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Expliquei lhe que vou estar duas noites em modo sobrevivência, no mato, com desconhecidos, com um limite de itens obrigatórios, onde não vai haver comida a não ser que a apanhe (vou comer o que a natureza tiver para oferecer) não vai haver casa a não ser que a construa, não vai haver wc, não vai haver telemóvel nem família por perto (este aspecto sim está me a fazer alguma confusão), vou aprender a conhecer plantas, a caçar e a pescar, aprender orientação nocturna e diurna, vou tentar construir a minha própria cama, vou tentar aprender tudo, assimilar ao máximo.

Não durmo bem desde o dia que me inscrevi (há mais de duas semanas), a ansiedade é imensa e está a tomar conta de mim, aumenta a cada dia. Se podia ficar quieta em casa… Podia, mas não consigo estar parada. ainda bem
A mochila está pronta e ainda falta uma semana. Sou assim e não consigo mudar… Desta vez a aventura será sozinha (marido e filha ficam em casa).
Ahh não sei se já disse que sou viciada no “Alone” e que acredito em séries do género do Walking dead…Que acredito que o mundo tal como o conhecemos vai acabar aos poucos e que vai ser cada um por si. Preciso aprender, preciso preparar me ou pelo menos tentar, preciso testar me e assim vou entrar nesta aventura…

dia 21

Sexta feira vou entrar em sobrevivência! Inscrevi -me num curso de 44 horas longe de tudo a que estou habituada e que damos como certas no nosso dia a dia: o conforto da nossa casa, o quente da cama á noite, um banho, o entrar na cozinha a qualquer hora e pegar o que me apetecer comer….
Quando a Rita andava para ai no 6 ou 7 ano disse me um dia, mãe devíamos ter cá em casa um kit de sobrevivência (comida, agua, lanterna, primeiros socorros) coisas que nos possam ajudar numa emergência ou e houver alguma catástrofe natural. Eu concordei e fizemo -lo de imediato.
Adoro series que me mostrem como fazer uma ligação directa, como montar uma armadilha, como através de uns paus construir um abrigo estável, como contornar diversos problemas com poucos recursos.
Depois há a questão das corridas do Paulo, que são cada vez mais em sítios perigosos, ás vezes longe dos primeiros socorros rápidos… e depois há o facto de estarmos a caminhar para “o cada um por si”, para o “salve-se quem puder”, as vezes damos por nos a fazer filmes na nossa cabeça se em caso de uma epidemia, invasões…
É isso que pretendo aprender. tenho uma lista de meia dúzia de itens obrigatórios que vou levar:
Uma faca de mato, uma manta térmica, um cantil, um copo de metal, um rolo de fio norte e uma lona…e o resto, a natureza e o meio que me vai rodear, irá providenciar.
Não sei o que vou comer, não sei onde vou dormir. Ok, não vou dormir, afinal não vou ter paredes para me proteger e o mais pequeno ruido do mais insignificante animal irá parecer o rugido do mais feroz dos animais.
Sempre quis uma aventura assim… agora que ela é real e se aproxima a passos largos o receio assola-me: e se chover o fim de semana todo e se tiver demasiado frio (dou me muito mal com baixas temperaturas e ter os pés molhados e sinal de não mais recuperar a temperatura corporal)

No sábado, no ginásio, depois do treino em conversa de balneário contei o que ia fazer. As reacções foram as mais diversas; Como tens coragem? Dormir no meio de bichos? No mato? Ao frio? Mas levas comida? Levas o Paulo e a Rita? Mas porque o vais fazer?? Qual a necessidade de te meteres nisso?
A necessidade acima de tudo é a curiosidade de aprender, de ser posta a prova, de descobrir como o meu corpo e eu vamos reagir em situações extremas.
Tenho alguns receios e um deles é um medo pavoroso que tenho de gafanhotos, nem quero imaginar o que será se me aparece uma coisa dessas á frente ( se for um daqueles pequenos ainda é tolerável, agora os grandes??? Meu Deus) ou se me dizem que é uma excelente fonte de proteína?
felizmente tenho um reserva de gordura abdominal que me dará para dois dias de certeza .)

Para a semana e se sobreviver… conto-vos como correu, até lá… já estou a dar mais valor a certas coisas básicas… parece que já esta a resultar …

Em caso de pânico pode-se morrer em 3 segundos;
Em caso de hemorragia pode-se morrer em 3 minutos;
Sem um abrigo pode-se morrer em 3 horas;
Sem água pode-se morrer em 3 dias;
Sem comida pode-se morrer em 3 semanas.

dia 25

Finalmente o dia chegou.

Com o aproximar das horas comecei a sentir um formigueiro na barriga e o medo do desconhecido começou a apoderar-se de mim. Enquanto conduzia em direcção à Companhia das Lezírias esses receios eram cada vez maiores.

Grupo reunido pelas 18 horas, foram feitas as apresentações dos 14 participantes, onde para além do nome é importante salientar a profissão, para que possamos tirar partido dos conhecimentos de cada um.

