Porque surgem as lesões?

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Estamos em plena época de corridas pedestres, umas, com o betão e o asfalto por cenário, como desejosas de não fugir do ambiente citadino a que, muitos dos seus intérpretes estão habituados; outras, que alteram tal estatuto com a inclusão de pisos menos agrestes em certos troços dos percursos, talvez em auxílio da estrutura muscular dos participantes; outras, ainda, e cada vez com maior pujança, que mudam o título de “Corrida” pelo de “Trail” e, ao contrário das suas cosmopolitas companheiras, preferem ambientes campesinos, onde a natureza se faz sentir em toda a sua plenitude, exigindo a quem a procura elevado sentido de orientação e espírito aventureiro.

É evidente que o período de corridas também é extensivo a outras variantes de participação, já que a imaginação dos organizadores, como é sabido e tantas vezes recordamos, “não tem limites” e, actualmente, também as chamadas supermaratonas em regiões desérticas têm o seu clima especial para apresentação, igualmente com a exigência do mesmo poder de orientação e espírito de Aventura, sem esquecer a participação em regime de auto-suficiência.

O período convencionado para a prática da modalidade, e sem que se conheça o seu autor, é entre Setembro e Julho, o que não serve de obstáculo a qualquer organização que prefira os meses de calor sem receio de menor número de corredores na partida. As corridas em praias são um bom exemplo disso e a presença de atletas é sempre numerosa, a comprovar que todos os 12 meses do ano propiciam o prazer que a modalidade nos oferece.

Todavia, os muitos milhares de corredores existentes por esse mundo fora, seja qual for a sua preferência no tipo de prova em que participam, possuem uma preocupação generalizada: o de ficarem lesionados, um flagelo que poucos são os que o desconhecem e susceptível de obrigar a interrupções não desejadas. Algumas, mercê da reduzida gravidade da lesão e do cuidado do corredor em detectar os sinais dados pelo seu Corpo, resumem-se a paragens por pequenos períodos; outras, porém, por apresentarem maior gravidade, obrigam os atletas a’ suspender a actividade desportiva por largos períodos, e até mesmo a sua proibição.

O PROBLEMA DAS LESÕES …

Dizem os últimos dados estatísticos sobre a prática da Corrida, infelizmente não muito actualizados, que quase 72% dos seus adeptos são vitimados anualmente por lesões, um número que, ‘em nossa opinião, não pecará por excesso, antes pelo contrário, por não abranger muitas das chamadas pequenas lesões ‘passageiras que quase todos os corredores sentem ao longo da carreira desportiva. Devemos salientar que a perspectiva de uma possível redução, nos próximos anos, dos referidos 72% é muito duvidosa, sobretudo porque, se nos lembrarmos que os actuais corredores das classes de veteranos constituem o sector mais entusiasta da modalidade, facto comprovado pela supremacia registada na composição dos actuais pelotões, é de crer que o consequente aumento das idades conduza à inevitável redução das condições físicas dos, intervenientes e, portanto, mais hipóteses de, lesões podem surgir. ‘ Como evitar tal situação?

Como procurar reduzir, tanto quanto possível, o frequente risco das lesões no sector da Cortar’ Duas questões que os seus adeptos apresentam a si próprios, receosos, muitos deles, da repetição de situações por que já passaram, algumas delas bem dolorosas e impeditivas de agradáveis passadas, enquanto outros, menos afortunados, lamentam as paragens a que estão obrigados e a falta dos benefícios do seu desporto preferido.

Com o objectivo de contribuir para a, redução de tal problema e certeza ‘de ir ao encontro do desejo dos entusiastas da Corrida, elaboramos.o“presente texto. Para alguns” leitores-corredores mais jovens, até agora imunes a lesões, é natural um certo encolher de   ombros e a errada convicção de ser tema que “lhes passa ao lado”.

É conclusão que não se aconselha, e embora façamos votos para que continuem uns “felizardos” até ao fim da sua permanência na modalidade, é de crer que, mais dia, menos dia, irão figurar na longa percentagem dos menos protegidos por tal “sorte”. Quanto aos atletas mais experientes, alguns deles bem conhecedores do, que representam as lesões, as linhas que se seguem poderão constituir um alerta constantes metódico para certos cuidados inerentes à prática decorrida, que todos desejam isenta de complicações, sobretudo as que influenciam o nível da condição física de cada um.

EVENTUAIS PEQUENOS ERROS NA PLANIFICAÇÃO DO TREINO

Estamos perante uma das principais razões da existência de corredores lesionados e os dados estatísticos apontam mesmo para uma influência de 62% nas causas.do problema.

