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Uma das grandes preocupações de qualquer corredor diz respeito ao local para efetuar as suas habituais sessões de treino. É elevada a percentagem de adeptos da modalidade que vivem cercados pelo betão, não só nas paredes que o envolvem como, muito principalmente, no solo que pisam. Com efeito, são os habitantes das cidades que contribuem em larga escala para o movimento de interesse em torno da prática desportiva, o que se compreende, dada a situação de “clausura” que o próprio ambiente citadino transmite aos que nela vivem, a justificar, portanto, a sua necessidade de “liberdade” e de “ânsia de viver melhor”, objetivos que a Corrida prodigaliza em elevado grau.

Uma escapadela em fim de tarde, quando o ar que se respira quase não suporta tantas toxinas e o desejo de novos ambientes martela o pensamento de cada cidadão, uma fuga em busca de ambiente mais adequado tem absoluta justificação.

É ideia presente no espírito das pessoas, e quando algumas delas são adeptas de umas passadas bem ritmadas que um desejado treino proporciona, então, meus amigos, não há que vacilar, e a “fuga” de ontem, que hoje se repete, repetir-se-á amanhã.

Todavia, trata-se de uma “fuga” que, regra geral, não fica completa a 100%. Para onde ir? É pergunta inevitável para muitos daqueles que, estando nessas condições, vacilam entre um local de piso asfaltado e outro de terra
batida, ou ir um pouco mais longe, onde o arvoredo é tentador e folhas no chão convidam à imaginação de fofo tapete sob os pés.

Poderá até haver possibilidade para alguns de um desvio de mais um ou outro quilómetro, que permita  sentir o prazer de pisar a terra molhada de uma praia em fase de maré baixa …
A escolha de um bom local de treino, eterna dúvida de quem gosta de correr. Para uns, a terra batida é o melhor piso, enquanto outros defendem o asfalto, o qual, embora de grande dureza, permite maior velocidade …

Aqui, vários pagariam bem para beneficiar do prazer de uma floresta bem arborizada, mas, além, também há quem goste de se ver sob a copa agradável de arvoredo, mas, melhor, bem melhor, é o piso de terra batida. Várias opiniões, várias escolhas, e todas elas convictas da impecabilidade das suas preferências.

Todavia, uma questão se levanta:
Apresentará cada uma dessas preferências indiscutível qualidade, isto é, a escolha de qualquer delas é sinónimo de nada haver de desvantagem ao seu redor? Vejamos a situação!

Piso Asfaltado

Trata-se, sem sombra de dúvida, de um tipo de piso que todo e qualquer corredor conhece sobremaneira, pois o seu dia-a-dia é passado sobre ele. Estejamos na cidade, onde o “massacre” é total, ou em local menos populoso e retirado, a presença do asfalto é obrigatória. Todos o conhecem. Todos o pisam.

Vantagens?

Regularidade no piso, sempre muito igual, salvo um ou outro caso, maior velocidade no andamento, pois os pés estão pouco tempo em contacto com o solo, indiscutível acessibilidade, já que está em todo o lado …

Desvantagens?

Sim, algumas, como, por exemplo, a dureza que apresenta e que constitui fonte de muitas das lesões que assolam os corredores. Os constantes batimentos dos pés sobre uma superfície asfaltada representa uma “porta aberta” para  que o fantasma dos problemas físicos surja quando menos se espera. Importa referir que a maioria das marcas desportivas que comercializam sapatos de corrida apresentam uma vasta gama de sapatos especialmente concebidos para este tipo de pisos, ou não fosse, o asfalto, a grande pista de todos os adeptos do jogging e da corrida.

