Um pouco de Luz sobre as malditas cãibras…

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O tema cãibra interessa aos corredores, por razões óbvias. Contudo, ainda não se consegue explicá-lo, nem informar de forma taxativa como evitar o problema ou enfrentá-lo. Mas existem “teorias” discordantes entre si sobre as cãibras musculares que muitas vezes despedaçam as esperanças de corredores.

A medicina desportiva descreve as cãibras musculares como “contracções musculares involuntárias, dolorosas e espasmódicas, que ocorrem durante ou logo após o exercício”. É importante salientar que estamos falando de cãibras associadas ao exercício, e não de qualquer outra situação patológica que leve às cãibras. Uma série de trabalhos de dois grupos tem liderado as pesquisas no assunto nos últimos anos: na Universidade de Cape Town, na África do Sul e nos Estados Unidos, com Kevin Miller.

As pesquisas mais recentes dos sul-africanos procuraram associações entre a ocorrência de cãibras numa ultramaratona ou num lronman com variáveis de treino, performance e exames de sangue dos participantes. Os resultados mostraram que não havia diferenças importantes nos níveis sanguíneos de sódio, potássio, magnésio, cálcio, glicose, osmolalidade plasmática, concentração de hemoglobina (estes dois últimos são referências para o grau de hidratação de um individuo) entre os corredores que tiveram ou não cãibras. No entanto, uma das variáveis medidas num dos estudos, foi a actividade eléctrica presente na musculatura durante o repouso (eletromiografia).

No grupo de atletas com cãibras, a actividade eléctrica muscular encontrava-se elevada, mesmo que eles estivessem repousando deitados, então teoricamente com a musculatura relaxada. Outro ponto interessante é que num dos estudos, o grupo de atletas com cãibras, havia corrido em tempos mais fortes em comparação ao de seus “controles” que não tiveram cãibras durante a prova, apesar de ambos terem feito cargas similares de treino durante a sua preparação. Ou seja, o grupo com cãibras tinha forçado mais o ritmo em relação ao treino que haviam feito durante a sua preparação. Também foi constatado que corredores com cãibras, haviam realizado treinos mais intensos nos três dias anteriores à prova, tendo corrido mais rápido na primeira metade. Todos estes resultados apontam para uma disfunção muscular decorrente de actividade exagerada como explicação para o fenómeno das cãibras durante o exercício. Nem desidratação nem falta de minerais Já os americanos abordam o problema por outro aspecto. Num dos trabalhos, o grupo desidratou os seus participantes em 3% via exercício, ou cerca de 2,1 kg para uma pessoa de 70 kg, e depois, testou o limiar de estimulação para cãibras.

Explica-se: utilizando a técnica de estimulação eléctrica da musculatura, é possível determinar que frequência de estímulo é necessária para que se obtenham cãibras. Por outras palavras ainda, o músculo é forçado a contrair em pulsos cada vez mais frequentes, digamos 10, 20, 30 vezes por segundo, até que se obtenha uma cãibra.

Este trabalho mostrou que a perda de 3% de massa corporal e consequente perda de eletrólitos (minerais) e aumento da osmolalidade plasmática não tiveram quaisquer efeitos no limiar de cãibras, sugerindo pouco ou nenhum efeito da desidratação e perda de minerais (nessas quantidades).

Um segundo estudo, utilizando esta mesma metodologia, mostrou que pessoas com histórico de cãibras, possuem um limiar de estimulação mais baixo, ou seja, são mais susceptíveis a cãibras, necessitando de menos estimulação eléctrica para obtê-las. Estes resultados suportam a hipótese do outro grupo, de que as cãibras associadas ao exercício, são fruto de uma disfunção neuromuscular, ao invés de serem decorrência da perda de electrólitos ou água.

Água de conserva!

Um resultado inusitado deste mesmo grupo foi encontrado recentemente, ao avaliar-se uma teoria popular. Os autores decidiram testar se beber água de conservas (picles) tinha algum efeito sobre a ocorrência de cãibras.

