Saber vencer os resultados

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Mesmo para os praticantes de corrida cujo objectivo passa mais pela manutenção do que pela competição, uma vez envolvidos numa prova, seja ela de que distância for, tudo é posto em jogo.Tal como afirma o grande especialista Joe Henderson, editor da revista “Runner’s World”, “quando o corredor coloca o dorsal na camisola, transforma-se mesmo numa pessoa diferente, mais competitiva, mais ansiosa, menos tolerante”.

É esta a realidade, quer o “voo” do atleta aponte para ritmos inferiores a 3 minutos por quilómetro ou se fixe em pachorrentos 6 minutos…

Uma vez terminada essa proposta de esforço máximo, podem surgir dois limites extremos: uma alegria esfuziante de quem conseguiu e até tenha ultrapassado os objectivos anteriormente fixados ou uma profunda desilusão que teve no abandono ou no péssimo resultado o espelho da sua actuação competitiva.

Não vamos analisar as causas do sucesso, vamos, sim, preocuparmo-nos com a questão dos maus resultados e saber, em termos gerais, , como poderá o desportista reagir quando isso lhe bate à porta.

Ao focarmos a questão dos maus resultados, não esta numa linha pessimista e, muito pelo contrário, a acreditar que, qualquer que seja o atleta, é sempre viável pensar-se em progressos agradáveis e em atingir objectivos superiores.

O nosso trabalho englobou dez aspectos que consideramos profundamente importantes e bom seria que os corredores, no final das más prestações desportivas, meditassem um pouco sobre a maneira como tem decorrido a sua vida atlética e os processos que poderão encontrar para “ficar na mó de cima”.

1. Logo após um esforço negativo, importa arranjar forças para não se ser abatido pela decepção. Claro que não é fácil, após três ou quatro meses de treino apurado, enfrentar um mau resultado de forma pacífica. No entanto, a primeira ideia a reter é que se tratou mesmo de uma experiência mal sucedida. As primeiras horas após o esforço são sempre as piores e é nessa altura que muitos atletas assumem atitudes irreflectidas, bem ao estilo de uma certa “vingança”.

Por exemplo, quem nunca fumou, pode fumar dois ou três cigarros seguidos, quem nunca saboreou álcool, resolve começar logo por recurso a whisky duplo … Perante um cenário de desilusão e nas primeiras horas que se seguem ao fracasso, o desportista deve actuar como e tudo tivesse decorrido normalmente.

Pensar em recuperar, tomar um bom  duche, alimentar-se convenientemente, hidratar-se de acordo com as perdas hídricas sofridas ao longo da prova, etc. Evitar sempre os chamados excessos negativos, que apenas conduzem a recuperações bastante difíceis e ainda irão acentuar mais os índices psicológicos da desilusão.

A chamada análise da prova, o estudo dos tempos de passagem e a tentativa de encontrar uma resposta para a má prestação desportiva deverão ficar para muito mais tarde, digamos, para o dia seguinte;

2. Se as primeiras 12 horas deverão ser centradas nos factores relacionados com a recuperação, tais como o sono, as refeições, a recuperação muscular, após esse período, ..normalmente no dia seguinte, importa perder bons minutos a tentar reflectir sobre a verdade das prova.

Não a verdade em termos de interpretação, mas sim a chamada verdade dos números e, para que tal aconteça, torna-se fundamental que o atleta ou o seu treinador tenham registado o maior número possível de dados referentes à competição: tempos de passagem, condições atmosféricas, grau de preparação e motivação, anomalias verificadas, tipo de alimentação seguida, etc. Logo numa análise dos tempos de passagem, os quais, como é normal, só terão valor se o atleta tiver participado numa competição com percurso devidamente aferido, é possível tirarem-se ilações quanto ao comportamento do corredor em plena competição.

Partidas demasiado rápidas, fracções de quilómetros intermediários percorridos acima do ritmo habitual, são indicações claras de que não foi enfrentada a presença na competição com a concentração devida. Aliás, essa é uma das principais razões que surgem logo que se procede a uma análise superficial.