Não obstante a realidade de nos depararmos com vários tipos de sapatos para estes pisos particularmente duros, há que ter consciência que cada atleta é um caso e cada pé um caso único. O peso, a estatura do atleta, a sua forma de “atacar” o solo , o seu “desenrolar” de passada, o seu volume semanal de quilómetros percorridos neste tipo de pisos faz com que a escolha do chamado sapato ideal para cada corredor seja algo um pouco problemático e a necessitar, sem duvido do aconselhamento técnico de alguém que esteja efectivamente, “por dentro” do mundo da corrida. Daí a nossa sugestão de se optar em adquirir o sapato para correr junto de um estabelecimento comercial em que os seus funcionários nos possam proporcionar um mínimo de informação técnica e nunca em locais em que ninguém aí sabe, sequer, o que é isso de correr …

O recurso a informações pormenorizadas via internet é algo cada vez mais procurado por quem gosta de correr. No fim, basta, por exemplo no “Google” escrever o nome da marca de sapatos que se pretende adquirir e eventualmente até o nome do modelo para que  em poucos segundos se fique na posse de uma mão cheia de detalhes técnicos sobre o sapato pretendido.

Piso terra batida

Para além de constituir um percurso agradável, permite aos que o preferem uma experiência interessante e que diz respeito às irregularidades que pode apresentar. Perante elas, toda a estrutura músculo-tendinosa do corredor é consideravelmente fortalecida, pois os pés têm de tomar as posições a que tais irregularidades obrigam. Muito positiva, igualmente, é aquela sensação de “mudança” rápida e agradável que transmite ao atleta, ao mesmo tempo que o leva a pensar estar a natureza “ali ao pé” e que’ as suas passadas estão finalmente em terreno adequado … E quanto às

desvantagens?

Também existem, como é natural, pois nada é perfeito!… As tais irregularidades com aspeto positivo invocadas  um pouco acima, envolvem, por sua vez, o perigo de provocar lesões nos membros inferiores dos corredores menos experientes, principalmente nos tornozelos, para além de uma certa atenção por parte do desportista ao que possa haver de irregular no piso onde vão estar as passadas seguintes. Esse cuidado poderá
representar a fuga a vários tipos de lesão deveras desagradáveis para quem gosta de correr.

Uma chamada de atenção ainda para os dias de chuva em que, naturalmente, os desportistas deverão evitar correr em zonas de terra batida capazes de ficarem com lama o que pode ocasionar quedas nadas agradáveis para além de, em tais situações, o desgaste dos sapatos passe a ser muito mais acentuado.

Piso Relvado

Qualquer corredor que se preze gostaria de ter ao seu dispor um belo campo de golfe, na certeza de que não exigiria a existência de qualquer buraco. Com efeito, só de olhar para aquelas extensões bem verdinhas, em que tudo sob os nossos pés é tratado com desvelo, surge imediato desejo de umas passadas “especiais” e duração quase ilimitada. Para além do que de agradável é correr num piso bem relvado, ele transmite-nos a sensação de que nada existe de prejudicial na prática da corrida sobre a sua superfície e que qualquer hipótese de impacto mais forte dos pés com o solo tem a recebê-la um misto de colchão de ar e almofada de penas …

Toda a estrutura muscular do corredor sente-se rejuvenescida ao treinar-se em  boa relva.
Porém, no meio de toda essa beleza, surge o inconveniente de tudo ter de se processar lenta e suavemente e toda a ideia de rapidez, de velocidade, passará para outra oportunidade.

Por outro lado, como o dispor do tal “green” não passa de simples miragem e o terreno relvado que se possa utilizar também terá as suas irregularidades, lá vem o problema das lesões a escurecer a atividade de quem corre …

Uma chamada de atenção ainda para quem tenha o privilégio de poder efetuar alguns dos seus treinos em Campos de Golfe. Na realidade, um treino bem agradável mas também a exigir uma sobrecarga muscular nomeadamente ao nível das coxas pois, com é sabido, o “ondular” do traçado dos Campos de Golfe faz com que não acham uma grande extensão plana desenhada para quem gosta de correr. Portanto as sessões de treino aqui devem ter em atenção este pormenor técnico.