Novamente pessoas foram induzidas por estimulação eléctrica, e imediatamente um grupo ingeriu a água de conserva, enquanto o outro tomou água pura. Surpreendentemente, a água de conserva reduziu a duração das cãibras em 50 segundos, sem no entanto afectar as concentrações plasmáticas de electrolítos, mesmo cinco minutos após a sua ingestão.

Os investigadores criaram então a hipótese de que sensores na região da boca, estimulariam algum reflexo que inibiria o disparo de motoneurónios responsáveis pela contracção muscular involuntária.

Contracção muscular e fadiga Toda de um a contracção muscular é decorrente

estímulo eléctrico. Electricidade é

o método escolhido pelos nervos para transmitir impulsos do cérebro para a musculatura. Essa electricidade é gerada a partir da constante troca de ions de sódio e potássio de dentro para fora da célula e vice-versa (ions são moléculas electricamente carregadas).

Assim, não é surpresa que as cãibras sejam associadas à carência destes ions. Os outros minerais (rnagnésío, cálcio) actuam noutras partes do processo de contracção muscular. [ algumas situações patológicas graves, é possível que a carência destes ions leve à cãibras. No entanto, estamos a falar de situações de falência quase geral do organismo, e não de uma cãibra nos gémeos durante a corrida.

Durante o exercício, o nosso corpo perde líquidos e sais minerais. Só que ele perde muito mais líquidos do que minerais. Então, a concentração de todos eles aumenta, e não diminui. Ingerir sais minerais nesse caso, só faz aumentar ainda mais esta super-concentração. Imagine uma piscina de 100 litros com 14 mil pedras dentro. Temos uma concentração de 140 pedras por litro (qualquer semelhança com a nossa concentração de sódio, não é mera coincidência:

Se a nossa piscina for correr por uma hora e perder cinco litros de água junto com 200 pedras, a concentração da nossa piscina não diminui, ela aumenta para 145 pedras por litro

Essa conta vale para todos os outros electrólitos do organismo. Obviamente que a ingestão de água (com ou sem electrólitos) irá dissolver um pouco essa concentração, mas normalmente o máximo que ocorre é tudo voltar ao normal.

Uma outra possibilidade, é que a desidratação em si, por diminuir o tamanho das células e deixar as suas paredes mais próximas e talvez instáveis perante estímulos eléctricos, pudesse ser o causador das cãibras. Estudos como o que mostramos, desaprovam essa teoria, além dos milhares de atletas que se desidratam sem apresentar cãibras.

O problema das cãibras parece residir mesmo na excitabilidade das fibras (independente de hidratação), que se modificaria com a fadiga. É como se, após muito tempo fazendo a mesma actividade, o músculo começasse a descoordenar, com o processo de contracção e relaxamento saindo dos eixos.

É importante observar que, como mostraram os trabalhos que acabamos de descrever, as cãibras raramente aparecem em situações em que a quantidade de actividade física realizada é moderada para o indivíduo. Ou seja, quem está acostumado a correr dez quilómetros em 40 minutos, dificilmente têm cãibras, a menos que tente correr em 38.

O fenómeno parece estar intimamente relacionado a algum “erro de treino”. Erro não é a melhor palavra, mas fica claro que a fibra não está preparada para transmitir estímulos por tanto tempo ou tão repetidamente, o que possivelmente poderia ter acontecido se ela tivesse sido melhor treinada. Esta interpretação final é mais um passo lógico, baseado nos estudos na área, não necessariamente uma conclusão científica, e pode não confirmar-se verdadeira com o tempo.

Este exercício que fizemos em procurar informações em diferentes análises, por assim dizer, é de extrema importância para o corredor.

Quase todas as análises guiam-nos para a hipótese de desidratação, perda de sais, algumas indo até a hipóteses como má circulação e acumular de ácido láctico.