O que se aconselha é que o atleta ou o treinador, tal como tiveram o cuidado de registar o maior número de elementos no dia da competição, façam-no agora, 24 horas depois, na análise dos dados, registando aquilo que pensam ter sucedido e susceptível de rectificação em futuras competições;

3. Peça extremamente importante para uma análise consciente dos maus resultados competitivos, e qualquer que seja o nível do desportista, é, sem dúvida, o seu Diário de Treino. Pequeno livro onde se anotam o tipo de treino efectuado em cada sessão e outros elementos, mais ou menos complexos, que se julguem oportunos.

Uma vez passadas várias semanas de preparação, treinador e atleta ficam na posse de um vastíssimo conjunto de dados que podem ser interpretados não só em termos estatísticos matemáticos como também noutras variantes comparativas.

Há que analisar cuidadosamente o tipo de treino efectuado na semana da má prova e tentar comparar essa semana com outras em que o comportamento do corredor tenha sido positivo. Regra geral, encontram-se dados curiosos, tanto centrados num grande volume de treino como em sessões excessivamente rápidas em termos de ritmo de corrida. A análise do Diário de Treino deverá ser feita em termos próprios de um aturado trabalho  de detective e o princípio a seguir é o utilizado por certas equipas de futebol: “em equipa que ganha não se mexe … “.

Para nós, corredores, se houve semanas de treino que nos possibilitaram boas provas, então talvez tenha havido alguma coisa nelas que é benéfico para a nossa preparação e, portanto, o melhor é tentar copiar e utilizar os mesmos processos;

4. Importa ver também a que nível foram colocados os objectivos previstos para a competição e que nos levaram a “carimbar” a nossa actuação como negativa. O grande campeão Emil Zatopek afirmava: Não é possível chegar ao terceiro andar sem passar pelo segundo e quanto mais degraus subirmos até lá chegar, maior será a certeza do caminho percorrido.

A previsão dos resultados nas provas longas é tarefa que requer alguns conhecimentos teóricos, principalmente muita moderação e cautela, pois as previsões muito optimistas acabam várias vezes por se transformar em maus resultados.

5. Factor que condiciona frequentemente a obtenção de marcas é a questão do repouso. Há que equacionar este aspecto, atendendo a que mesmo o melhor plano de treino vai dar resultados negativos caso o desportista não tenha tido o repouso suficiente. Note-se que não estamos a focar apenas o número de horas de sono, mas sim a questão do trabalho profissional e das horas de relax em cada dia. O sono funciona para o desportista como um recarregar de pilhas e de nada valerá aumentar-se o número de horas de preparação se não houver o cuidado de compensar tudo com o aumento da duração dos períodos no que diz respeito A ao repouso.

6. Equacionar, igualmente, a questão da motivação! Ver até que ponto é que se participou na corrida com grande interesse no resultado. Na problemática da motivação poderá estar em jogo a questão do traçado, da data da prova, dos  adversários, das condições atmosféricas, etc. Por exemplo, se um corredor detesta correr à chuva, é muito natural que o seu rendimento nesses dias seja afectado de forma significativa. Para quem não gosta de percursos acidentados, a participação

Não é possível chegar ao terceiro andar sem passar pelo segundo e quanto mais degraus subirmos até lá chegar, maior será a certeza do caminho percorrido
Emil Zatopek

numa prova de montanha poderá ser “prenda” nada atraente e, muitas vezes por razões de pressão clubística, os atletas são obrigados a participar em competições pelas quais não manifestam qualquer interesse.

Em paralelo, vamos encontrar, igualmente, a questão do número de provas participadas em cada época e todos compreenderão ser absolutamente diferente o estado de espírito de um “indivíduo que tem no seu programa apenas seis provas por temporada, comparativamente a um seu colega que tenha agendado estar presente em duas ou três dezenas de corridas;

7. Ponto negro, também pode ser não a má prova que se disputou, mas sim o local habitual dos treinos, pois não podemos esquecer a existência de desportistas que, durante meses, e até anos, frequentem o mesmo estádio, pisam os mesmos trilhos, conhecem de cor cada página do percurso, passando a constituir a corrida não um momento especial de alegria, de prazer, para se transformar em algo rotineiro, quase muito próximo de trabalho adequado a linha de montagem fabril.

Variar os processos, os métodos, os percursos, e tudo o que está relacionado com o treino, pode traduzir-se em bons resultados. Pode ser extremamente muito vantajoso passar um fim-de-semana prolongado em local que possibilite treinos aprazíveis, “arejando-nos” as ideias e transmitindo novo fôlego para enfrentar as semanas seguintes de preparação com uma disposição bem diferente.