Piso areia da Praia

Bom, mas mesmo bom, é aproveitar a areia molhada em período de maré vazia. Piso ao mesmo tempo macio e rijo, frescura nos pés descalços deixada pela água da última onda que ali chegou, sensação de leveza pela ausência dos sapatos e, sobretudo, o cheio a maresia que tudo envolve. Sem dúvida nenhuma, trata-se de situação única, e quem nunca fez tal experiência, siga o nosso conselho e faça-a na próxima oportunidade. Todavia … Tinha de haver algo contra! Falámos em pés descalços e é sabido que a beira-mar recebe lixo de vária espécie, algum porque quem anda no mar se esquece não estar perante uma lixeira, enquanto outro é ali deixado pelos turistas, convencidos de que o mar tudo leva!… Daí a necessidade de
muito cuidado quanto à areia que vamos pisando. Latas vazias e pedaços de vidro gostam de fazer surpresa … Quanto a correr sobre a areia seca, embora seja medida para fortalecer tendões e músculos, é prática a exigir elevado esforço, não obstante se processar, como é sabido, sempre em ritmo lento.

Mais um detalhe técnico, na areia seca correr sempre com sapatos pois a resposta muscular é mais eficiente e evitam-se possíveis lesões e fricções cutâneas. O treino nas dunas, preconizado por alguns treinadores, sendo o  mais célebre o australiano Percy Cerruty, apresenta excelentes vantagens quanto a uma musculação natural mas p/)de acarretar microtendinites que podem ser um problema para os corredores com idades para além dos 40 anos.

Na praia, a opção deve ser, em nossa opinião, para a corrida na maré vazia e sempre com a preocupação de não correr durante muito tempo no mesmo sentido, principalmente se a zona de contacto com o mar apresentar declives muito acentuados, já que a carga de impacto na perna inferior será bastante acentuada podendo surgir, mais facilmente, lesões sobretudo ao
nível do joelho.

Em conclusão, poderemos afirmar que todos os pisos que possam ser utilizados para a prática da corrida apresentam os seus pontos positivos e negativos. Essa é uma das razões por que se recomenda aos adeptos da modalidade que variem, tanto quanto possível, os seus locais de treino. Quanto mais isso acontecer, maior será a experiência adquirida e nesta nossa atividade desportiva, como, aliás, em tudo na vida, quanto mais experiência houver, melhores serão os resultados finais!..

Trilhos de lama… pedras

Tem vindo a assistir-se, um pouco por toda a Europa, a um acentuado aumento do número de provas nos Trilhos e, a exemplo, do que também aconteceu no ciclísmo, via BTT, verifica-se uma aumento gradual na dificuldade das mais emblemáticas provas do calendário internacional. Se, numa fase inicial, os organizadores apostaram, nos terrenos acentuados, com subidas e descidas um pouco a roçar a vertigem, mais tarde passou-se também a incluir troços com bastante lama, travessia de riachos e zonas pedregosas capazes de tornar perigosa a prática da corrida nesse tipo de pisos.

Como atuar perante estes cenários?
Na nossa opinião, e na qualidade de puro corredor, julgamos que as sessões de treino em tais circunstâncias de meio ambiente devem ser evitados pois será muito fácil qualquer corredor, por mais experiente que esteja em correr nos trilhos, lesionar’-se .. ,
Sendo assim, pensamos que o melhor será reservar a travessia de riachos pedregosos ou a prática de corrida em áreas lama centas ou pedregosas, apenas e só para as competições, ou então em passagens curtas nas normais sessões de treino de corrida.
Importa salientar que é mais perigosos correr em solos repletos de pedras do que em zonas de lama, embora, na realidade o corredor tenha muito a beneficiar quando efetue sessões de preparação nesses pisos extremos.

Maquina tapete rolante

Devemos ter em atenção que é algo frequentemente utilizado pelos corredores na sua fase de iniciação, principalmente aqueles que começam a praticar desporto dentro de Academias ou Ginásios.
O que dizer de um piso à base de borracha que se vai movendo consoante a velocidade que se imprime à máquina?