Se pensarmos que tais elementos são colhidos por instituições estrangeiras dedicadas ao estudo das muitas facetas da modalidade, portanto, em situação bem avançada e diferente do que se passa entre nós e, igualmente, com existência de treinadores em número muito superior, é de supor que o valor indicado. Não ‘corresponda ao que se passa em Portugal, onde a maioria de quem corre não tem orientador e são os próprios interessados a preparar os ‘seus esquemas de treino.

Daí, os inevitáveis erros por falta de conhecimentos. Se a situação é grave quando se abraça a modalidade em idade jovem, mais será se o escalão etário do novo atleta estiver próximo da, área dos veteranos! …

1- Progressão Qualquer que seja o sector da sociedade em’ que se esteja inserido, é fundamental a existência de’ um bom princípio.

Na Corrida, essa norma ocupa lugar destacado era ser esquecida, é quase certo que os problemas não se farão esperar, Compreende-se que, antes de correr,haja que pensar em’ saber caminhar durante vários quilómetros, coisa que, no nosso mundo actual, poucos fazem dada, a facilidade de deslocação motorizada. Depois; , o ‘aumento semanal da quilometragem a percorrer tem de ser gradual, progressivo, e nunca com alterações bruscas no seu volume e nas distâncias. O corpo humano fica muito mais sujeito a lesões e de stresse sempre que lhe são exigidos bruscamente esforços de nível superior aos que estava habituado, pormenor extensivo, igualmente, ao caso de interrupção temporária, mesmo por poucos dias, das sessões de treino. Recomeçar a treinar é sinónimo de que se começa, de novo e, assim, justificam-se os cuidados quanto a alterações repentinas DO regime de preparação seguido até aí. Recorde-se que, segundo os especialistas, uma semana de paragem na modalidade representa, grosso modo, várias outras semanas de treino até se atingir o nível anterior.

2 – Frequência Para se conseguir um completo “retorno à calma” sempre que termina um esforço, tanto, em competição como em treinos, e com o fito de melhor assimilação do organismo, é aconselhável executar alguns exercícios de flexibilidade durante poucos minutos, em clima de calma e descontracção, e sem grandes e repetidas insistências.

Não esquecer, também, que no esquema de preparação semanal deve constar sempre uma sessão forte depois de outra fraca, porque está provado que, sob o ponto de vista fisiológico, é exactamente essa variação nas cargas “trabalho-repouso” que melhores resultados desportivos possibilita a muitos atletas.

3 – Distância a Percorrer Qualquer corredor cuja sessão de treino não ultrapasse, por exemplo, um total de 10 ou 12 km, nunca deve, em determinado dia, aumentar tal distância de forma muito significativa. Esse objectivo só deve ser posto em prática depois de muita quilometragem percorrida, ou seja, depois do atleta se encontrar devidamente rodado e sempre através de etapas progressivas. Aliás, esforços de duas horas de corrida contínua, é algo merecedor de atenção, mas só deve abranger potenciais candidatos a maratonistas.

4 -Tempo Disponível para Correr Saber utilizar de forma adequada a disponibilidade de tempo para treinar, permitida pela actividade profissional e outros compromissos, é arte bem difícil de pôr em prática e ninguém pode fazê-lo melhor do que o próprio interessado. Actualmente, é muito frequente observarmos corredores em acção a qualquer hora do dia, e quanto às boas e más horas para se, correr com melhor perigo quanto ao aparecimento de lesões, é, sem dúvida, ao fim da tarde, por exemplo, às 19/20 horas, período em que a estrutura muscular está muito mais exercitada, devido às ‘actividades normais do dia. Sobretudo nas cidades principais, a utilização de tal horário para praticar corrida, tem o inconveniente do aumento de trânsito,  do regresso a casa de grande parte da popolação.

Fica-se, portanto, mais sujeito a’, acidentes, e como estes também originam lesões, muitas vezes de maior gravidade do que as habituais nos desportistas, conclui-se que a escolha do horário de treino é assunto de natureza bem pessoal. De qualquer forma, haja treino às 5 ou ~ horas da manhã, no intervalo para o almoço ou à noite, pensar na flexibilidade é medida bem útil. Escassos 8 ou 10 minutos de corrida lenta, alguns exercícios… e as hipóteses de lesão ficam um pouco mais longe!

