A PREVENCÃO DAS DORES VERTEBRAIS

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O corredor que nunca sofreu de dores nas costas poderá considerar-se muito feliz. A frequência de pequenas ou grandes lesões ao nível das costas (dorsalgia), dos rins (lombalgia), da ciática ou de nevralgia crurais, no que se refere ao praticante de corrida, está ligada às funções da coluna vertebral que participam directa ou indirectamente na mobilidade dos membros inferiores. Evidentemente que, na esmagadora maioria dos casos, uma pequena dorzinha no final de um treino não será caso para grandes alarmes, .pois muitas vezes nada mais é do que um simples espasmo, de dor localizada, que irá desaparecer após um duche retemperado ou uma noite bem dormida.

Importa, porém, que o atleta esteja de sobreaviso para as lesões mais renitentes que podem acarretar maus períodos, por vezes dolorosos e de cura problemática. Focámos anteriormente que estas lesões podem estar relacionadas com as funções da coluna vertebral que interferem, de uma maneira directa ou não, na mobilização dos membros inferiores.

Vejamos agora, com mais detalhe, as duas situações que podem surgir:

1. Directamente – A coluna vertebral constitui, juntamente com a bacia, algo parecido com um “chassís” de automóvel, servindo de ponto fixo aos movimentos dos membros. Músculos possantes, destinados à propulsão do nosso corpo, músculos psoasilíacos e músculos abdominais, em particular, entram, como que numa solidarização da coluna, bacia e membros.

2 Indirectamente – A coluna vertebral é uma fantástica obra de arquitectura que pode suportar variadíssimas cargas. Este conjunto relativamente móvel deve aguentar, na realidade, mais do que metade do peso do nosso corpo, embora esteja submetido aos múltiplos actos da vida diária. Estas complexidades morfológicas e fisiológicas levam-nos já a imaginar numerosas causas susceptíveis de desregular os diferentes mecanismos da nossa coluna, que é formada por um “empilhamento” das vértebras, cada vez mais volumosas ao nível da bacia. Estes corpos estão devidamente encaixados uns nos outros (ver o desenho) através de numerosas pequenas articulações fixas por todo um conjunto de músculos e ligamentos. O jogo de uma vértebra em relação à sua vízínha é relativamente fraco, mas a adição dos movimentos de cada vértebra vai originar toda a mobilidade da coluna vertebral.

A separar cada uma delas, existe uma espécie de esponja elástica, denominada disco intervertebral (consultar também O desenho), que vai aumentarito a mobilidade da coluna.'” Toda esta estrutura, embora frágil na sua aparência,. possui características de grande resistência, pois os seus discos são orientados de perfil, segundo três curvas, para poderem suportar esforços de compressão, o que, na prática, equivale a uma carga de 500 quilos por centímetro quadrado (dados obtidos através de estudo levado a efeito pelo Dr. G. Ziegler) , sendo necessárias pressões da ordem dos 800 quilos para fracturar uma vértebra …

O disco intervertebral é constituído por lamelas fibrocartilaginosas, no centro das quais se aloja um pequeno nó, o núcleo pulposus. Este disco tem uma certa flexibilidade e pode deformar-se quando efectuamos movimentos com a nossa coluna vertebral. No entanto, está provado que é essencialmente o núcleo pulposus que desempenha um papel especial, dado que a sua constituição viscosa, portanto rica em água, lhe permite comportar-se como um sistema hidrostático, podendo, assim, transmitir e repartir equitativamente, e de forma uniforme, qualquer pressão recebida. Todo este eficaz mecanismo é susceptível de se deslocar e modificar ligeiramente a sua localização no decorrer de um “mau movimento” ou de um “bom movimento” efectuado de forma exagerada. Da mesma forma; um estado de desidratação provocado pela insuficiência de líquidos pode contribuir para alterar o núcleo pulposus, o qual, uma vez afectado,não está livre de “irritar os nervos” que descem pelo canal vertebral ou de conjugação. Com a idade, e muitas vezes logo a partir dos 30 anos, os discos começam a envelhecer e a artrose aparece, dando origem a acidentes vertebrais mais frequentes e, no caso do corredor, ao abandono do seu exercício mais preferido. Tal como acontece nos automóveis, uma boa assistência representa sempre a melhor maneira de prolongarmos a nossa vida activa. o QUE FAZER PARA PREVENIR?

Após esta breve e sucinta introdução a um tema tão vasto e que julgamos interessar a muitos dos nossos leitores, justifica-se uma pergunta: o que deve fazer qualquer corredor para evitar sofrer, mais tarde ou mais cedo, de dores nas costas? Como facilmente se compreende, não é fácil dar-se uma “receita” geral que sirva a todos! As nossas indicações vão no sentido de uma explicação tanto quanto possível ampla, cabendo o tratamento dos casos renitentes aos cuidados dos médicos particulares de cada desportista. Em termos de prevenção, poderemos apontar três grandes acções:

A) Higiene de Vida – Beber 1 a 2 litros de água por dia, a fim de evitar a desidratação dos discos, conforme explicamos anteriormente. Ter especial cuidado em reforçar a ingestão de líquidos quando nos meses de tempo quente e seco ou quando o volume de quilómetros percorridos em treino for superior ao normal. Tais bebidas devem ser tomadas, de preferência, fora das refeições principais para não interferirem com os normais mecanismos de digestão. Procurar que a sua cadeira de trabalho, bem como a sua cama, estejam perfeitamente adaptadas ao seu estilo de vida. No caso de trabalhar muitas horas a uma secretária, importa que a altura da cadeira esteja de acordo com O comprimento das suas pernas e que o espaldar se encontre em posição correcta. ~ um erro pensar-se que a cama será tanto melhor quanto mais macia for … As longas horas em viatura podem ser um factor importante para originar lesões na coluna e não se esqueça de se deslocar a pé sempre que tenha possibilidade disso. Evitar o excesso ponderal e a musculação pesada, por poderem originar lesões nos discos intervertebrais. Em todas as situações que exijam a elevação de cargas do solo, recorra ao auxílio da flexão dos joelhos, para que o peso a eleve r seja repartido por toda a musculatura corporal.

B) Ginástica Quotidiana – A mobilização que propomos deverá prolongar-se durante 15 a 20 minutos, num conjunto harmonioso, de que apresentamos alguns .esquemas em anexo. Tais exercícios terão de ser sempre praticados com movimentos que não causem qualquer dor e sem grande crispação dos músculos.

Focamos, efectuar com último caso, igualmente, alguns exercícios a o recurso a espaldares, que, em podem ser substituídos por uma barra, colocada Naturalmente dúvida quando propostos pode a altura conveniente. que a existência de qualquer da execução dos movimentos ser eliminada através de do professor de Educação Física, de familiarizado com a prática da sulta a um preferência corrida.

C) Em Caso de Dor – Tentar a suspensão numa barra, tendo em vista a descontracção dos músculos directamente situados ao nível da coluna vertebral. Evitar os movimentos bruscos … Se a dor persistir, recomenda-se o recurso à fisioterapia, depois, como é evidente, de colher opinião médica. Note-se que o mecanismo da dor deve ser compreendido como que um aviso do organismo para algo que não está bem, situação que todo o desportista nunca poderá esquecer.

A acção dos anti-inflamatórios pode ser muito eficaz, embora a sua aplicação deva ser cautelosa. Muitas vezes, o repouso e a tomada de aspirina podem ser bastante eficazes, mas estamos certos de que, em tal área, não será conveniente falar-se em qualquer quantidade, pois cada atleta é um caso e as situações são sempre diferentes de homem para homem .

Pelo dr. Jacques Turblin