Antes da partida, o instrutor “Sargento” Pedrosa mostrou através da carta topográfica o local onde iriamos montar acampamento. Seria próximo de uma linha de agua, com acesso a agua e possivelmente caça e pesca.
O sol estava-se a pôr e teríamos uma caminhada de cerca de 12km por entre estradões e arrozais, esfregámos o corpo com alecrim que é um repelente natural contra insectos e pusemos-nos ao caminho.
Apesar de termos lanternas, não as podíamos usar para irmos habituando os olhos gradualmente á escuridão.

Recolhemos “algodão” de umas canas que iriam servir de cama para atear o fogo e ainda apanhámos umas varas de sabugueiro que iríamos usar no dia a seguir embora não soubesse na altura para que fim.

Chegados ao acampamento e de imediato montámos os abrigos usando apenas uma lona. Fiz parelha com a Sofia que já tinha estado no 1º SURVIVAL, éramos as únicas mulheres que se aventuraram a passar as 44 horas no mato.

Abrigos montados e logo de seguida foi altura de aprender a atear o fogo por fricção “Bow Drill” e vos garanto que não é nada fácil. O fogo deveria manter-se aceso 24h/dia não só para nos manter quentes, mas também para ferver a água retirada da barragem que iríamos consumir durante a nossa estadia. Colocámos a agua em latas directamente na fogueira e para melhorar o sabor juntámos rama fresca de pinheiro que tem vitamina C.
Aprendemos ainda orientação pelas estrelas através de determinadas constelações para saber onde fica o Norte.

A noite já ia longa, o cansaço e a fome já se notava quando o Pedrosa nos deu uma caixinha com larvas vivas e explicou que são uma excelente fonte de nutrientes e convidou cada um de nós a experimentar. Peguei em 4 ou 5 e meti á boca, o que não nos mata torna nos mais fortes.
Um petisco com sabor a sementes de girassol.

dia 26 sabado

A manha de sábado começou com uma grande surpresa, a desistência de um dos elementos, mas no mato não ha tempo a perder.
Era altura de construir armas para serem usadas seja para pescar e caçar. Na noite anterior já tínhamos enrolado estopa que havia de servir para fazer o fio para o arco, as flechas foram feitas de trovisco e as pontas da seta com o alumínio retirado das latas. Ainda foi feito um arpão e uma fisga, todas as armas teem um uso especifico. Para o almoço fez se uma farinha das bolotas que resultou num belo pão mas que tinha um sabor péssimo, ou seja preferi não comer. Á tarde já se notava o cansaço devido ao pouco alimento, quase só tínhamos bebido agua quente e ainda só havia passado um dia. Felizmente as linhas de pesca providenciaram nos um belo jantar, carpas. Apesar da sua pele ser rija e ter muitas espinhas o seu sabor era agradável acho que com fome tudo sabe bem. O isco usado foram grãos de milho, quem diria.
Aqui tivemos uma das lições mais importantes o respeito pela natureza, dela só tiramos o que realmente precisamos para a nossa sobrevivência, tirar a vida a um ser vivo é um acto de respeito.

dia 27 domingo

Domingo, dia de desmontar o acampamento, deixar tudo arrumado de modo a eliminar o maior numero de vestígios de que tínhamos estado ali acampados, mas antes aprender mais umas técnicas de sobrevivência. Aprendemos novas formas de purificar agua em pirâmide com ramas verdes, terra e carvão, o que trazer num kit de sobrevivência, a planear o que colocar numa mochila quando nos aventuramos no desconhecido durante 24 ou 48 horas, outras maneiras de fazer fogo e o que vestir numa caminhada.
Antes do regresso ainda fomos ver e recolher as linhas de pesca e os laços. Conseguimos mais uma carpa e um coelho para o almoço.
Matar um peixe parece facil embora não o seja, mas matar um coelho??
É preciso inspirar… coube me a mim a tarefa. Não me orgulho apenas o fiz para  podermos comermos. Aprendi como o fazer bem feito e com o respeito que o animal merece, aprendi a aproveitar a pele, a tirar as tripas, a separar a bilis para não estragar a carne.
Antes do regresso aprendi como apagar a fogueira sem deixar rasto e garantindo que ela não se voltasse a atear.

Para finalizar tivemos que regressar pelo mesmo caminho que tínhamos percorrido de noite e sem luz, mas desta vez sem a ajuda do Pedrosa, teriamos que recorrer á nossa memoria e ao nosso instinto de orientação.

De volta á Commpanhia das Lezirias a vontade de agua fresca sem sabor e sem estar quente era o nosso maior anseio.
O balanço feito por todos foi muito positivo, a aprendizagem, a partilha de conhecimentos, a entreajuda, a camaradagem prevaleceu sempre, não houve um eu individual, houve um grupo de amigos unidos em prol de todos.
Depois do abraço de grupo final ficámos a ansiar pelo proximo Survival.