5 – Intensidade Aqui está uma fase, do treino de corrida em que a utilização de velocidades exageradas, mesmo por períodos curtos, pode originar lesões com muita facilidade. Há que respeitar sempre, mas mesmo sempre, o princípio da progressão das cargas de intensidade ao longo de cada ciclo de treino semanal, tal como não se deve reduzir a atenção sobre o aumento brusco do ritmo e o comprimento das passadas.

É sempre muito agradável observar-se alguém a correr com um tipo de passada bem larga, elástica, mas, mais uma vez, repetimos que são necessários muitos meses de treino para se atingir esse nível atlético.

ERROS DURANTE A COrridaDA

Tal como ninguém pode ser 100% perfeito naquilo que executa, é’ absolutamente natural que a perfeição também não exista no Desporto, muito embora nos proporcione momentos de ‘ rara beleza

1- Passada de Tipo Rasante Quanto maior for a experiência do corredor, mais rasante será a sua passada, de que resulta a utilização de um estilo muito económico e, como é compreensível, capaz de proporcionar melhores resultados desportivos, sobretudo se se tratar de especialista em provas com mais de 5 km: Qualquer corredor, seja qual for o seu nível atlético, deve procurar melhorar esta característica no seu estilo de corrida, tan to mais que, para além da economia de esforço que origina, contribui em razoável escala para evitar alguns tipos de lesão.

2 – Correr na Zona Central da Via É sabido que, regra geral, as estradas, asfaltadas não têm um piso totalmente plano, mas, sim, ligeiras diferenças para menos consoante a aproximação das zonas laterais. Supomos que a ideia é o melhor escoamento da água da chuva e evitar-se aquilo a que se chama “aquaplanagem”. Todavia, se, a medida é óptima para a  segurança dos que conduzem,o mesmo não acontece aos que correm, muitos, deles a preferirem fazê-lo na beira da estrada, num desejo de fuga a possíveis acidentes, más; infelizmente, a pisar o risco de possível lesão, ‘ pois essa forma abaulada do piso utilizado obriga o corredor a tocar o solo com os pés a alturas diferente.

Perante o problema, depreende-se que, não obstante maior risco de acidente, sobretudo se, quando em competição, o trânsito não estiver fechado, o ideal será correr na zona mais central da estrada ou, pelo menos, em local onde a diferença da “inclinação” seja ainda muito pequena. Na hipótese de estrada com pouca largura, grande participação de atletas e percurso de ida e volta, uma situação frequente em provas realizadas fora das cidades, a solução é fazer um percurso no lado direito e o regresso no lado esquerdo, “distribuindo-se”, assim, o problema por ambas as pernas. Compreender-se-á bem a importância de se evitar a beira das estradas se pensarmos que, por exemplo, correr 10 km a necessitar que uma perna “seja mais comprida” do que a outra, tem de ser excelente via para que tendões e músculos acusem toda a irregularidade de tais cargas, surgidas extras programa e sem que o corredor lhe atribua grande atenção]. ..

OS FATORES MORFOLÓGICOS

Não obstante os praticantes desportivos, depois de consulta médica de clínica geral, serem normalmente considerados aptos e sem problemas de maior, a verdade é que todos nós somos diferentes uns dos outros, através de pequenas variações e ínfimas particularidades, as quais, em ‘termos de prática desportiva regular, pode ser definido como, fatoresmorfológicos individuais. Quando se trata de um corredor, importa lembrar os seguintes pontos, todos eles susceptíveis de originar lesões com o acumular da quilometragem.

1 – Excesso de Peso É absolutamente compreensível que fazer deslocar qualquer corpo, humano ou de outra natureza, de um lugar.Para, o outro,Exige sempre um determinado esforço, que deve estar sempre de harmonia com a carga a movimentar. “Se esta se apresenta, em certa altura, sinais pesada, o esforço necessário para a sua movimentação terá de ser maior. Trata-se de um exemplo que não suscitará dúvidas a ninguém! Porém, o nosso problema prende-se com os corredores e estes, quase sempre por desleixo – ou excessos, apresentam, de vez em quando, uns quilinhos a mais que irão obrigar ao aumento do esforço que terão de fazer, para a sua habitual. corrida. ‘Quem vai suportar tal aumento? Sempre o seu próprio organismo, através de toda a estrutura envolvida na acção, a qual ficará com bons motivos para se queixar … E o único recurso que conhece para o fazer é através da lesão.