Para já um detalhe, e que nos desculpem, todos aqueles que frequentam há longo tempo os Ginásios: este é um tipo de esforço que, de certa maneira, tem pouco a ver, com a verdadeira corrida. A colocação do pé no Tapete é diferente comparativamente ao solo tradicional, as cargas a que os membros inferiores se submetem são diferentes, o ataque ao solo é diferente, enfim, todo o ato de corrida é “estranho” e quando estes desportistas vão para o chão, quando vão correr fora do ginásio são logo os primeiros a sentir que correr num tapete rolante tem pouco a ver com o correr em plena natureza.

Contudo, há uma vaga de adeptos deste tipo de esforço e para eles importa reter o seguinte:
– O esforço de corrida é globalmente mais difícil do que no exterior;
– O trabalho muscular do trem inferior não apresenta as mesmas características técnicas comparativamente ao esforço desenrolado ao ar livre;
– Os parâmetros da produção de suor são mais elevados;
– As exigências psicológicas, mesmo com recuso à música ou à televisão são mais elevadas do que numa corrida normal;
– O prazer da corrida é muito menor do que ao ar livre;

Perante este quadro, recomendamos a corrida em tapete rolante com algo a ser utilizado apenas e só e no máximo em 20% das sessões de treino de corrida, já que os outros 80% deverão ser preferencialmente ao ar livre a não ser que se viva numa região com condições climatéricas muito desfavoráveis. Uma chamada de atenção ainda para o tipo de calçado a utilizar num esforço em tapete rolante que deverá ser diferentes do que ao ar livre. Talvez mais leves, mas com muito maior grau de estabilidade e menor de proteção dos impactos do pé com a borracha do tapete.

O rasto também deverá ser tanto quanto possível” liso pois o contacto será sempre borracha contra superfície idêntica. Note-se que os sapatos de competição para asfalto nem sempre são os melhores para serem utilizados no tapete …

Correr na Agua 

Talvez não seja correr propriamente dito mas é algo capaz de proporcionar ao desportista uma boa descontração e sobretudo uma ótima aplicação em caso de estar lesionado. Efetivamente, o meio aquático oferece a possibilidade de reduzir o peso do nosso corpo e assim, o atleta poder executar movimentos muito semelhantes aos da corrida e com a particularidade de nunca tocar o pé com o solo o que faz com que não acha carga de esforço própria do impacto do pé com o solo.

Hoje em dia, são várias as piscinas que possuem técnicos capazes de ministrar sessões de treino com sequências de exercícios em meio aquático. No entanto, para o corredor o ideal será utilizar um pequeno colete próprio para se poder executar a corrida dentro de água, sendo vários os atletas de Alta Competições noutros paises que utilizam estas técnicas também como
meio de preparação física.

Que pisos correr?

Com temos vindo a referir, o importante é o prazer que cada sessão de corrida, por muito longa ou curta que seja acabe por proporcionar ao atleta um determinado prazer pelo esforço despendido.

Vamos assim encontrar desportistas que “dão tudo” para correrem ao longo de uma bela praia deserta … Outros optam pelas árvores verdejantes e pela vegetação recheada de verde dos parques… Enfim, cada correr sua preferência, no entanto, pensando unicamente em termos de uma boa sessão de treino que faculte um trabalho muscular variado e sobretudo uma boa proteção quanto a eventuais lesões, sugerimos que o ideal é que cada sessão de corrida, contemple todos os pisos.

Mas como?
Alternando as zonas ou o percurso de corrida se efetua. Por exemplo, 10 minutos no relvada, depois outros dez sobre terra batida, mas uma passagem de alguns metros sobre o asfalto, para depois ter o fazer de pisar a suave areia de um caminho mais solto. No fim, esta alternância de superfícies em que o pé está em contacto com o solo faz com que o trabalho
muscular seja muito mais variado, em que o atleta tenha de alternar a força aplicada em cada nova passada e consequentemente haja uma menor saturação dos milhares e milhares de impactos do pé com o solo .•

Revista Spiridon