um melhor desempenho na prova. Porém, isto nem sempre é verdade, pois vários atletas de elite apresentam V02 max considerados não tão altos e desempenhos melhores do que outros atletas com V02 max mais elevado. A razão para essa aparente discrepância parece ser que alguns corredores têm uma melhor economia de corrida, ou seja, consomem menos oxigénio para uma determinada

velocidade do que outros. Portanto, estes atletas conseguem com um V02 max menor, atingir velocidades iguais ou muitas vezes mais altas do que corredores que têm um V02 max elevado.

Portanto, talvez a velocidade máxima de corrida determine melhor a performance do que o V02 max.

Uma queda de 5% a cada década

Mas voltemos ao foco deste artigo – os efeitos da idade no exercício. Alguns estudos mostram que há uma redução de cerca de 5% em indivíduos activos e 10% em indivíduos sedentários no V02 max a cada década. Existem várias razões para o V02 max ser reduzido; uma delas é que com a idade, há uma queda na circulação sanguínea nos membros inferiores e na pele. Com isto, menos sangue chega aos músculos, fazendo com que o oxigénio que é transportado para eles também seja limitado, gerando consequências cardíaca máxima, que apresenta uma redução de cerca de um batimento a cada ano. Com menos batimentos cardíacos durante o exercício, menos sangue é bombeado para os músculos.

Outra razão é o aumento da massa gorda e a redução da massa muscular com a idade. A partir dos 30 anos, começa a haver uma queda na densidade muscular e aumento na gordura intramuscular. A massa gorda pode aumentar cerca de 5% a cada década, enquanto a muscular atinge um pico em torno dos 24 anos. Dos 24 aos 50 anos, a massa muscular reduz-se em cerca de 10%. Dos 50 aos 80 anos, a redução chega a 30%.

Estes efeitos na composição corporal são bem menos acentuados no indivíduo activo. Um estudo feito na Suiça, que avaliou corredores em relação à manutenção do treino e efeitos na composição corporal por um período de 15 anos, entre as idades de 27 aos 42 anos, mostrou que os corredores seguiam basicamente três padrões:

1°) 19% mantiveram-se activos e na realidade aumentaram o volume de treino de 104 para 112 km por semana, nas idades entre 25 e 40 anos.

2°) A maioria (48%) reduziu o treino para cerca de 50 km por semana.

3°) O terceiro grupo (33%) parou de correr.

O importante é que apenas o grupo que se manteve activo, conseguiu manter o’peso corporal em torno de 1 kg (acima ou abaixo) do seu peso ideal. O grupo inactivo ganhou 11% de peso corporal. Apesar da composição corporal ser importante para a manutenção do V02 max, mesmo aqueles que conseguem manter o peso têm uma redução do V02 max com a idade, mostrando que não é só a composição corporal que afecta a performance com o avançar da idade. Além da composição corporal, a força muscular e a capacidade do músculo em captar oxigénio também são reduzidas, mas neste caso, o treino ajuda a diminuir o ritmo desta queda.

O treino também se reduz 

Como acabamos de citar, para a maioria das alterações fisiológicas decorrentes da idade, o treino exerce fundamental importância na redução dos’ efeitos limitadores na performance. Só que o treino, nas suas duas variáveis básicas (volume e intensidade), também vai obrigatoriamente reduzindo-se com o passar dos anos e consequentemente afectando o V02 max.

Um facto que parece estar relacionado à performance em corredores com o avanço da idade vem a ser o número de anos que este corredor vem fazendo treino pesado. Um estudo feito na Universidade da Cidade do Cabo mostrou que 90% dos recordistas das categorias por faixa etária da Maratona Two Oceans (56 km), conseguiram as suas melhores marcas pessoais quando tinham 15 anos ou menos de treino e competição, mesmo considerando corredores acima de 60 anos.

O estudo sugere que após 15 anos, parece ficar muito difícil para o corredor manter o treino de alto nível necessário para ser um campeão. Segundo este estudo, tudo indica que, para se ter um pico de performance aos 40 anos, não se deve ser competitivo aos 20 anos. Comprovando esta teoria, o corredor com o tempo mais rápido na maratona aos 40 anos, Jack Foster da Nova Zelândia, corria muito pouco aos 20 anos. Foster só passou a treinar competitivamente a partir dos 32 anos, para bater o recorde munaial de master (2h11 m18s) aos 41 anos. Ele faleceu em 2004 aos 72 anos, ao ser atropelado por um carro quando andava de bicicleta.

Estudos também procuram, através do V02 max, prever a longevidade de um atleta. Um cientista da Universidade de Missouri nos Estados Unidos, Dr. Booth, criou uma teoria e que propõe que a vida acaba quando a pessoa atinge um V02 max de 3 ml/kg/min. Baseado nesta hipótese, um atleta que apresenta V02 max entre 50 e 60 mllRg/min aos 20 anos, poderia viver à volta de 100 a 125 anos, considerando que ele mantenha a actividade física e que a proporção de queda do V02 max seja constante. É claro que esta teoria sugere o melhor dos universos, ou seja, que esta pessoa não apresente nenhuma doença degenerativa durante a vida.

Concluindo, existem várias razões fisiológicas que justificam a redução da performance com a idade. A maneira de controlar esta queda está directamente relacionada com o volume e intensidade do treino. Porém, evidências demonstram que se você corre por mais de duas décadas, não espere melhorar ainda mais a sua performance, a não ser que venha treinando muito abaixo do seu potencial.

(*) publicado na revista “Contra-Relógio” de Janeiro de
2005
Texto: lione Beretlo