2 – Comprimento Desigual das Pernas Parece que reportamos’ de novo o problema focado antes quanto a corrida na berma das estradas asfaltadas. Aí, pode o atleta evitar o perigo de contrair lesão, 2 – Comprimento Desigual das Pernas Parece que reportamos’ de novo o problema focado antes quanto a corrida na berma das estradas asfaltadas. Aí, pode o atleta evitar o perigo de contrair lesão, medida que não lhe é possível tomar na situação de ter os membros inferiores diferentes no comprimento. Correr em tais condições é porta aberta a ficar-se lesionado, mesmo que a, diferença não ultrapasse’ os 3 ou 4 milímetros. Segundo os últimos dados estatísticos em 73% dos casos a perna mais comprida é a primeira a lesionar-se, não na sua totalidade, como é lógico, mas, sim, ao nível do tibiotársico, joelho e bacia. Portanto, há que prestar a devida atenção a este problema e, ao primeiro sinal de que algo não está bem, procurar saber se a causa não poderá estar no comprimento das pernas.

3 – Joelho  Definição que se traduz por uma posição das pernas em forma de, resultante, na maioria das situações, da deficiência no, alinhamento dos membros inferiores, tanto ao nível da torção externa das tíbias como do conhecido problema dos pés chatos, para. Citarmos apenas alguns casos. Na hipótese de surgir qualquer sinal de lesão nos pontos referidos, é conveniente consultar um especialista, na tentativa de encontrar a melhor posição de -locomoção, a qual, muitas vezes, passa pela simples correcção dos sapatos.medida que não lhe é possível tomar na situação de ter os membros inferiores diferentes no comprimento. Correr em tais condições é porta aberta a ficarse lesionado, mesmo que a, diferença não ultrapasse’ os 3 ou 4 milímetros. Segundo os últimos- dados estatisticos em 73% dos casos a perna mais comprida é a primeira a lesionar-se, não na sua totalidade, como é lógico, mas, sim, ao nível do tíbio-társico, joelho e bacia. Portanto, há que prestar a devida atenção a este problema e, ao primeiro sinal de que algo não está bem, procurar saber se a causa não poderá estar no comprimento das pernas.

3 – Joelho Valgum Definição que se traduz por uma posição das pernas em forma de X, resultante, na maioria das situações, da deficiência no , alinhamento dos membros inferiores, tanto ao nível da torção externa das tíbias como do couhecido problema dos pés chatos, para. citarmos apenas alguns casos. Na hipótese de surgir qualquer sinal de lesão nos pontos referidos, é conveniente consultar um especialista, na tentativa de encontrar a melhor posição de -locomoção, a qual, muitas vezes, passa pela simples correção dos sapatos.

Nunca será exagero prestar a maior atenção à protecção e conforto dos nossos pés, como base essencial para a prática desportiva que tanto apreciamos… e não só! Bendigamos, portanto, o muito que já escrevemos sobre os sapatos, na certeza de que o assunto continuará a estar presente.

1- Sapatos Inadaptados Infelizmente, estamos perante uma situação quase generada ,. na maioria dos corredores, e .raros são aqueles que podem afirmar ter os seus pés correctamente protegidos. note-se que tal protecção terá de considerar vários tipos de particularidades, como, por exemplo, a morfologia do pé, o tipo de passada que se usa, o piso mais utilizado, o total de quilómetros percorridos em cada semana, etc. Dedicar atenção aos sapatos que se usam para correr, é norma a não esquecer pelos seus utilizadores, com a ideia, sempre presente de que as lesões nos pés, regra geral, são bem dolorosas, frequentes e de tratamento prolongado.

Quanto à aquisição de sapatos para correr, lembramos ser fácil encontrar nas principais lojas de material desportivo folhetos elucidativos das características de cada modelo, que podem ajudar a uma escolha mais adequada aos desejos dos interessados.

2 – Novos ou Usados Aproveitar os treinos para alternar a utilização de sapatos já usados com os novos, é medida que se aconselha, assim como nunca estrear calçado novo em treinos e muito menos em competições, mas, sim, em simples passeios, prolongando à experiência por vários dias, para que o calçado fique, como se diz, “feito” aos pés. , Quanto aos sapatos usados, há que vigiar: o desgaste que-apresentam, sobretudo os mais utilizados, para evitar que uma ou outra zona – dos pés não esteja a ser devidamente protegida nos seus constantes impactos com o solo. –

ATENÇÃO AOS EXCESSOS… É necessário evitar os excessos, sejam eles na alimentação ou nos programas de treino muito exigentes, que não deixam qualquer porta aberta ao prazer e à criatividade individual.  Por David Martin

Revista SPIRIDON