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Imaginemos que alguém gosta imenso de comer chocolate. Pois hem por muito saboroso, suculento que esse alimento seja, se só se comer chocolate ao fim de alguns dias já não é possível gostar desse alimento rico em glúcidos. Se houver a precaução de ingerir chocolate, não a toda a hora, mas digamos dia sim, dia não, então todo o sabor maguífico do alimento é apreciado na máxima plenitude. No fim, entre a paixão de se gostar de algo e o enjoo, quase repudio, vai uma curta distância que bem vistas as coisas se poderá muito simplesmente chamar de dose!

Pois é, em quase tudo na vida é sempre uma questão de dose. Se for exagerada, quase exclusiva, então acabamos por a não poder ver mais. Se for com “conta peso e medida” então todo o prazer dessa actividade irá continuar por muitos e bons anos. Na nossa Corrida também se passa o mesmo. A dose é tudo. Por muito que se adore ir correr, há que ter o disceruimento de só se fazer um determinado volume de quilómetros, não só em função da Forma Física, das condições atmosféricas, dos percursos, da companhia, do gozo que isso pode proporcionar ao atleta … Enfim, um número muito grande de variantes a que o atleta deve estar atento pois caso contrário pode surgir o desencanto por essa actividade.

Tudo que é demais!

É isso mesmo, tudo o que é demais, acaba por não ter interesse, por deixar de ser motivador e nós corredores, devemos ter em atenção esta máxima, pois caso contrário, mais cedo ou mais tarde, acabamos por abandonar a prática daquilo que tanto gostávamos. E uma questão de motivação de interesse em torno do desporto favorito e certamente alguns dos nossos leitores, por mais furiosos adeptos que sejam da Corrida,já talvez tenham sentido, lá no seu intimo, que há dias, há semanas em que não apetece ir correr, parecendo que o corpo “nos pede” que não haja mais corrida.

A arte de saber “sentir” com está a nossa máquina é uma arte que só alguns possuem e são talvez esses que, mais apreciam a simples prática regular da corrida. E a tal dose que focámos anteriormente. Sabê-la aplicar, semana após semana deve estar sempre presente em todos os desportistas. Enfim, como referimos, há meses, há semanas em que a motivação está mais por baixo e não apetece mesmo nada ir correr. O que fazer então? Abandonar a actividade de vez? Abraçar outra prática desportiva? Deixar deflnitivamente a prática de qualquer exercício fisico? As questões são variadas mas há um aspecto fundamental em tudo isto: nunca se deve abandonar a prática regular de exercício físico já que, quer queiramos ou não, estamos perante algo que absolutamente fundamental para o equilíbrio da população moderna. Para o Ser Humano, a inactividade é algo que acaba por o destruir as principais funções do seu corpo, por reduzir o seu tempo de vida.

O saudoso fisiologista alemão Dr. Ernst van Aaken tinha uma frase que simbolizava claramente o perigo do sedentarismo do homem moderno: “A inactividade destrói tudo, até acaba por destruir um tanque de guerra blindado!”

Quando não apetece…

Há muitas outras actividades, mais passivas ou mais movimentadas que os corredores podem explorar ocasionalmente e se calhar em algumas delas poderão vir a encontrar todo uma mais forte motivação para voltar à sua Corrida com toda a paixão.

De acordo com a nossa experiência de corredor “de pelotão” vai para trinta anos, aqui ficam algumas sugestões que já experimentámos e algumas delas com excelentes resultados. Tivemos a precaução de dividir tudo em dois grupos o primeiro sobre a possibilidade de se efectuarem descobertas em torno de outros desportos. O outro, mais em jeito de “truques”, de pequenos nadas que se podem vir a fazer sem deixar de continuar a correr regularmente.

Actividades desportivas?

NATAÇÃO – Habitualmente o corredor está submetido a uma onda constante de impactos do pé com o solo. Cada passada só poderá ser produzida mediante a força de impulsão do pé, numa sucessão continua de movimentos de deslocação que acabam por significar “micro-impactos” constantes capazes que provocarem inclusivamente lesões na estrutura muscular do desportista. Na Natação a situação é exactamente quase inversa. O individuo ao entrar no meio aquático, fica quase a flutuar e para se movimentar não tem aqueles típicos fortes impactos tão comuns na Corrida.

