Será que correr é moda?

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Há quem diga que correr é moda. Uma coisa passageira. Que a maioria das pessoas diz que corre porque é algo chique e que agrega valor à imagem. Dá status. Mas será mesmo este o principal motivador da maioria dos corredores?

Bom dia normal, às 6hlOh da manhã no Parque do Ibirapuera, com temperatura de seis graus e muito vento, o estacionamento esta a lotado e muita gente fazia ali o seu jogging matinal.
“Que raio de moda é esta que consegue arrancar o povo da cama de madrugada, para encarar esta temperatura e depois ir trabalhar feliz. Que moda é esta que leva o cidadão a vestir calções e correr no frio após um dia bem tenso de trabalho. Será que estas pessoas que dizem que correr é moda têm alguma ideia dos benefícios físicos, mentais e espirituais que obtemos com a nossa corrida diária, mesmo que nós mortais corredores estejamos imensamente distantes da velocidade dos atletas olímpicos7”, perguntou-se um treinador popular.

Benefícios da corrida

Correr faz diminuir o colesterol mau (lDl), aumentar o colesterol bom (HDl), diminuir apressão arterial e o número de batimentos cardíacos por minuto, tornando o coração mais eficiente. Faz a pessoa perder peso, desde que não coma muito mais do que o normal, achando que por correr pode comer feito um leão.
Faz a taxa de açúcar no sangue ficar mais equilibrada. A musculatura ficar com melhor tónus, os ossos mais fortes. Melhora a oxigenação cerebral,melhorando a capacidade de raciocínio.

Deixa a pessoa menos stressada. Além disso, estimula as funções hormonais, fazendo a pessoa ficar bem mais disposta para a vida e portanto; mais produtiva em tudo o que faz. Amplia a rede de relacionamentos, podendo facilitar uma recolocação ou uma melhor colocação no mercado de trabalho, um bom negócio, um namoro, casamento e por aí fora. Correr melhora a auro-estima, já que além de adquirir um corpo mais esguio e com menor taxa de gordura, com os treinos e provas, o indivíduo fica mais persistente e sabe que é capaz de superar barreiras até então inimagináveis.

Enfim, são diversos os benefícios que vão muito além da possibilidade, que para a maioria é remota, de ser o primeiro, segundo ou terceiro colocado numa corrida.

Realidade brasileira

Segundo dados da Federação Paulista de Atletismo, o número de corridas de rua oficiais em São Paulo cresceu de II para 287 em dez anos. O número de inscritos em 2004, época que iniciou a contagem, subiu de 146.022 para 416 2I O em 2O10. Que moda esta que cresce em percentagens tão significativas’ E que moda é esta que, segundo a professora Martha Maria DaIlari em sua defesa da tese de doutoramento pela Universidade de São Paulo, teve o seu
boom no Brasil há já cerca de 30 anos e continua crescendo’ A São Silvestre tem 86 anos e continua fazendo muito sucesso.

Correr para nós é um estilo de vida. Um prazer que faz dos nossos dias algo muito melhore nossas vidas muito mais felizes

Quando ser surfista era moda

Há uns anos atrás, no Brasil, era moda ser surfista. Os surfistas faziam muito sucesso entre as garotas e as lojas de Surf Wear estavam cheias. O tempo passou, muita gente deixou de pegar, de tentar pegar ou de fingir que pegava onda, mas hoje vou à praia em pleno inverno e vejo um monte de “loucos” dentro do mar com as suas pranchas, passando o dia inteiro dentro daquela água para lá de fria, esperando muitas vezes por horas, uma onda ou outra que os permita o enorme prazer de surfar. Há individuas que já foram ao Peru, Austrália e a tantos outros lugares do mundo, investindo muito financeiramente e deixando muitas outras coisas importantes de lado por um período, na
procura pelas melhores ondas. Passou a moda e ficou o estilo de vida.

Para o surf é necessário uma prancha, no mínimo uma tábua que não quebre e nem que sejam, ondas mínimas.
Para correr, apenas uns bons ténis, uma boa orientação para não se lesionar e disposição, pois até preso durante dois meses dentro de uma mina de carvão, o corredor chileno Edson Pena fazia os seus dez quilómetros diários!

Assim como aconteceu com os surfistas.! os que correm por moda, ou gostarão e não pararão mais. ou realmente procurarão outra actividades, mas aposto que será uma !

Assim como os surfistas são  loucos pelos que não fazem parte das suas tribos, nós corredores também somos pelos que não fazem parte da nossa. Para estes, correr pode parecer mais uma moda. Para nós é um estilo de vida. Uma coisa que pode contaminar e não haver mais nada no mundo que consiga separar-nos dela. Um amor misturado com paixão. Um prazer que faz dos nossos dias algo muito melhor e nossas vidas muito mais felizes. Se correr é moda, que desfilemos cada vez mais nossos ténis, nossas roupas, nossos corpos e sorrisos pelas ruas, avenidas, praças, campos e parques de nossa cidade e do mundo!

Realidade portuguesa

Embora a estrutura que tutela o atletismo em Portugal não possua quaisquer dados organizados sobre o número de competições e de corredores, a Revista Atletismo já coleccionou dados que permitem verificar que a corrida é mesmo uma moda.
Assim, se recordarmos os trabalhos apresentados na edição nO361 (Dezembro de 2011) e, depois, os ‘lankings” a meio da época disponibilizados no sítio da Revista Atletismo na internet, verificamos melhor as subidas. Em termos
de provas, estima-se que haja mais que cinco centenas de iniciativas, todas de diferentes níveis.

Nós, demos maior atenção às competições com mais de mil concorrentes (e deixamos de fora muitas minis e caminhadas com quase o dobro dos participantes!) e verificamos que, neste item superior a mil, entre 2009 (52615)
e 2011 (73995), se registaram mais 21380 participantes! E, de acordo com os dados a meio da época, temos a certeza de que os números apresentados subirão ainda mais.

Não poderemos esquecer as redes sociais, e por vezes a necessidade de alguns colocarem a sua própria imagem, que gera por vezes centenas de Likes.

Prova em prova, todos os recordes são batidos, recortes de participação, já que os recordes de tempo, deixaram de ser superados. Caso é a meia maratona da Nazaré. Em 2001, abaixo da marca 1h20 ficaram 139 atletas. Em 2013 abaixo desse tempo tivemos apenas 27 atletas.

Temos mais praticantes e menos atletas, uma realidade no atletismo português.

Texto: Manuel Segueira