A terminar este ponto, lembramos, uma vez mais, que os registos fixados no Diário de Treino podem significar a chave para os enigmas de uma má prova, mas o problema é que, segundo os dados estatísticos, apenas cerca de 30% dos corredores têm o cuidado de registar os seus treinos …

8. Como é do conhecimento geral, a maioria dos que gostam de correr não têm treinador, mas se o mau resultado preocupa o amante da corrida, então a solução poderá estar no recurso aos conselhos de alguém melhor informado.

“Faça você mesmo”, é processo a que se recorre, não só em termos de bricolage como também noutras actividades. O problema surge quando se fazem as coisas de forma errada. Se for numa instalação eléctrica, nunca mais teremos luz; se for no nosso plano de treino … o corpo é que paga! Portanto, a aproximação a um treinador ou a alguém possuidor de certos conhecimentos torna-se vital para se conseguir atingir bons resultados.

9. Há quem pense que o treino é coisa para os músculos, coisa com muito suor à mistura e desprezando tudo o resto … Poucos são os que se dedicam à prática da corrida que enfrentam o “treino do cérebro” como algo profundamente importante. Treino do cérebro? .. Bem, a questão deverá ser posta em termos de uma certa rotina de trabalho cerebral. Por exemplo, a introspecção do treino que se vai executar em determinada tarde pode constituir um bom princípio e irá ocupar menos de cinco minutos do tempo de qualquer desportista, que começará a pensar: Vou chegar ao estádio, equipar enquanto observo quem vem chegando para o treino, dou umas voltinhas de aquecimento e, depois, vou para a estrada da vala do norte, talvez com o Rui, se ele lá estiver, ou com o Pedro, que é de permanência garantida …

No cruzamento, se já tiver atingido os 20 minutos de corrida, volto para trás e, se não estiver muito trânsito, volto pela alameda. No final, passo pelo ginásio para fazer um pouco de musculação e volto para o balneário.

Isto é um exemplo de um certo tipo de um treino do cérebro que pode ser feito antes, horas antes, de chegarmos ao estádio. No fim, tudo não passa de um simples imaginar de situação, mas terá de haver um esforço por parte do atleta tendente a repetir-se em cada dia destinado a preparação. No dia da prova, também se deve proceder da mesma maneira e quanto mais elaborado, quando mais imaginativo e prolongado por este “filme”, mais confiante irá o corredor para a competição que se avizinha.

Em termos práticos, a confiança advém do facto de ele já “saber’ que vai acontecer, minuto a minuto, passada a passada … Claro que no dia da prova pode ser que tudo não aconteça da mesma maneira e venham imprevistos, surjam pequenas coisas, mas, o essencial é que o comportamento do atleta vai ter uma base positiva;

10. A competição nunca pode representar uma fatalidade. O desportista não é nenhuma máquina e as suas reacções, o seu comportamento, podem ser alterados em cada segundo de esforço. Em certa medida, o corredor é como que um piloto de um super avião muito mais sofisticado do que qualquer nave da actualidade.

Em plena corrida, “pilotando a sua máquina”, ele pode controlar todo o esforço e não esperar, como se tratasse de uma fatalidade, que as suas reservas se esgotem ou que a temperatura do seu corpo aumente drasticamente … Todavia, há um senão: o piloto do avião dispõe de um enorme painel de mostradores e de luzes que o avisam ao mínimo sinal de alteração, enquanto que o atleta não tem essa aparelhagem ao seu dispor … Do que dispõe, é, isso sim, da arte de saber escutar o seu corpo e isso acontece não por uma simples questão de manómetros, mas de sensações muito finas que só poderão ser assimiladas através de um conjunto de experiências em que o erro e a certeza estão intimamente ligados. Lembremos de uma passagem da filosofia budista:

A flecha que acerta no olho do touro é o resultado de 100 erros!.
O corredor deve aprender a escutar o seu corpo nos treinos, nas provas, no dia-a-dia, e aprender, igualmente, a actuar logo, tal como se estivesse aos comandos de um avião. Ah, em quantas e quantas provas temos observado que muitos dos seus intervenientes, os corredores, arrastam-se até à meta como se já não fosse possível modificar a trajectória do seu avião …•