Estamos perante uma actividade que, de certa maneira, irá funcionar como uma certa massagem natural, de descontracção, de reforço de outros grupos musculares. Daí que muitos treinadores aconselhem a prática da natação em estilo de descontracção aos seus melhores atletas, qual função de reforço da motivação em torno da corrida, fugindo exactamente desse desporto. Portanto, a Natação pode ser uma excelente actividade extra, ou como diríamos a aplicar nos dias em que não apetece mesmo nada ir correr.

CICLISMO – Ora aqui está um desporto que está na moda. Hoje, ter uma bicicleta começa a ser normal. Pode ser do tipo “pasteleira” mas o importante é que para a movimentarmos teremos de forçosamente pedalar. Tudo o que referimos anteriormente quanto à problemática do perigo dos continuados impactos do pé com o solo, assume no ciclismo quase o mesmo valor. O ciclista, não sofre as “ondas de choque” tão habituais no corredor e consequentemente estamos perante uma actividade de “descanso muscular”, onde o corredor vai desenvolver outros grupos musculares mas sempre numa posição de “sentado”, de urna certa passividade.

O perigo reside nas quedas e daí a nossa sugestões de se procurar utilizar percursos planos, sem tráfego e sempre utilizando uma velocidade confortável de deslocação. A vantagem do uso da bicicleta é que podem-se explorar áreas muito mais distantes do que a correr. A comparação de esforço poderá ser sintetizada nesta relação: 10 km de corrida equivalem a um esforço de 40 na bicicleta, o que faz com que se descubram novos percursos que só a correr não seriam possíveis.

Outro pormenor, muito importante para nós, é que o uso da bicicleta em determinados dias pode fazer com que também toda a nossa família nos acompanhe em jeito de grande passeio. Este é um aspecto a reter pois regra geral não é fácil que os nossos familiares mais próximos possam ir correr connosco.

CORRIDA DE ORIENTAÇÃO – Embora muito próxima da nossa corrida, esta variante de esforço físico contínuo, introduz uma componente extra particularmente interessante, a capacidade do desportista se saber orientar em plena natureza. É o “mental” que entra como forte componente no esquema da corrida e não será por acaso que muitos ex-corredores, acabaram por abraçar as Corridas de Orientação como o seu desporto favorito.

Não é fácil “entrar” nas actividades de “Corrida de Orientação” pois regra geral há um certo ciclo fechado nos clubes que se dedicam a estas actividades no entanto estamos em crer que uma abordagem a um dos clubes da sua região poderá facilitar urna aprendizagem simples e de alguma maneira rápida.

FUTEBOL – Quem não conhece amigos que tem uma qualquer equipa para jogar aos fins-de semana?
Para mais qualquer corredor, independentemente no seu nível atlético, terá sempre uma condição física superior aos habituais jogadores dos clubes de “ocasião”. Numa primeira abordagem, até pode ser “engraçado” jogar, uma vez por outra, nessas equipas e se não houver muito jeito para dar chutos na bola pelo menos passa-se o tempo do jogo a correr de um lado para o outro.

A opção parece boa, o principal perigo são as lesões, as “pancadas” que o futebol ocasionalmente ou não, acaba por proporcionar, situação que faz com que as pernas do corredor estejam sempre em risco de ficarem seriamente lesionadas. Depois há outra questão. Os corredores, regra geral são leves e qualquer “encosto” de ombro verificado em pleno jogo pode traduzir-se em queda aparatosa e se o piso não for de relva então os riscos ainda são maiores.

Aliás mesmo jogando a brincar, calmamente, entre” amigos é fácil surgirem lesões …A favor do futebol, temos o factor camaradagem, o ambiente, a troca de brincadeiras entre jogadores da mesma equipa, o pós-jogo, regra geral traduzido num almoço ou jantar de grande convívio.

