Sou feliz.

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“Senhor Eduardo, não se pode mexer assim. Está sujeito a ficar numa cadeira de rodas para o resto da vida!”, dizia uma enfermeira espanhola para o meu vizinho da cama ao lado com várias costelas partidas e problemas de coluna. Este era o seu melhor “portunhol”, aprendido no seu curso intensivo. “Bem, também há pessoas felizes e andam de cadeiras de rodas …”, rematou a sua colega com sotaque alentejano.

Eu também fui feliz quando me autorizaram a saída da cama e a passar para uma cadeira de rodas.

Fui feliz quando passei a andar com duas canadianas. Fui feliz quando vim para casa e da minha janela invejava os que passavam na minha rua, mesmo coxos, ou todos tortos. Fui feliz quando passei a andar só com uma canadiana. Fui feliz quando dei os primeiros passos e corri às escondidas do fisioterapeuta, dois minutos no tapete rolante.

Chorei na manhã do dia quatro de junho, quando deitado na cama sem autorização para me mexer, olhava para a colina em frente. Estava um dia lindo e a essa hora estava a dar-se o início da corrida da “Chessol”. Eu estava inscrito.

Fui feliz quando comecei a correr. Devagar, é verdade. Os “Kágados ” também são felizes, tenho a certeza. Fui feliz, quando sózinho e debaixo de chuva fui bater palmas à Serra de Sintra a todos os atletas da corrida do “Fim da Europa”. As canadianas estavam no carro. Fui feliz, apesar de ter apanhado uma grande molha, a aplaudir os atletas da “Corrida dos Sinos”.

Fui feliz quando fui fazer a “rapidinha” a Cascais. Fui feliz quando fui fazer a prova de turistas a Manteigas. Sou feliz porque me levanto à hora que me apetece e vou correr para a Serra de Sintra. Sou só eu e a Natureza. Nem carros, nem motas, nem cães.

De vez em quando um turista, com o seu ar misto de curioso e de aplauso. Lá me envia o seu “Hello”. Sou feliz porque não tenho de ir para a bicha do comboio. Ter que ir trabalhar. Cumprir horários. Aturar as exigências dos pseudo-patrões, com os seus objectivos a atingir, ou melhor ainda, a ultrapassar. Ter que ir aturar as sacanices dos colegas e eles as minhas, porque também não sou nenhum santo. Aturar os clientes cada vez mais exigentes.

Obrigado mas sou feliz assim. Tal como dizia a enfermeira, há pessoas felizes, mesmo que estejam em cadeiras de rodas …

Manuel Lopes Ribeiro