Overtrainning – Quando passas os teus limites

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Um conhecimento profundo da fisiologia do exercício não é o objectivo desta matéria, mas uma visão superficial é necessária para a compreensão da síndrome de overtrainning, ou excesso de treino. Os treinos alteram a homeostase (equilíbrio fisiológico) do corpo causando fadiga muscular e deficit de performance. Durante o período de recuperação, o organismo deve restabelecer a homeostase.

Além disso, deve haver uma hipercompensação como resposta ao stress (físico) causado pelo treino, para que haja adaptações do organismo, visando uma melhor performance no próximo treino (princípio da sobrecarga).

Para maximizar os benefícios dessa adaptação, o próximo treino deveria ocorrer depois do término da fase de hipercompensação. O problema é que não se sabe, ao certo, quando isso ocorre.

Além disso, intensidades maiores de treino geram stress psicológico pela ansiedade do corredor em constatar que o seu esforço está sendo útil, isto é, que ele está melhorando sua performance. A recuperação de um treino com sobrecarga pode ser dividida em quatro parâmetros principais:

  • HIDRATAÇÃO E NUTRIÇÃO
    SONO E REPOUSO
    RELAXAMENTO E SUPORTE EMOCIONAL
    ALONGAMENTO E REPOUSO ATIVO

Falha na reposição de fluídos e metabólitos perdidos durante o treino e sono ou repouso insuficiente vão resultarem fadiga no início do próximo treino. Alongamento e repouso activo (cross trainning) auxiliam e aceleram a recuperação muscular. A parte psicológica, que deve incluir relaxamento, concentração e apoio social e emocional, é essencial para treinos mais efectivos.

Overreaching é um período de queda na performance, com duração de uma a duas semanas, depois de um tempo de sobrecarga. Ele é considerado um intervalo normal de fadiga fisiológica.

A síndrome de overtrainning também é definida por queda de performance; nesse caso , por períodos maiores do que duas semanas. Normalmente, podem estar associadas alterações de humor, irritabilidade e fadiga. Infecções e lesões de são comuns no corredor que sofre de overtrainning.

Overtrainning não é um problema raro. Entre os corredores de elite, ao redor de 65% deles, em algum momento da carreira, sofreram com o problema.

O atleta lúdico não apresenta, em geral, a mesma intensidade de treino, mas ele está exposto a factores de stress diferentes, como falta de tempo e de treino adequado, e por isso é também um alvo do overtrainning.

São reconhecidos dois estágios de síndrome de overtrainning: a fase simpática e a parassimpática, termos que têm relação com os sintomas apresentados. A primeira fase é caracterizada por hiperatividade do sistema nervoso simpático associada à queda de performance.

Aumento na frequência cardíaca e pressão arterial de repouso, perda de peso, tremores e insónia são os sintomas mais comuns. Representa um estágio intermediário da síndrome, que, se não for interrompida, evolui para o estágio seguinte. A forma mais severa e crónica é a parassimpática, que acompanha depressão, diminuição da libido, sonolência e queda da frequência cardíaca e da pressão arterial.

Não existe uma teoria que seja consenso para explicar essa síndrome, que tem um espectro multifactorial, incorporando aspectos das teorias a seguir:

Desequilíbrio autonómico: Essa teoria estabelece que há um desequilíbrio do sistema nervoso autónomo (simpático X parassimpático), fazendo com que o estímulo frequente do exercício gere uma resposta exagerada do sistema nervoso parassimpático, contfibuindo para o início da síndrome. Deplecção do glicogénio:

O glicogénio é a fonte primária de energia para o músculo, e o treino excessivo provoca sua deplecção. Fadiga central – teoria do BeAA: BCAA é a sigla para aminoácido de cadeia ramificada, que é uma fonte secundária de energia, quando os níveis de glicogénio estão baixos. Um subproduto da transformação do BCAA em energia é o aumento dos níveis de triptofano, que é uma substância que, agindo no cérebro, provoca alterações neuroendócrinas e emocionais que são encontradas na síndrome.

Os sintomas:

Existem quatro categorias de sintomas associados: físicos, psicológicos, biomecânicos e imunológicos.

Queixas específicas •

  • Déficit de força muscular;
  • Déficit de coordenação;
  • Tempo de recuperação excessivo;
  • Queda de performance.
  • Achados fisiológicos
  • Alterações da pressão sanguínea;
  • Alteração da frequência cardíaca;
  • Perda de peso;
  • Aumento na incidência de lesões;
  • Aumento na incidência de infecções.
  • Queixas subjectivas
    • Cansaço;
  • Depressão;
  •  Anorexia;
  •  Distúrbios do sono;
  • Distúrbios gastrointestinais;
  • ‘Dor de cabeça; •
  • Irritabilidade; •
  • Dificuldade de concentração.

Não existem exames específicos para o diagnóstico, pois ele depende da exclusão de todas as outras hipóteses diagnósticas que podem copiar vários dos sintomas descritos.

O tratamento: A primeira linha para o tratamento é a prevenção. Para isso, é essencial a compreensão da periodização, intercalando períodos de baixa intensidade e cross trainning com treinos de sobrecarga para permitir uma recuperação adequada. Uma revisão do plano de treino e a modernização de factores de stress na vida social do atleta são essenciais.

Quando a prevenção falha, o repouso é imperativo. Nos estágios iniciais, uma diminuição de 50% a 75% na intensidade do treino, por uma a duas semanas, pode ser suficiente. Uma avaliação nutricional e exames laboratoriais devem acompanhar os exames clínico, físico e psicológico. Se não houver melhora, o repouso deve ser prolongado de três a seis semanas. O uso de antidepressivos é benéfico enquanto a recuperação física ocorre, visto que é comum a depressão se manifestar como causa primária ou sintoma do overtrainning.

No retomo aos treinos,é importante a consciencialização do atleta para uma evolução gradual e cuidados adicionais com sono, nutrição e stress,seja da competição,seja do trabalho. A sequênciados treinos deve focara frequência, depois a duração e, finalmente,a intensidade.

(*) artigo publicado na revista Running Brasil