AS CAMINHADAS – Aqui está algo muito parecido com a corrida. Pode ser feito a qualquer hora, só ou acompanhado e sem necessidade de grande equipamento a não ser uns sapatos que, no caso dos corredores, poderão ser os mesmos que utiliza no seu habitual desporto. Se quando focamos o ciclismo referimos que se podia fazer circuitos maiores do que a correr, agora ao Caminhar, tudo será mais curto já que o ritmo de 6 km/h é algo que vai obrigar a um esforço constante.

A diferença entre a corrida está no facto de se poder observar a paisagem com mais tranquilidade, ver outras coisas mais em detalhe que quando se está a correr “nos passam ao lado”. Também a família nos pode acompanhar e como está na moda fazer boas caminhadas está pode ser mais uma outra opção para os dias em que não apetece vestir os calções e ir correr.

Que truques?

Para quem esteja com pouca vontade, digamos motivação, em torno da sua habitual corrida, mas  queira continuar ligado a ela, os “truques” que sugerimos podem ser resumidos assim:

MUSICA – Talvez o “doping” mais utilizado pelos corredores. Uma boa musica em plena corrida faz-nos parecer que até temos asas, os quilómetros são percorridos com mais vivacidade e o tempo de esforço “passa a correr”. Para quem ainda não experimentou correr ao som da música aqui está uma opção muito importante a considerar.

Depois, de treino para treino, pode-se ir variando o reportório, fazendo com que haja maior prazer em cada passada.O problema é que correndo com musica o atleta viga mais exposto ao perigo do acidente, principalmente se estiver a correr em artérias movimentadas. Nos Estados Unidos, sobretudo, nos grandes centros, são frequentes os acidentes com praticantes de corrida que escutam musica.

O alhear do ambiente envolvente pode ser perigoso pois não serão só os automóveis o principal perigo, os ciclistas e os cães são outros factores a considerar. A solução para o corredor é tentar não colocar o volume de som muito elevado de maneira a poder pressentir alguma anomalia que o possa cercar. Outra questão é a possibilidade do atleta poder ser assaltado.

Ver alguém a correr em parques ou zonas muito arborizadas usando aparelhos de som pode mais facilmente conduzir a situações de roubos, daí que se aconselhe o atleta a não ostentar o aparelho que está a utilizar. Por exemplo o uso de um simples boné esconde facilmente os auscultadores da mesma maneira que uma T-shirt por fora dos calções irá esconder tudo que está preso junto à cintura.

NOVOS PERCURSOS – A rotina é o principal inimigo de quem gosta de correr e um dos erros frequentes acaba por ser a utilização sistemática e constante do mesmo percurso de treino. Há que inovar, e por exemplo, num pequeno circuito, o processo mais simples de modificar tudo basta efectuá-lo numa das sessões num determinado sentido e na outra em sentido contrário. Mas há mais, nas proximidades onde é habitual correr, há certamente outras possibilidades e basta uma pequena variação de um traçado para fazer com que tudo seja novo.

Aos fins-de-semana opte por outras voltas, estilo ir de comboio ou de autocarro até um determinado lugar regressando depois a correr, ou então, em vez de sair de casa a correr, ir de carro até determinada zona e efectuar aí a sessão de preparação. Quando nos referimos aos percursos também estamos a pensar nos pisos. A alternância de pisos é, não só, muito importante para se evitarem possíveis lesões, como para introduzir outras sensações de passadas. Se os relvados são óptimos, a terra batida é outra opção numa escala em que o duro asfalto será a opção menos desejada a par dos terrenos juncados de pedras e pequenos buracos.

PRENDAS PESSOAIS – Quando as coisas começam a parecer algo monótonas, quando a “chama” parece estar mais fraca, um dos “truques” que costumamos utilizar é oferecer a “nós próprios” uma prendinha. Pode parecer estranho, mas entrar numa loja de desporto e comprar umas simples meias de corrida para serem utilizadas na próxima sessão é algo que funciona mesmo. Dá ao atleta um sentimento de maior auto-estima.

Claro que neste capítulo há as prendas e as “prendinhas” e se por vezes a aquisição de um bom par se sapatos, pode ser prenda super, por outras, um pequeno objecto de meia dúzia de euros pode assumir um significado de prazer extra inesquecível, bem ao estilo da criança que recebe um pequeno boneco para brincar.

No ano passado vivemos uma experiência semelhante. Havia muito trabalho na redacção do jornal e os nosso habituais 5 treinos por semana (cerca de 40 minutos de esforço) passaram a ficar com pouco interesse. Para tentar combater esta apatia fomos a uma loja de desporto à descoberta de algo que nos motivasse. Encontrámos um pequeno porta-chaves com uma mola para fixar aos calções. Tudo ficou por  apenas 2 euros. No treino seguinte colocamos a chave da viatura no pequeno porta-chaves para corredores e ficámos espantados pois a eterna questão de guardar as chaves nos calções desapareceu. O treino foi maravilhoso tínhamos um novo brinquedo … vezes uma ou outra competição mas sem grande motivação.

Para tentar modificar tudo isto, um dos “truques” pode ser, apenas e só, fixar um grande objectivo, digamos para daqui a dois meses. Um grande objectivo pode ser uma grande prova, algo que nos entusiasme, no país ou no estrangeiro, uma Meia ou até mesmo uma Maratona, talvez uma grande prova de Montanha, ou por que não a presença numa corrida de Milha!

A planificação a longo prazo pode ser a solução para combater a falta de motivação. Por exemplo, se a prova for daqui a 8 semanas, então quase como por magia, o atleta passa a encarar os treinos com outro cuidado, auto-motiva-se à medida que se aproxima o grande dia. Mas atenção não pode ser um pequeno objectivo, tem de ser uma grande coisa que nos faça empolgar!

UTILIZAR A DISTÂNCIA EM VEZ DO TEMPO – Ora aqui está outra solução bem simples. Se é certo que regra geral, os corredores fazem a maioria das suas sessões em função do tempo total, porque não, em certos treinos utilizar o factor distância? Em vez de marcar, à terça-feira vou correr durante 60 minutos, passar a marcar: 3 voltas ao circuito de 4 km. O tempo é desprezado e o factor importante passa a ser a distância.

Outra das soluções é continuar a correr em função do tempo de esforço mas quando faltarem, por exemplo, 10 minutos entrar num determinado circuito e fazer, por exemplo 4 voltas mais rápidas, mas sempre as mesmas voltas. São estes pequenos nadas que acabam por fazer com que o atleta esteja atento ao esforço, à passada, à respiração e não fique como que “adormecido” à espera que o tempo de corrida passe monotonamente.

CORRER COM AMIGOS – Nos Estados Unidos, cerca de 70% dos praticantes de corrida fazem-no sozinhos e julgamos que na Europa esta percentagem também andará muito próximo da realidade. Semana a semana o corredor vai para os seus treinos só, corre só e no fim não há qualquer convívio, qualquer troca de ideias. Nesta sequência e por muito que se goste de correr “consigo mesmo”, é mais fácil cair-se numa situação de monotonia.

A nossa sugestão é para que o atleta opte por efectuar ocasionalmente os treinos com alguns amigos. O esforço realiza-se mais facilmente, introduz-se uma nova variante, a conversa, já que a maioria das sessões dos corredores é feita em equilíbrio de oxigénio (pode-se falar durante minutos sem ficar ofegante … ). Há ainda outro detalhe, em grupo, mesmo todos estando bem calados, o ritmo das passadas parece ser mais bem “digerido”, vive-se em equipa, sente-se tudo como se fosse um grupo e este é, sem dúvida, um dos factores com que a maioria dos corredores solitários mais sente e que acaba por os levar a deixar de correr. Ao terminarmos, apenas um detalhe, “Quando não apetecer ir correr”, também pode ser útil ficar alguns dias sem nada fazer, sem sentir o chamado “cheiro a suor”.

Esta acalmia no esforço, pode ser apenas, e só, um alerta do nosso corpo para a necessidade de um tempo de repouso, de pausa, de mais tranquilidade, talvez um tempo de uma calma reflexão. Não é perigoso ficar alguns dias assim, pois quando se gosta mesmo de correr o “bichinho” está sempre dentro de nós e mais cedo ou mais tarde volta a “chamar-nos” para muitos e agradáveis.